Pura Connection · Demian Maia
Demian Maia conta a lição de Hélio Gracie que guia sua escola de jiu-jitsu
Depois de 14 anos no UFC, o faixa-preta conta por que o jiu-jitsu serve mais ao inseguro do que ao casca-grossa e como aprendeu a aceitar a montada.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 11 set 2023 (0:57:24).
Demian Maia passou 14 anos no UFC, lutando com os melhores do mundo, e hoje, dono de uma escola de jiu-jitsu, diz que a frase que mais tem na cabeça é de Hélio Gracie. Segundo o Demian, o velho mestre dizia que o casca-grossa não precisa do jiu-jitsu dele: já é confiante e, se quiser, vira atleta. Quem precisa, nas palavras do Hélio, é o frouxo, a pessoa insegura e assustada. É nela que o jiu-jitsu faz a maior diferença.
Assisti à conversa do Demian com o André no Pura Connection e achei interessante ver um dos maiores nomes do jiu-jitsu no MMA falando pouco de luta e muito de ensino. Ele está naquela fase de transição, ainda treinando forte, mas com a cabeça na academia, nas filiais e em como fazer o aluno comum ficar no tatame.
Aceitar a montada, a lição que veio do Hélio
O Demian conta que conversou em Miami com o amigo Pedro Valente sobre o que o Hélio queria dizer com o jiu-jitsu do mais fraco contra o mais forte. Segundo ele, a resposta está nas lutas antigas do Hélio: o adversário passava a guarda, montava, e ele ficava tranquilo. Aceitava o momento ruim, saía na hora certa e esperava o outro errar para finalizar.
O esporte, segundo o Demian, bagunçou um pouco isso. Com pontos e dez minutos de luta, o atleta entra em desespero para não ceder posição. Ele diz que repete aos competidores da academia: se a guarda foi passada e o árbitro já deu os três pontos, não adianta sair dando as costas com sete minutos pela frente.
“Aceita, respira e acha a melhor maneira de sair.”
Demian Maia, no Pura Connection · 0:09:01
Para ele, essa calma é algo que nenhuma outra arte marcial tem, nem o jiu-jitsu japonês nem o judô que deram origem ao brasileiro. Foi desenvolvimento da família Gracie e dos alunos, diz.
Como era treinar com Rickson, segundo Fábio Gurgel
A mesma lição apareceu numa história que o Demian ouviu de Fábio Gurgel, que foi professor dele. Quando era mais novo, o Demian perguntou como era treinar com Rickson Gracie, o ídolo dele (que ele conta ter encontrado de novo recentemente, na Califórnia). O Fábio já era campeão mundial e duríssimo, e mesmo assim respondeu que não conseguia fazer nada.
Segundo o relato, dava para arrancar uma passagem, uma raspagem ou uma queda, mas nunca se chegava numa posição boa de verdade. Mesmo em vantagem, parecia que o Rickson estava ganhando. E uma hora ele pegava.
O Demian também lembra que em 2001, ainda faixa-marrom, já dava aula e percebeu sozinho que conseguia ler a personalidade do aluno pelo jeito de treinar: o tímido joga fechado, o doido joga maluco. Para ele, corpo e mente não se separam, e quando o aluno muda no treino muda também na vida.
O aluno comum e a defesa pessoal
A virada de chave que o Demian descreve é entender que quase ninguém que entra numa academia vai ser atleta. Por isso, diz, o professor precisa ser mais certeiro. Na escola dele, contou, o treino de competição existe, mas é para quem quer: no dia anterior à gravação, ele tinha feito seis rolas de oito minutos só com os mais duros. Para o aluno que trabalha o dia inteiro, um rola de cinco minutos pode ter o mesmo peso mental.
“O que eu treinei na minha vida em um ano, talvez alunos meus não vão treinar em dez.”
Demian Maia, no Pura Connection · 0:22:37
Segundo o Demian, a escola dele se apoia em três pilares: autoconfiança, resiliência e controle da vaidade. O terceiro é o que mais derruba gente, diz: o cara acha que é casca-grossa até ser montado por alguém com metade do peso.
Ele conta que visitou nos Estados Unidos a academia de Ryron e Rener Gracie e saiu impressionado com a ideia de que o aluno que fica só três meses precisa ir embora sabendo se defender. Por isso a terceira aula do programa dele é a guarda segura: quem cai por baixo numa briga não pensa em raspar nem em pegar o braço, pensa em não tomar soco e em levantar.
“Não existe chave de braço nem raspagem se você vai tomar um soco no queixo.”
Demian Maia, no Pura Connection · 0:43:51
Sobre a dúvida de sempre, o jiu-jitsu contra várias pessoas, o Demian cita o Rener: qualquer luta contra vários é difícil, mas quem sabe cair e levantar rápido tem mais chance. E completa com uma imagem dele: ninguém quer pular num mar revolto, mas se cair é melhor saber nadar.
A vida depois do UFC
O dia a dia mudou muito, segundo ele. Antes eram dois ou três treinos por dia sem fazer mais nada. Hoje ele leva os filhos à escola, resolve a academia no computador, treina das 10h às 11h30 e sai correndo para reunião com patrocinador, gravação como comentarista do UFC no Brasil e comentários para a Band, onde diz usar a formação em jornalismo. Mesmo assim, conta que alguns treinos da semana ainda são como se estivesse competindo.
Sobre voltar a lutar, o Demian disse que fez lutas de jiu-jitsu sem kimono recentemente, que uma luta com Georges St-Pierre o interessa e que teria vontade de mais uma de MMA, mas que não existe essa conversa e ele não alimenta a esperança. Citou ainda Mica Galvão como um fenômeno e contou que ganhou o ADCC e a Copa do Mundo no jiu-jitsu.
O que ficou para mim foi a humildade de um campeão admitindo o que perdeu. Ele diz que ficou muitos anos sem dar aula e sem entender o negócio de academia, e que por isso procura quem sabe: Fábio Gurgel, os Valente, Ryron e Rener. Contou até que passou um domingo cedo assistindo ao curso de fundamentos que os dois irmãos mandaram para ele. Está escrevendo um livro de histórias voltado para o alto rendimento, com um amigo jornalista da Folha de S.Paulo.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.