Pura Connection · Alexandre Vieira
Alexandre Vieira quase perdeu o pé em acidente e já pensa em voltar a lutar
O faixa-preta conta como os médicos lhe deram 1% de chance e como usou a lógica do treino de jiu-jitsu para se recuperar.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 16 dez 2024 (1:02:18).
Quatro médicos discutiam em volta da maca e deram a Alexandre Vieira 1% de chance de salvar o pé. O faixa-preta, que dá aula numa academia na Califórnia, entrou na sala de cirurgia certo de que sairia sem a perna. Ouviu os médicos explicarem ao amigo que talvez fosse preciso amputar na metade da perna, por ser melhor para a prótese. Acordou no CTI, desceu a mão e encontrou o pé no lugar.
Era a terceira vez do Alexandre no Pura Connection, e desta vez a conversa foi quase toda sobre o acidente de moto que interrompeu os planos dele de voltar a competir no adulto. Assisti ao episódio e o que me chamou atenção foi como ele explica a recuperação com a lógica do treino: pequenos objetivos, um de cada vez, do mesmo jeito que se monta uma técnica no tatame.
“Eu te dou 1% assim, a gente vai tentar, mas é 1% de chance só.”
Alexandre Vieira, no Pura Connection · 0:13:49
O acidente depois da aula
Segundo o Alexandre, ele voltava para casa por volta das nove da noite, depois de um dia de aulas e de um treino ótimo, numa Harley antiga que tinha comprado nos Estados Unidos. Ele conta que já tinha tido todo tipo de moto e que evitava as freeways, usando a moto só para ir à academia e à praia. Numa rua por onde sempre passava, uma motorista fez um retorno proibido e acertou em cheio o pé dele.
No começo ele achou que a batida tinha sido só na moto. Quando olhou para baixo, o pé estava deslocado e sangrando. Com 6% de bateria no celular, filmou o pé e mandou para um amigo, porque sabia que uma mensagem dizendo só que tinha caído de moto não ia convencer ninguém. A polícia e a ambulância chegaram rápido, e pouco depois havia umas 20 pessoas da academia no hospital.
Ele descreve a pior dor da vida. A morfina passou em minutos, o sangue esguichava a cada respiração e, segundo o que os amigos contaram depois, ele pedia que alguém o apagasse e chegou a bater a cabeça na maca. Os médicos amarraram o Alexandre e cauterizaram a perna com ele acordado. Só então veio um remédio muito mais forte, que o deixou paralisado, de olhos abertos, ouvindo a conversa sobre a amputação.
Pequenos objetivos, como no treino
As imagens mostravam os ossos do pé triturados e uma artéria perdida. Quando abriram o pé e puxaram os ossos, segundo o Alexandre, a circulação voltou. Ainda não era garantia. Foram duas semanas de observação, depois um segundo hospital e uma cirurgia de enxerto de 14 horas, com duas equipes, que tirou pele, músculo, tendão e veia da coxa direita.
Foi aí que ele montou o método. Cada etapa virou uma meta: primeiro saber se ficaria com o pé, depois se o enxerto pegaria, depois ficar em pé, depois tirar os ferros. Ele diz que nunca foi de projetar muito à frente e que isso ajudou.
A comparação que ele faz com o jiu-jitsu é direta. No treino dele, a técnica é aprendida, repetida até não ter mais dúvida e só então testada no treino específico: primeiro com a posição já encaixada e um minuto para raspar, depois começando da meia-guarda, depois da guarda aberta, até chegar ao treino de cinco minutos começando em pé. Do micro para o macro, nas palavras dele.
“Então a mesma coisa, eu tô em micro indo pro macro.”
Alexandre Vieira, no Pura Connection · 0:56:35
O Alexandre também tomou uma decisão consciente sobre os remédios. Os analgésicos eram derivados de opioide, e ele conta que viu gente no quarto pedindo remédio o tempo todo. Com medo de ficar viciado, e sabendo que dor alta significaria mais tempo internado, passou a conviver com a dor em vez de pedir mais dose. Um amigo disse que o hospital tinha mostrado por que ele não bebe nem usa droga: ele não gosta de perder o controle. O previsto era mais um mês internado. Ele saiu em uma semana.
Segundo ele, os médicos atribuíram a recuperação rápida ao fato de ele ser atleta, nunca ter fumado e não beber. Disseram que, se fumasse, o enxerto dificilmente pegaria.
O fisioterapeuta dos campeões
O primeiro passo depois da cama foi duro. Ele conta que andou uns dez passos com andador, a pressão caiu e ele chorou, dizendo ao enfermeiro que treinava três vezes por dia e não tinha fôlego para chegar até a janela.
A fisioterapia pelo hospital só começaria meses depois. Ele procurou o Guto, fisioterapeuta que conhecia pela internet e que, segundo o Alexandre, trabalhou com Fabrício Werdum, com Minotauro e Minotouro, participou da recuperação de Anderson Silva depois da canela quebrada e tratou Rômulo Barral. O Alexandre conta que o Rômulo lutou e venceu o Mundial e o ADCC no mesmo ano com um músculo da coxa rompido, sem cirurgia, depois que os médicos diziam que ele teria de operar.
Ele foi perguntar quanto ia custar, sem saber se conseguiria pagar. O Guto começou a sessão, mandou que ele viesse dia sim, dia não e disse que iam recuperar aquilo juntos. O Alexandre chorou. Os médicos previam que ele chegaria ao Brasil de muleta. Chegou andando sem bota, já tinha voltado a dar aula para crianças e adultos e passou um dia inteiro na academia mostrando técnica.
O plano de voltar ao adulto
Antes do acidente, o Alexandre queria fazer em 2025 o circuito que nunca tinha feito no adulto: Brasileiro, Europeu, Pan e Mundial, além do Asia Open e do Pan Pacific. Ele diz que ainda quer, mas que agora pensa primeiro em quando vai poder fazer posição de novo, depois em rolar leve, depois num campeonato menor. A pele da coxa ainda está fina, um ponto chegou a abrir e ele não pode arriscar uma infecção. No Rio, em pleno calor, nem ao mar podia ir.
Ele leva a cicatriz com humor. Chama o pé de Frank, de Frankenstein, e diz que a pele virou arte moderna, que só quem entende de arte enxerga a beleza.
No fim, ele volta ao tatame para explicar o que tenta ensinar aos alunos agora que lidera uma academia. A parte mais difícil, diz, é ensinar o aluno a não desistir. Faltando dez segundos, ainda dá tempo de brigar.
“Eu não quero saber se você vai ganhar, bicho, eu quero saber se você não vai desistir.”
Alexandre Vieira, no Pura Connection · 1:00:15
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.