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Pura Connection · Bezinho Otero

Bezinho Otero e a virada contra a Gracie Barra no Brasileiro de Equipes

Faixa-preta e atleta de stand up paddle, ele conta como era treinar jiu-jitsu no Leblon dos anos 90, com rivalidade entre academias e a praia do lado do tatame.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 30 jul 2020 (1:00:00).

O placar era 2 a 0 para a Gracie Barra na final do Brasileiro de Equipes da faixa-roxa, em Belo Horizonte. A terceira luta era a de Bezinho Otero, e ela estava empatada e travada. Faltando um minuto, o preparador físico dele gritou do alambrado que ele ia entregar. Segundo o Bezinho, foi a raiva daquele grito que fez ele partir para cima como um trem desgovernado, marcar pontos no fim e começar a virada da equipe.

Hoje o Bezinho é mais conhecido pelo stand up paddle, esporte em que foi pioneiro no Rio. Mas na live do Pura Connection ele passou boa parte da conversa no tatame, e eu gostei de ouvir. É o retrato de uma geração do Leblon que ia da praia para a academia e da academia para a praia sem trocar de turma.

Do bodyboard ao kimono, em 1994

O Bezinho conta que começou no mar ainda moleque, em Saquarema, onde o pai tinha casa. Pegou onda de bodyboard, competiu, e largou tudo aos 14 anos, quando entrou no jiu-jitsu. Foi em 1994, puxado por um amigo do colégio que morava no Leblon. A academia ficava perto de casa e tinha como professores Roberto Traven e Alexandre Paiva, entre outros.

Ele lembra que o treino começava com corrida na areia, porque a academia ficava a um quarteirão da praia. A turma corria, voltava, e já pisava no tatame. E tinha um treino da época que hoje ninguém faria: apagavam a luz, simulavam uma invasão na academia e cada um tinha que se defender sozinho. Segundo ele, isso deixou todo mundo casca-grossa e muito bom em defesa pessoal.

“Cada um por si, se defendendo naquele momento. Deixou todo mundo muito casca-grossa.”

Bezinho Otero, no Pura Connection · 0:07:58

Zona Sul contra a Barra

O Bezinho não esconde que o clima entre as academias era pesado. De um lado ficava a turma da Gracie Barra, do outro a Zona Sul, com Carlson Gracie, Alliance e Nova Geração. Nos campeonatos, contou, atleta de uma equipe não falava com o da outra. Ele diz que chegou a sofrer um pouco com isso, até porque já vinha do localismo do surfe.

A história mais engraçada é a do ônibus. Depois de uma briga numa festa, espalhou-se no Leblon que um ônibus cheio de gente da Gracie Barra estava vindo tirar satisfação. Cada um correu para casa com medo. Segundo o Bezinho, era mentira. Hoje ele acha que aquela animosidade não tinha sentido e diz que o esporte se organizou e as gerações passaram a se respeitar.

A final em Belo Horizonte

O Bezinho explicou o formato do Brasileiro de Equipes da época: cinco atletas por equipe, com dois reservas, e ganha quem faz três pontos primeiro. Na final contra a Gracie Barra, ele foi o número 3. O adversário vencia por dois pontos e uma vantagem, e ele diz que estava lutando com um olho no professor rival, que gritava sentado no chão perto do placar.

O que mudou a luta, segundo ele, foi o preparador físico, com quem a turma treinava todo dia na areia do Leblon. Faltando um minuto, o sujeito começou a gritar que ele ia entregar. O Bezinho diz que funciona assim: precisa de alguém provocando para ir para cima. Ele fez dois pontos e duas vantagens no último minuto e ganhou. A Alliance fez os pontos seguintes e virou para 3 a 2. Foi campeã brasileira de equipes na faixa-roxa.

“Fiquei com uma raiva tão grande do meu preparador, que estava no alambrado, que esqueci de quem gritava lá embaixo.”

Bezinho Otero, no Pura Connection · 0:17:29

Na faixa-marrom veio outro Brasileiro de Equipes, que ele lembra como o primeiro campeonato de jiu-jitsu que pagava dinheiro. A equipe leve não fechou, e faltavam dois nomes para a pesada. O Bezinho e um companheiro chamado Léo, os dois com 67 quilos, entraram na categoria dos pesados. Segundo ele, o Léo enfrentou um adversário de perto de 100 quilos e ganhou, e a equipe foi campeã.

A faixa-preta e a troca pelo mar

O Bezinho conta que também deu aula na academia e numa escola americana, e que foi bronze num Pan-Americano na Flórida por volta de 2000. Recebeu a faixa-preta em 2003, nove anos depois de começar, e no mesmo ano ficou em terceiro no primeiro Brasileiro de faixa-preta. Perdeu a semifinal no fim, numa posição errada com 30 segundos no relógio. Ele tira dali uma lição que leva para o mar: a alavanca tem que ser feita de uma vez só, na hora certa.

Foi aí que a chave virou. No ano seguinte, ele foi pela primeira vez ao Havaí, com a recomendação de Rodrigo Comprido, que era amigo de gente de lá. Levou o kimono. Conta que, nas academias havaianas, os locais tentavam logo pegar o surfista brasileiro, e que ele ia ganhando respeito rolando com calma. Foi assim que fez amigos que tem até hoje.

“O pânico mata no mar. E o jiu-jitsu dá para a gente essa noção de como lidar com uma força muito maior que a gente.”

o apresentador, no Pura Connection · 0:34:09

A frase acima é do André, apresentador do programa, e o Bezinho concordou na hora: nem no tatame nem no mar adianta se desesperar. A ligação entre as duas coisas aparece no Black Belt Surf Challenge, campeonato de surfe só para faixas-pretas que acontecia na semana seguinte ao Mundial de jiu-jitsu. Ele competiu na primeira edição e, em 2017, ganhou as duas categorias, surfe e stand up. Fico com o que ele disse sobre aquele dia: teve sorte, mas estava preparado quando a onda chegou.

“Você tem que saber que treinou para aquilo. Desistir jamais.”

Bezinho Otero, no Pura Connection · 0:35:11

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.