Dos Nossos Podcast · Caio Borralho
Caio Borralho conta como gastou a bolsa em Vegas até ganhar contrato no UFC
O lutador da Fighting Nerds lembra do judô em São Luís, do jiu-jitsu que começou por ordem do sensei e da aposta que fez depois de ouvir um não de Dana White.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 1 out 2024 (0:30:20).
O Caio Borralho venceu a primeira luta no Contender, o programa em que o UFC distribui contratos, e mesmo assim ouviu de Dana White que ele não interessava. Em vez de voltar para o Brasil, ele mandou a equipe embora e ficou sozinho em Las Vegas, disposto a gastar a bolsa inteira esperando uma segunda chance. Ela veio dois dias depois, com uma luta marcada para dali a três semanas numa categoria acima da dele. Ele nocauteou no primeiro round e saiu de lá com o contrato.
Ele contou essa história no Dos Nossos Podcast, do Fabrício Werdum, na primeira parte de uma conversa gravada logo depois da luta principal que ele fez contra Jared Cannon. Assisti ao episódio e o que mais me chamou atenção foi como a carreira dele passa pelo tatame antes de chegar ao octógono: judô desde criança, jiu-jitsu por imposição do professor e anos de treino ao lado de Demian Maia.
O jiu-jitsu que começou por castigo
O Caio é de São Luís, no Maranhão, e começou no judô ainda criança. Segundo ele, só foi para o jiu-jitsu aos 18 anos, depois de perder uma competição de judô numa chave de braço. O sensei chegou para ele e deu o recado sem rodeio.
“Tu só vai treinar judô se tu treinar jiu-jitsu.”
Caio Borralho, no Dos Nossos Podcast · 0:01:32
Ele admite que odiou os primeiros três ou quatro meses. Depois foi pegando o jeito, e na primeira competição de faixa-branca entrou no absoluto, fez umas oito lutas no mesmo dia, ganhou todas e levou mil reais de prêmio. Na mesma sala havia um tatame onde a turma do muay thai treinava. Ele ficava olhando, resolveu experimentar e, com dois meses de muay thai, fez uma luta amadora de kickboxing e nocauteou no segundo round. Foi ali, segundo ele, que decidiu que queria o MMA e o UFC.
Antes disso ele sonhava em ser atleta olímpico de judô. Competiu bastante em torneios brasileiros e regionais, mas conta que não tinha maturidade para isso na época: fazia faculdade de química industrial na federal do Maranhão, ia a muita festa e depois ia treinar. Chegou a dar aula de matemática e química. No sexto período da faculdade veio o convite para treinar em São Paulo, na Vila da Luta, com o Demian Maia.
Demian Maia, wrestling e a Fighting Nerds
O Caio passou anos treinando com o Demian e fala dele como ídolo. Para ele, o que fez a diferença na carreira do Demian no MMA foi o wrestling. Na visão do Caio, muita gente sai do jiu-jitsu achando que vai usar só o jiu-jitsu no MMA, mas antes é preciso levar a luta para o chão e saber ficar por cima. Ele lembra que o Demian ia para os Estados Unidos, passava uma temporada treinando wrestling e voltava.
Hoje o Caio treina wrestling e jiu-jitsu com Wagner Mota, que foi o treinador do Demian, e com Flávio Álvaro, que ele chama de lenda de São Paulo, veterano com mais de 70 lutas e várias delas no Rio Heroes, o evento sem luvas. A parte em pé ele faz com o Pablo, o treinador principal, na Fighting Nerds, na Barra Funda. Nas lutas ele leva os três: o Pablo para a trocação, o Mota para o jiu-jitsu e o Flavião para o trabalho na grade e o ground and pound.
Ele contou que as cinco primeiras vitórias no UFC vieram usando wrestling e jiu-jitsu, e só as duas últimas foram por nocaute. Na defesa de queda ele diz ficar tranquilo por causa da base do judô, que dá noção de equilíbrio.
