Dos Nossos Podcast · Demian Maia
Demian Maia revela o segredo de Marcelo Garcia: contar até 30 na montada
No Dos Nossos, o faixa-preta explicou por que ensina os alunos a não pegar o braço na hora e contou como virou comentarista do UFC.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 9 mai 2024 (1:33:19).
Quando o Marcelinho Garcia tinha 15 anos, o professor dele tinha uma regra: chegou nos 100 quilos, não pode finalizar. Nem se o adversário entregar o braço. Tem que contar até 30. Passou para a montada, conta até 30 de novo. Só depois pode pegar. Quem contou essa história foi o Demian Maia, no Dos Nossos Podcast, e foi a parte da conversa que mais me pegou.
O Demian foi recebido pelo Fabrício Werdum no estúdio novo, em São Paulo, perto das academias dos dois. Falaram de viagem, de seminário, de judô, de MMA e de comentário na TV. Mas o fio que amarra tudo é o jeito como o Demian pensa o jiu-jitsu: paciência, controle e aceitação.
“Você vai contar até 30, aí ele tinha que ficar lá.”
Demian Maia, no Dos Nossos Podcast · 0:25:39
A regra dos 30 segundos
O Demian contou que sempre admirou o controle de posição do Marcelinho. Faixa-azul e roxa, o Marcelo chegava numa posição e ficava. O adversário errava, ele avançava. Errava de novo, ele avançava mais. Parecia quase uma amarração, mas terminava em finalização.
Um dia, segundo o Demian, ele perguntou ao Paulão, que foi professor do Marcelo quando ele ainda era marrom, como um moleque de 16, 17 anos já tinha aquela paciência. A resposta foi a regra de contar até 30. O Marcelo aprendeu o ajuste antes de aprender a pressa.
O Demian levou isso para as aulas dele. Quando o aluno cai por cima e pega o braço, ele manda segurar 30 segundos ali, mesmo que o outro entregue. Na visão dele, quem tem que estar desesperado é quem defende. O aluno trabalha a ansiedade e, com o tempo, o adversário se desespera e dá o braço sozinho. Ele mesmo treina assim: encaixa uma kimura e não aperta, só para ver se consegue controlar enquanto o outro tenta defender.
“Quem tem que tá desesperado é quem tá defendendo.”
Demian Maia, no Dos Nossos Podcast · 0:26:10
Do azul ao vermelho: o caso Gustafsson
Nessa hora o Werdum lembrou da última luta dele no UFC, contra o Gustafsson. Contou que o Cobrinha passou o camp inteiro dizendo que ele tinha que ficar no azul, nunca no vermelho. Vermelho era ansiedade e desespero. Na luta, ele ficou grudado no braço do sueco um tempão, feito carrapato, e só finalizou quando o Gustafsson deu o braço.
“Eu fiquei no braço dele um tempão, que nem um carrapato, mas não peguei. Só quando ele me deu o braço.”
Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:27:11
O Werdum citou o Pedro Rizzo, que dizia que o que se faz no treino se faz na luta. O Demian concordou e deu o exemplo dele nas costas. Quando começava a perder o alinhamento e tentava um bote, o treinador mandava soltar tudo, esquecer a finalização e voltar a controlar as costas. Segundo o Demian, quem se acostuma a dar bote perde as costas na luta de verdade, e perde a luta junto. Quem termina o round nas costas, mesmo sem finalizar, ganha o round.
Aceitar que está ruim
O Demian contou que mudou o formato dos seminários. Antes ia fluindo. Hoje monta um roteiro, anota os detalhes principais durante a aula (o quadril, o cotovelo) e depois manda tudo por e-mail para os alunos. Faz seminário de um dia ou de três, e o de três ele cobra como se fosse de dois.
Um dos princípios que ele passa é o da aceitação. O pior lugar para estar é com alguém nas suas costas, com os ganchos. O faixa-marrom que tem as costas tomadas por um azul, com o professor olhando, fica com o ego ferido e tenta sair de qualquer jeito. É aí que ele bate.
