Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Álvaro Romano
Álvaro Romano conta como preparou Minotauro e criou a ginástica natural
O preparador que conheceu Rolls Gracie numa viagem de surfe ao Peru fala da preparação de campeões de jiu-jitsu e MMA e do treino mental que fez com o Minotauro.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 8 fev 2021 (0:51:38).
Durante duas semanas, no fim de cada treino, o Minotauro se deitava e ouvia o Álvaro Romano descrever, em detalhe, o dia da luta: o vestiário, o aquecimento, a caminhada até o ringue e um estádio inteiro gritando contra ele. O Álvaro monitorava a pulsação do lutador enquanto falava. No dia de verdade, contou, aconteceu exatamente o que eles tinham visualizado.
A história foi um dos pontos altos do episódio 18 do podcast do Muito Mais Ação Jiu-Jitsu. O convidado é o criador da ginástica natural, um dos primeiros a fazer preparação física específica para lutador no Brasil. Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi como tudo começou: numa rua de uma cidadezinha no Peru, com o Rolls Gracie.
O encontro com Rolls Gracie no Peru
O Álvaro nasceu no Rio de Janeiro e cresceu na rua e na praia. Aos 13 ou 14 anos, já era o que ele chama de "cara da praia", surfista, como muitos da geração dele. Foi nessa época que conheceu o Malibu, com quem morou na mesma rua por muitos anos e de quem continua amigo.
Ele contou que fez uma viagem ao Peru em 1973 e voltou para uma temporada de surfe em 1974 e 1975. Numa dessas caminhadas por uma cidadezinha, parou para conversar com um amigo, e junto dele vinha o Rolls. Por coincidência, estavam hospedados na mesma casa. Ali nasceu uma amizade.
Foi com o Rolls, segundo o Álvaro, que ele aprendeu a dieta Gracie, direto da fonte, no dia a dia. Os dois surfavam juntos e ele diz que foi conhecendo a personalidade e a filosofia de vida do Rolls de perto. Quando se despediram, o Rolls deu o caminho: ao chegar ao Brasil, procurar o Fábio Santos na academia.
“Eu aprendi a dieta Gracie ali com ele, direto da fonte, e aí eu comecei uma mudança radical na minha vida.”
Álvaro Romano, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:08:55
De volta ao Rio, o Álvaro entrou na faculdade de educação física e foi treinar com o Fábio Santos. Ele lembra que não havia nenhum surfista treinando ali e que aquilo mudou sua vida por completo. Até hoje, contou, passa longos períodos sem comer carne vermelha.
Preparação física quando ninguém fazia
Segundo o Álvaro, na época o lutador de jiu-jitsu se preparava de um jeito muito empírico. Ele começou a trabalhar com preparação física para luta em 1987 e diz que não se lembra de ninguém fazendo esse trabalho antes. Na Gama Filho, onde muitos atletas olímpicos treinavam, viu judocas japoneses em intercâmbio fazendo aquecimentos com o peso do próprio corpo, bem diferentes dos brasileiros, e levou aquilo para o tatame.
Ele também deu crédito ao Rolls. Contou que o Rolls já entendia a importância da preparação física e que os dois planejavam implantar um programa juntos numa nova academia que o Rolls ia abrir. O Rolls morreu antes disso. O Álvaro seguiu, e diz que ele mesmo foi a primeira cobaia do método.
A lista de quem passou pelas mãos dele é longa. O Álvaro citou o Fábio Gurgel e o Murilo Bustamante, de quem fez, segundo ele, todas as lutas da carreira, incluindo a luta contra o Tom Erikson, que ele lembra ter durado 40 minutos. Trabalhou também com o Minotauro, o Minotouro e o Vitor Belfort. No judô, contou, chegou à faixa-marrom.
Na conversa, o Álvaro defendeu que preparador de lutador precisa conhecer luta. Ele contou que viu, nos Estados Unidos, um atleta de luta fazendo a mesma preparação de jogador de futebol americano, o que para ele não faz sentido nenhum.
O treino mental com o Minotauro
O Álvaro disse que a parte mental foi o grande diferencial da carreira dele. Em 1991, lembrou, na época do desafio entre jiu-jitsu e luta livre, deitava o Marcelo Behring, um dos primeiros atletas a treinar com ele, no chão para sessões de relaxamento e visualização da luta. Não havia muito retorno sobre se aquilo funcionava.
Quando o Minotauro o procurou, o Álvaro disse que se sentiu como se tivesse sido chamado para a Seleção Brasileira. O lutador vinha de lesões e ia enfrentar a pressão de um estádio inteiro a favor do adversário. O Álvaro montou o trabalho de visualização e, no começo, falava todas as situações em voz alta. Um dia ficou calado para ver o Minotauro mentalizar sozinho, e foi o próprio lutador quem pediu para ele continuar falando, todo dia.
“Aconteceu exatamente aquilo que a gente já tinha visualizado.”
Álvaro Romano, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:28:18
Depois da luta, segundo ele, um repórter perguntou ao Minotauro se não tinha sentido a pressão, e a resposta foi que eles tinham treinado aquilo. Para o Álvaro, o ganho parece pequeno, mas no alto rendimento qualquer 0,001% conta.
Da praia para 55 países
A ginástica natural, segundo o Álvaro, é a junção da vida pessoal com a profissional. Nasceu dos exercícios com o peso do corpo que ele fazia na praia, da yoga, do alongamento, do tai chi, de movimentos de animais e de uma movimentação no chão parecida com o jiu-jitsu. Ele contou que era menos técnico do que muitos colegas de tatame e apostou no preparo físico como diferencial.
Um divisor de águas veio com o fisioterapeuta conhecido como Filé, com quem trabalhou por cinco anos. Foi ele, contou o Álvaro, que o chamou na Copa de 2002, quando o Ronaldo estava lesionado e havia 15 dias para recuperá-lo. O Álvaro diz que também foi a ponte que levou o pessoal do jiu-jitsu para a yoga e que todos passaram por ele.
Aos 50 anos ele se mudou para os Estados Unidos. Hoje, segundo ele, a ginástica natural tem professores certificados em 55 países, perto de 600 profissionais no mundo e mais de 200 no Brasil. No fim, deixou uma dica simples de respiração: uma mão no peito, outra na barriga, e inspirar devagar mexendo só a de baixo. Segundo ele, a maioria das pessoas não consegue isolar o diafragma na primeira tentativa.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.