Pular para o conteúdo

Pura Connection · Alex Atala

Chef e faixa-preta, Alex Atala conta o que o jiu-jitsu ensinou a ele

Do convite de Marcelo Behring num restaurante de São Paulo aos treinos com Demian Maia, o cozinheiro fala de ego, lesão e da frase de Rickson que virou seu mantra.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 3 jul 2023 (1:34:27).

Muita gente conhece Alex Atala como um dos chefs mais famosos do Brasil. Pouca gente sabe que ele é faixa-preta de jiu-jitsu. E, logo no começo da conversa no Pura Connection, ele faz questão de corrigir quem o apresenta assim.

“Eu costumo dizer que eu tenho uma faixa-preta. Ser um faixa-preta é outra história, e essa é uma lida diária.”

Alex Atala, no Pura Connection · 0:03:11

Assisti à entrevista esperando ouvir sobre cozinha, e ela tem muito disso. Mas o que me pegou foi um cara de 55 anos falando do tatame com o mesmo cuidado com que fala de um ingrediente. Segundo ele, talvez só 10% da vida dele aconteça dentro de um tatame. O jiu-jitsu, diz, está no resto todo: na yoga, no mergulho, nos negócios e na hora de olhar para os três filhos.

Uma maçã e um convite de Marcelo Behring

A entrada do Alex no jiu-jitsu tem cena de filme. Ele trabalhava num restaurante em São Paulo que decorava cada mesa com uma maçã furada, com um antúrio espetado. Um dia, contou, entrou um cliente com amigos, tirou a flor, jogou de lado e começou a comer a maçã. O Alex achou o cara folgado. Era Marcelo Behring, que ele conhecia de nome e não tinha reconhecido.

Segundo o Alex, o Marcelo gostou dele e chamou para treinar. Ele não tinha dinheiro, mas foi. Descreveu o professor como alguém de agilidade mental, humor, acidez e sagacidade, e disse que só anos depois entendeu que ali estava uma referência eterna do esporte. Ele não chegou a ser graduado pelo Marcelo, mas guarda aquele primeiro ano "com muito romance".

O Alex lembrou que o Marcelo chegou a São Paulo praticamente junto com Fábio Gurgel, a quem ele tem orgulho de chamar de amigo. Depois de um tempo, o Alex largou o jiu-jitsu para mergulhar na profissão. Diz que não se arrepende, embora tenha uma dor nisso.

De volta pelos filhos, de faixa branca

A volta veio por causa dos filhos, há um pouco mais de 12 anos, segundo ele. E veio com um desafio extra. O Alex já era um cozinheiro de sucesso, pai de dois garotos que o viam como vitorioso, e precisou amarrar a faixa branca e levar uma esfrega de um garoto na frente de todo mundo.

Para ele, é justamente essa a graça. No tatame não existe mais velho ou mais novo, mais rico ou mais famoso, e ninguém alivia o pescoço de ninguém. A gente vai envelhecendo, fazendo sucesso e ficando mimado pela vida, disse, e o jiu-jitsu tira esses mimos.

O Alex também contou uma lição que tirou das lesões. Segundo ele, 99% das vezes em que se machucou treinando foi quando achou que podia mais do que realmente podia. Ele passou por duas cirurgias de joelho em três anos e ainda tem outras pela frente. A primeira lesão grave, o rompimento do ligamento cruzado, mudou o jogo dele: era passador, virou guardeiro porque passar doía demais. Hoje, quando assiste a uma luta, repara primeiro no que o guardeiro pode fazer.

Conforto no desconforto

A frase que ele mais repete veio de Rickson Gracie, e foi uma das primeiras que ouviu no jiu-jitsu: encontrar conforto no desconforto. O Alex diz que virou o mantra dele de todas as manhãs.

“A vida não é fácil, não é justa, não é cor-de-rosa, mas ela é incrível a partir do momento em que você consegue estar bem nos momentos mais desconfortáveis.”

Alex Atala, no Pura Connection · 0:05:54

Ele contou que adora treinar com gente mais velha e mais experiente, justamente porque muitas vezes não consegue fazer nada. Falou da emoção de ter treinado com Roger Gracie, com Renzo Gracie e com Rayron Gracie ainda novinho. Para ele, a emoção vem de estar diante da origem daquilo que ele gosta.

Também citou uma fala do Fábio Gurgel que o marcou: o jiu-jitsu é técnica, e a luta é instinto. Quando a técnica se sobrepõe ao instinto, segundo o Alex, você controla a ansiedade e fica cem por cento presente.

O aluno de 62 anos e as três leis da cozinha

Hoje o Alex treina com Demian Maia. Ele contou a história de um homem que começou na academia aos 62 anos, curvado, inseguro, sem querer fazer o trenzinho com a turma. Três anos depois, é faixa-azul. Para o Alex, poderia ser roxa ou marrom, porque o que mudou foi o homem: a postura, a barba cuidada, a autoestima. Ele disse que essa transformação de postura diante da vida ele só viu no jiu-jitsu.

Na cozinha dele, contou, valem três regras: não correr, não parar e não falar. Não correr para não atrapalhar ninguém, não parar porque sempre tem alguém precisando de ajuda, não falar para pôr o foco inteiro no que está fazendo. Ele diz que é o lado da cozinha que levou para o tatame.

E há o caminho inverso. O Alex explica que, na cozinha, a pessoa passa da ojeriza à tolerância e da tolerância à paixão quando se expõe ao que tem medo. Ele diz que viveu isso com a confeitaria, que odiava porque sabia que não sabia. Ele contou isso logo depois de o apresentador lembrar que Roger Gracie colocava alunos para treinar em posições difíceis: é o mesmo processo.

Um passaporte pelo mundo

O Alex viajou por Rússia, Europa, Estados Unidos, Japão e Austrália por causa da profissão. Segundo ele, em todo lugar o jiu-jitsu funcionou como passaporte: basta ligar para alguém, o cara faz uma conexão e você é mais do que bem recebido. Ele chama isso de fraternidade.

E vê ali o jeito brasileiro. Contou que muita gente pelo mundo vem falar duas ou três palavras em português com ele e que, no fim do treino, ninguém vai embora: todo mundo senta no tatame para a resenha. Para ele, o jiu-jitsu levou junto essa maneira brasileira de estar com as pessoas. O que fica para mim da conversa é um dos chefs mais conhecidos do país tratando a própria faixa-preta como uma busca de todo dia.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.