Connect Cast · Demian Maia
Demian Maia revela como trocou o kung fu pelo jiu-jitsu e chegou ao UFC
Do despejo no centro de São Paulo às três horas rolando com Rickson Gracie: a história que o lutador diz nunca ter contado inteira.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 7 fev 2022 (2:41:29).
Aos 18 anos, sem nunca ter feito uma aula de jiu-jitsu de verdade, Demian Maia subiu num tatame em Bertioga, no litoral de São Paulo, para lutar vale-tudo. Ganhou usando o que tinha aprendido em duas ou três aulas com um amigo. Segundo ele, foi ali que o kung fu que praticava desde os 12 anos perdeu a briga para o jiu-jitsu.
Assisti à conversa do Demian no Connect Cast e fiquei preso do começo ao fim. Ele contou a própria história com detalhes que, nas palavras dele, ninguém tinha ouvido: a adolescência apertada em São Paulo, o despejo da família, a briga que o tirou da primeira academia e a tarde em que passou três horas rolando com o maior ídolo dele.
“Eu treino kung fu há seis, sete anos, e o que eu usei aqui foi o que aprendi em duas, três aulas com aquele amigo meu.”
Demian Maia, no Connect Cast · 0:30:48
Do judô ao kung fu, sem dinheiro para o jiu-jitsu
O primeiro contato com luta, contou o Demian, foi o judô, ainda pequeno, numa academia no centro de São Paulo. Com 11 anos ele quis fazer taekwondo, mas a mãe achou a mensalidade pesada e pediu o cheque de volta depois de uma aula. Com 12, em agosto de 1990, começou no kung fu com um amigo da escola, porque era mais barato. Os filmes do Van Damme e do Bruce Lee faziam o resto.
Era a época em que todo mundo queria saber qual luta funcionava de verdade. Numa revista de luta ele viu o anúncio de um evento no Ibirapuera com jiu-jitsu contra outras artes marciais e foi assistir. Lá viu lutar Marcelo Behring, que ele nem sabia quem era. Em 1994, um amigo apareceu com a fita VHS do UFC 2, e o Demian lembra de ver Royce Gracie fazendo tudo aquilo.
A vontade de treinar esbarrava em duas coisas, segundo ele. O jiu-jitsu em São Paulo era muito caro e elitizado, e a família não tinha dinheiro. No fim de 1994 a mãe foi despejada e ele foi morar com os avós num quarto e sala no centro, perto da Cracolândia, dormindo na sala com o irmão, separados por uma cortina.
O vale-tudo de Bertioga
Em 1996 ele viu o cartaz de um campeonato de contato livre, que na prática era vale-tudo, e se inscreveu. Um primo de criação, faixa-branca e próximo da turma de Ralph Gracie, mostrou o básico: triângulo, chave de braço, como sair da montada e como pegar a cintura para derrubar.
Com 70 kg, o Demian enfrentou um capoeirista. Contou que o rapaz veio se jogando para dar soco, caiu no colo dele, e aí foi só cinturar, derrubar e montar. Lembrando do que o Royce fazia na fita, ele segurou, soltou os socos e o técnico do adversário jogou a toalha. A luta aparece no documentário Nascidos para o Combate.
Mesmo assim ele demorou a ir para o jiu-jitsu. Na época, contou, o esporte em São Paulo tinha fama de coisa de playboy briguento, e isso o afastava. Ele chegou a escrever uma carta para uma academia de luta livre no Rio pedindo onde treinar em São Paulo. Não deu em nada, e em 1997 ele começou no jiu-jitsu numa academia mais barata na Rua da Consolação, com o professor Fábio Araújo.
O bilhete, a briga e a porta da Alliance
A mudança de academia veio de um bilhete. Segundo o Demian, a faxineira entregou um recado de uma menina pedindo que ele ligasse. Eles namoraram, só que ela já tinha tido um caso com o professor. Veio uma fofoca, uma discussão, e o Fábio Araújo pediu que ele não aparecesse na semana seguinte. Hoje, ele faz questão de dizer, os dois são amigos.
Na mesma época a menina terminou com ele e disse que ele não ia ser nem jornalista nem lutador, porque estava acomodado. Ele cursava jornalismo. Contou que ficou com raiva, mas que ela tinha razão, e que no sábado seguinte já estava na porta da academia de Fábio Gurgel, a Alliance, já faixa-azul.
