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Pura Connection · Cácio Zanon

Cácio Zanon conta como preparou a cabeça de Diogo Reis e Mica para o ADCC

Psicólogo e faixa-preta, ele passou dez anos travando nas lutas antes de virar o preparador mental da equipe de Melqui Galvão.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 27 mar 2023 (1:36:24).

Um dia o telefone de Cácio Zanon tocou com um DDD que ele nem reconheceu. Era Manaus. Do outro lado, Melqui Galvão dizia que estava procurando profissionais para cuidar dos meninos dele e perguntava, direto e reto, o que o Cácio podia fazer pela equipe. Meses depois, o psicólogo e faixa-preta estava em Manaus, a 15 dias do ADCC, cuidando da cabeça de Diogo Reis, Mica Galvão e Fabrício Andrey.

Assisti à conversa do Cácio no Pura Connection e fui fisgado pela história dele antes mesmo de chegar no ADCC. Ele passou dez anos competindo sem ganhar um ouro, porque travava na hora da luta. Foi estudando por que travava que ele virou o cara que hoje prepara campeões.

Do bullying ao tatame

O Cácio conta que chegou ao jiu-jitsu criança, levado por um colega maior da escola que não aguentava mais ver ele apanhar. No tatame, lutando com gente maior, ele passou a se sentir capaz. No dia seguinte, no colégio, parou de aceitar o jogo do agressor. Na adolescência largou o jiu-jitsu pelo videogame e seguiu o caminho da família, que é toda de advogados: foi estudar direito.

Foi o desgaste dessa vida, com faculdade, estágio e trabalho no negócio da família, que o levou de volta ao tatame. Segundo ele, o jiu-jitsu mostrou áreas dele que ele não conhecia: ganhava de gente maior e perdia para quem subestimava. Aquilo, diz, começou a curar.

Mas competir era outro assunto. O Cácio lembra do primeiro campeonato da IBJJF, em 2013, no Tijuca Tênis Clube, na faixa-azul, contra um mexicano baixinho, careca, barbudo e tatuado. Ele tinha certeza de que ia apanhar. Ganhou no instinto, mas conta que ali percebeu que travava. Foram dez anos no adulto só com pratas e bronzes.

“Eu não acessava 10% do meu potencial da preparação.”

Cácio Zanon, no Pura Connection · 0:06:25

Duas crises e uma nova profissão

O Cácio diz que tinha muito preconceito com psicologia. Achava coisa de doido e que o remédio dele era o jiu-jitsu. Só procurou terapia depois de sentir o estrago de um esgotamento. Gostou tanto que largou o direito e foi estudar psicologia, ainda morando com os pais.

Na faixa-marrom, conta, virou sócio do professor numa escola e chegou a dar aula de 10 a 12 horas por dia, para iniciante, criança, competidor e particular, enquanto ainda competia. Esgotou de novo. Aí se afastou da equipe, recomeçou do zero e criou o projeto Arte Suave Psicologia, que começou como um perfil no Instagram.

Ele diz que recebeu muito comentário dizendo que depressão e ansiedade eram frescura. A comparação que ele faz é simples: quem luxa o cotovelo vai ao ortopedista, e o cérebro também pode adoecer.

Como foi a preparação para o ADCC

Quando o Melqui ligou, o Cácio estava terminando uma capacitação em neurociência do esporte e lendo o livro original da teoria do flow. Segundo ele, a proposta que fez foi partir da saúde mental, de forma individual, porque o ADCC seria uma estrutura enorme, com 16 mil pessoas prontas para vaiar ou aplaudir, drone, fogo e show. Um atleta com medo ou vergonha fica mal até fisicamente.

O trabalho começou a distância, bem antes do evento. Havia dois objetivos, contou: a Brenda Larissa, mulher do Fabrício, ser campeã na faixa-preta adulto, e o Diogo, o Mica e o Fabrício estrearem no ADCC. Para cada um ele prescrevia uma rotina própria de atenção plena. Ao Diogo, por exemplo, mandou fazer os exercícios sentado numa cadeira no quintal. Criou áudios de visualização da luta perfeita, adaptados para o jiu-jitsu, e fazia sessões individuais toda semana. Ele faz questão de dizer que nunca ensinou nada de performance: isso era com o Melqui.

Faltando 15 dias, o Cácio pegou um avião pela primeira vez na vida. Conta que tinha medo de voar e precisou de dez sessões de terapia antes. Em Manaus, participou de todos os treinos, atendeu os atletas entre eles e foi com o grupo a uma cachoeira num fim de semana para renovar as energias. O que mais o impressionou, segundo ele, foi que tudo foi feito entre eles, em Manaus, com os amigos de infância como parceiros de treino.

“Eu nunca vi algo do tipo na história do esporte.”

Cácio Zanon, no Pura Connection · 0:41:47

Ele acha que o documentário lançado depois não pegou a essência do que aconteceu. E conta a parte mais dura: o Diogo e o Fabrício, que ele descreve como irmãos, estavam na mesma categoria, e quando o Diogo avançou ficou muito abalado. O Cácio diz que naquela madrugada, depois de uma ligação do Diogo, trabalhou mais duas horas com ele. E que o próprio Melqui não comemorou naquele dia.

Confiança demais também derruba

O André perguntou sobre a derrota do Mica na final do ADCC, que o próprio Mica atribuiu ao excesso de confiança. O Cácio explica pela teoria do flow: o jeito como o atleta enxerga a própria habilidade diante do desafio vai da apatia até a ansiedade extrema, passando por relaxado, focado e hiperconfiante. Se o desafio parece grande demais, a ansiedade amassa. Se parece pequeno demais, o atleta pode ser surpreendido.

Ele não arrisca uma fórmula para aquela luta. Diz que naquele nível há variáveis demais, que o atleta oscila de estado várias vezes na mesma luta e que os dois já tinham se enfrentado muitas vezes nas faixas coloridas. Mas é honesto numa coisa: admite que nunca tinha passado pela cabeça dele que o Mica pudesse perder. Para o Cácio, a derrota mostrou que ele é humano.

“Eu já tinha tirado o Mica do patamar de humano.”

Cácio Zanon, no Pura Connection · 1:22:16

O método dele, contou, tem três pilares: entender como o próprio cérebro funciona, técnicas escolhidas para a história de cada um e trabalho individual nas crenças do atleta. Ele cita um estudo com jogadores de basquete em que quem só visualizou o arremesso livre melhorou quase tanto quanto quem treinou todo dia. E lembra de uma conta que faz com todo competidor: na competição tem tatame, técnico, árbitro e regra protegendo a integridade física, então, na teoria, é mais seguro que o treino.

O que fica

O Cácio conta que, antes de ganhar, perdeu quatro vezes na primeira luta. Na lua de mel, foi com a mulher lutar o Internacional de Master e disse a ela que estava trabalhando só com campeão sem nunca ter sido um. Segundo ele, agora está acontecendo. Ele ainda fala de defesa pessoal com um ponto que eu gosto muito: aprendeu um pouco do sistema progressivo de Sylvio Behring, que diz que faixa-preta precisa entender de segurança, e não tem vergonha nenhuma de sair correndo quando percebe perigo.

O que fica da conversa é um cara que sofreu na pele tudo que o competidor sente de ruim e resolveu estudar isso. Para ele, o jiu-jitsu obriga a gente a estar presente, e é por isso que faz tão bem para a cabeça.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.