“Primeira coisa: tá ruim, é na vida e no jiu-jitsu, aceita.”
Demian Maia, no Dos Nossos Podcast · 0:24:07
O Demian também disse que, pelo jeito que o aluno treina, dá para perceber a personalidade dele. E contou que nos seminários sente a intenção de quem rola com ele: tem quem queira treinar duro, o que ele adora, e tem quem fique mole esperando para dar um bote numa guilhotina só para contar aos outros.
Werdum na seleção espanhola de judô
A conversa sobre judô rendeu histórias do Werdum na Espanha. Ele contou que, faixa-azul, treinou com um grupo de jiu-jitsu tradicional em Madri. Depois de uma semana, o professor o desafiou na frente dos alunos. O Werdum finalizou o homem de tudo que é jeito, e os faixas-pretas daquele professor viraram alunos dele. Ele disse que ficou triste, porque gostava de treinar lá.
Depois foi parar no tatame da seleção olímpica de judô da Espanha, do professor Carlos Sotillo. No randori de chão, pegou todo mundo, inclusive o Ernesto Pérez, que segundo ele foi prata olímpica. Em pé, apanhou. Um judoca chamado Fernando, até então o melhor de chão do grupo, deu nele um kata guruma para fora do tatame, de ombro no chão, que o deixou machucado um tempão. O Werdum voltou, chegou a ter 180 alunos e conta que o Sotillo mandava os melhores judocas treinarem jiu-jitsu com ele. Já faixa-marrom de judô, ganhou uma luta por equipes pegando o braço de um adversário que tentou um tomoe nage.
O Demian lembrou que os professores dele, como o Fábio Gurgel e o Saulo Ribeiro, iam treinar judô. E resumiu a diferença entre as artes pelos objetivos: o judô busca o ippon pela queda, pela imobilização ou pela finalização no cotovelo e no pescoço, com muitas regras. O jiu-jitsu busca a finalização e é eficiente numa luta real, por isso a montada vale mais que uma queda.
Arqueologia da luta e UFC Fight Pass
Na parte da carreira fora do octógono, o Demian contou que fez para o UFC o documentário Arqueologia da Luta, que buscava o momento em que o ser humano transformou briga em método. A equipe foi à Grécia, ao Egito e à Serra da Capivara, no Piauí, onde um indígena do Xingu reconheceu numa pintura na pedra o huka-huka.
Quando ele se preparava para a última luta, o UFC o chamou para o Fight Pass no Brasil. O começo foi pesado: regravar os comentários de cerca de mil lutas num estúdio minúsculo, com revezamento entre ele e o Minotauro, em sessões de cinco a sete horas, porque o canal estreava em janeiro. Hoje ele é comentarista oficial e diz que se apoia no Carlão Barreto quando tem dúvida sobre um lutador. Para ele, o público quer ouvir o que só quem esteve lá dentro sabe explicar: o que cada um quer fazer e como sair de uma posição.
Sonnen, Minotauro e o que fica
No quadro de brincadeira do programa, surgiram mais histórias. O Werdum lembrou que finalizou o Chael Sonnen num triângulo em 2009, na 11ª luta dele, e que o Minotauro, com quem lutou duas vezes, emprestou o apartamento na Bahia para ele treinar boxe com o Luiz Dórea. O Demian contou que foi sparring do Vitor Belfort em São Paulo, seu primeiro contato com o MMA profissional, e que lutou contra o Gunnar Nelson na mesma noite de José Aldo contra Conor McGregor.
No fim, o Werdum perguntou qual é o sentido da vida. O Demian respondeu que são as relações entre as pessoas: a conversa, o churrasco, a viagem com os filhos. Saí da entrevista com a regra dos 30 segundos na cabeça. Serve para a montada e, pelo jeito que o Demian fala, serve para o resto também.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.