O Werdum aproveitou o assunto para contar a própria história com o judô. Quando chegou à Espanha, ainda faixa-azul, não tinha com quem treinar jiu-jitsu em Madri. Começou a dar aula numa academia dentro do estádio do Atlético de Madrid, montando e desmontando o tatame todo dia numa sala de dança. A seleção olímpica espanhola de judô treinava no mesmo lugar, e ele passou a treinar com eles.
“Os caras me jogavam de tudo que é jeito, mas quando eu chegava no chão eu me dava bem com eles.”
Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:04:08
A aposta em Las Vegas
A parte que mais rendeu na conversa foi o Contender de 2021. O Caio lutou pela primeira vez no programa em setembro e venceu Aaron Jeffery, que ele descreve como o favorito da luta. O problema, segundo ele, é que ganhou os dois primeiros rounds e diminuiu o ritmo no terceiro. O Dana não gostou e disse que não estava interessado.
Foi aí que ele tomou a decisão. Pediu ao empresário que avisasse o matchmaker Mick que ele ficaria na cidade para qualquer luta de última hora, ou até na categoria de cima.
“Eu vou gastar toda a minha bolsa que eu peguei aqui nesse Contender. Eu vou ficar aqui.”
Caio Borralho, no Dos Nossos Podcast · 0:15:28
A equipe voltou para o Brasil e ele foi treinar na Xtreme Couture. A luta tinha sido numa terça. Na quinta, o Mick ligou para o empresário oferecendo uma luta dali a três semanas, no próprio Contender, na categoria até 93 quilos. Ele aceitou na hora, nocauteou no primeiro round, foi até o Dana e ganhou o contrato. O Caio lembra de ter dito ao Pablo que aquela era a hora de dar um tiro no escuro.
“Essa é a nossa hora de fazer isso, então eu vou ficar.”
Caio Borralho, no Dos Nossos Podcast · 0:17:33
Cannon, corte de peso e cabeça no lugar
A luta contra o Jared Cannon, em 24 de agosto, foi a primeira luta principal dele no UFC. Ele estava em 12º no ranking e o Cannon em quinto, e o Caio aceitou com cinco semanas de antecedência, vindo de seis vitórias seguidas no UFC, oito contando as duas do Contender. Ele diz que o Cannon é o cara que bate mais duro da categoria. O Caio saiu com um corte que levou 12 pontos e quase nocauteou o americano no último minuto. A luta ganhou o bônus de luta da noite, e ele contou que levou três bônus nas últimas quatro lutas.
O corte de peso também entrou na conversa. Fora de luta, o Caio fica entre 97 e 98 quilos. Para essa luta ele estava com 102 faltando três semanas, desceu com a ajuda do nutricionista e lutou com 96,5, depois de recuperar peso após a pesagem. Entre três e quatro semanas antes da luta ele corta açúcar e suco, e só tirou o carboidrato na véspera da pesagem. No último dia tirou cerca de 4,2 quilos. Nem sempre deu certo: ele contou que no UFC São Paulo, contra Abus Magomedov, teve uma diarreia forte e lutou com uns 91 quilos, e que no Future MMA um problema no esôfago o fez vomitar e quase não recuperar peso.
Para ele, a saída nessas horas é não dar ouvidos ao corpo nem mostrar nada ao adversário.
“Como eu acordar no dia da luta, ruim ou bom, eu vou resolver. Essa é a minha mentalidade.”
Caio Borralho, no Dos Nossos Podcast · 0:28:25
O Caio também contou que escreve antes de cada luta agradecendo pela performance e pelo bônus de 50 mil, e que o bônus veio nas duas vezes em que fez isso.
O que fica da conversa
Saí do episódio com a impressão de que a história do Caio é a de alguém que foi empurrado para o jiu-jitsu e acabou fazendo dele a base de tudo. A chave de braço que o tirou do judô virou o caminho até a Vila da Luta, o wrestling do Demian virou referência e a teimosia em Las Vegas virou contrato. Na segunda parte da conversa ele fala dos bastidores com outros nomes do UFC, mas essa primeira já mostra de onde vem a confiança dele.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.