Ele disse que escolheu o Fábio entre as três grandes de São Paulo (as outras eram a Godoy Macaco e a do Ralph) porque gostava de técnica. No primeiro treino estavam Leozinho, Léo Negão, Tererê e Comprido. O Demian pediu ajuda com a mensalidade e ouviu que tinha que pagar como todo mundo. Para ele, foi a melhor coisa que o Fábio fez. Depois ganhou bolsa ajudando nas aulas, foi vice-campeão mundial de faixa-azul em 1999 e campeão mundial de roxa.
Três horas na casa de Rickson Gracie
O ídolo do Demian sempre foi Rickson Gracie. Ele contou que viu o Rickson pela primeira vez numa fita que passava numa TV de loja no centro de São Paulo, num vale-tudo no Japão. Em 2008, já com cerca de um ano de UFC, pediu ao empresário Paulo Vasconcelos um treino. Recebeu o convite, comprou a passagem no mesmo dia e foi para o apartamento do Rickson no Rio.
“Quando a gente viu, a gente tava sei lá três horas rolando.”
Demian Maia, no Connect Cast · 1:29:20
Em 2009, num evento na China, veio o encontro com o Royce. O Demian estava invicto no UFC, com uma sequência de finalizações, e foi falar com ele.
“Quer dizer que você é o novo Royce Gracie?”
Royce Gracie, no Connect Cast · 1:33:04
Anos depois, contou o Demian, o próprio Rickson entregou a ele em Los Angeles um troféu como representante do jiu-jitsu no MMA. Foi quando caiu a ficha dele.
“Eu achava que o jiu-jitsu era só um meio para um fim, que era o vale-tudo. Hoje eu percebi que o vale-tudo era só um meio para divulgar o jiu-jitsu.”
Demian Maia, no Connect Cast · 1:25:39
Derrotas, hospital e uma nova categoria
Depois de uma luta em janeiro de 2012, em que quebrou a mão, o Demian disse ao empresário e treinador Eduardo Alonso que queria descer para o peso meio-médio, porque os médios estavam grandes demais. O camp voltou a ser quase todo de jiu-jitsu. Vieram três vitórias e depois uma derrota por decisão dividida para Jake Shields em São Paulo, que ele considera uma das maiores dores da carreira. Em seguida perdeu para Rory MacDonald.
Aí veio o susto. Ele contou que pegou uma infecção no ombro que chegou ao osso, voltou ao hospital várias vezes com febre e chegou a achar que podia ser câncer. Os exames não mostraram nada, mas ele ficou três meses sem treinar, pela primeira vez desde os 12 anos. Segundo o Demian, foi ali que largou a obsessão pelo resultado. Depois vieram sete vitórias seguidas e a chance pelo cinturão, que ele aceitou com quatro semanas de treino e um dedo machucado. Perdeu por pontos.
No meio disso tudo teve o boxe. Ele contou que Rodrigo Minotauro o convidou para treinar em Cuba e acabou mandando o Demian para Salvador, para a academia de Luiz Dórea, onde fez amizade com Cigano.
Gratidão e o que fica
Perguntado sobre o adversário mais duro do jiu-jitsu, o Demian apontou Jacaré. Para ele, Roger Gracie é o melhor de todos no kimono, Marcelinho Garcia é o maior peso por peso e Gordon Ryan pode virar o cara no sem kimono.
Sobre a saída da Alliance em 2002, ele contou que houve uma confusão, mas que por volta de 2005 já estava bem com o Fábio Gurgel, que hoje até ajuda com dicas de gestão da Escola Demian Maia. Disse que o jeito de passar a guarda veio muito do Tererê e que tem gratidão pelo Fábio, pelo Leozinho e pelo Tererê.
“Rancor só atrapalha você.”
Demian Maia, no Connect Cast · 2:37:39
O que fica da conversa é um lutador que chegou ao topo do MMA com o que aprendeu no tatame e que hoje enxerga o caminho ao contrário de quando começou. O garoto do centro de São Paulo queria o jiu-jitsu para fazer vale-tudo. O veterano que contou essa história diz que fez vale-tudo para mostrar o jiu-jitsu ao mundo, e que ainda quer voltar a competir numa luta de submission sem kimono.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.