Podcast Nem Me Viu · Cara de Sapato
Cara de Sapato conta como quase desistiu antes de ganhar 1 milhão no PFL
No Nem Me Viu, o faixa-preta de jiu-jitsu lembrou o começo em Salvador, o TUF com Wanderlei, a ajuda de Cigano e Buchecha e a falta que Leandro Lo faz.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 14 set 2022 (2:20:50).
O Antônio Carlos Júnior, o Cara de Sapato, vinha de três derrotas e três lesões seguidas, tinha saído do UFC e estava sem dinheiro. Ele contou ao Fabrício Werdum, no Nem Me Viu, que naquele momento pensou em largar a luta. Foi o Buchecha, que morava na casa dele na época, quem não deixou. Depois disso, ele foi campeão do PFL e levou o prêmio de um milhão de dólares.
“Você não vai desistir não. Não vou deixar você desistir, está maluco? Você tem muita coisa pela frente.”
Cara de Sapato, no Podcast Nem Me Viu · 1:11:26
Assisti à conversa e o que mais gostei foi ver como o jiu-jitsu está no centro da história dele. O Cara de Sapato é faixa-preta, competiu até 2012 e só então foi para o MMA. E os amigos que o seguraram no pior momento são quase todos do tatame.
Do jiu-jitsu em Salvador ao MMA
Nascido em João Pessoa, ele morou muito tempo em Salvador e começou no jiu-jitsu aos 15 anos, numa academia que tinha uma turma do vale-tudo. Foi lá que conheceu o Cigano, que começou a treinar com uns 20 anos para perder peso. Segundo o Cara de Sapato, os dois, grandões, passaram a ajudar a turma do vale-tudo nos treinos.
Quando os pais se separaram, ele voltou para João Pessoa, em 2006, e se dedicou só ao jiu-jitsu. Ficou competindo até 2012, ano em que passou uns dez meses na Austrália, disputou o Pan-Americano e o Mundial e deu seminários. Ali decidiu que aquele seria o último ano de competição no kimono.
De volta a Salvador, foi treinar boxe com o professor Luiz Dórea e citou também Renato Velame, dos tempos de faixa-azul. A partir daí, segundo ele, tudo foi muito rápido: a primeira luta de MMA foi em julho de 2013 e, em janeiro de 2014, ele já estava fazendo a luta de entrada no TUF Brasil.
“Eu fiz a minha primeira luta de MMA em julho de 2013. Em janeiro de 2014 eu estava fazendo a luta de entrada no TUF.”
Cara de Sapato, no Podcast Nem Me Viu · 0:25:29
O apelido, aliás, veio do tatame. Ele contou que foi um professor chamado Ricardinho quem olhou para o rosto dele e disse que parecia um sapato de bico fino. Ele odiou, claro, mas o nome pegou de tal jeito que hoje se apresenta como Sapato no meio da luta e só usa Antônio fora dela. Ele também disse que passou uns dois anos na Chute Boxe e que se orgulha de ter feito a ponte entre o Rafael Cordeiro, que considera o melhor treinador do mundo, e o Mike Tyson.
O TUF, Wanderlei e a briga com Sonnen
No TUF, ele ficou no time do Wanderlei Silva, que ele chama de irmão, contra o time do Chael Sonnen. Ele contou que os vestiários ficavam um de frente para o outro e que presenciou a briga entre os dois treinadores, com os lutadores correndo para separar. Sobre o Sonnen, surpreendeu: disse que o americano o tratou muito bem na casa e contou que planejava em casa o que ia falar para provocar.
Na casa, ele fez três lutas em 45 dias e foi campeão dos pesados na mesma edição em que Warlley Alves venceu na categoria até 84 quilos. Ele também relembrou o caos de 16 homens dividindo uma casa: cansado de ver a pia cheia, escondeu a louça e deixou só um prato e um copo para cada um. O Paulo Borrachinha, que tinha treinado com ele em Salvador e entrou no mesmo time, virou desafeto, segundo ele por comentários que fazia pelas costas.
Peso, lesão e o recomeço no PFL
O Cara de Sapato contou que no UFC lutava na categoria até 84 quilos e precisava perder uns 16 quilos, o que tirava performance. No PFL, luta até 93, com o peso em que treina, e disse que se sente mais forte. Numa temporada fez cinco lutas no ano, e isso deu ritmo.
Sobre a última luta do contrato com o UFC, ele admitiu que estava se achando e subestimou o adversário, que o nocauteou. E foi nesse período difícil que o Cigano apareceu de novo. Segundo ele, o Cigano, que já o levava para as lutas quando era campeão do mundo, também deu apoio financeiro. O Buchecha não o deixou desistir e o apresentou ao empresário que passou a cuidar da carreira dele.
O resultado veio no PFL. Ele contou que se ajoelhou quando venceu, de gratidão, e que no ano do título pagou mais imposto do que tinha pago na carreira inteira. A temporada seguinte parou por causa de uma lesão no joelho, com ligamento cruzado, menisco e cartilagem, e ele veio operar no Brasil, perto da família.
A falta que Leandro Lo faz
O momento mais pesado da conversa foi sobre Leandro Lo. O Cara de Sapato lembrou que o Leandro era a alegria da turma, que no carnaval juntava todo mundo na casa de um amigo e que, nas festas, ele ia só para ver o Leandro dançar. Contou que recebeu a notícia da morte por uma ligação do Buchecha, que chorava ao telefone.
Ele disse que pediu ao Buchecha para não lutar logo depois, e o Buchecha respondeu que ia lutar pelo Leandro, e ganhou. O Cara de Sapato também criticou a organização de um evento de grappling por ter posto o Felipe Preguiça, outro amigo do Leandro, para lutar dias depois.
“O Leandro era tipo a alegria do carnaval da gente.”
Cara de Sapato, no Podcast Nem Me Viu · 1:36:56
O que fica
O Cara de Sapato repetiu várias vezes que, depois de um momento muito ruim, sempre veio um muito bom, e brincou com a frase que atribui ao Rodolfo Vieira: depois da tempestade vem a ambulância. Para quem é do jiu-jitsu, a lição está nos nomes que ele cita: Cigano, Buchecha, Leandro Lo. A carreira dele no MMA foi salva por gente que ele conheceu no tatame.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.