Pura Connection · Donda Malvadão
Donda Malvadão conta como o jiu-jitsu o tirou do sufoco em Campo Grande
Do garoto magrelo que fugia da escola ao faixa-preta da Black House, ele lembra o jiu-jitsu raiz do Rio nos anos 90.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 13 dez 2021 (1:19:22).
Na primeira vez que Donda Malvadão encarou um lutador de jiu-jitsu, durou uns 20 segundos. Ele chegou ao condomínio de um amigo na Barra da Tijuca achando que ia mandar no pedaço, tentou chutar a cara de um garoto chamado Felipe Jerry e acabou com o pé preso numa chave. Na sequência, levou um mata-leão. Saiu de lá com uma certeza: tinha de aprender aquilo.
Assisti à conversa do Donda no Pura Connection e me diverti do começo ao fim. Hoje ele é conhecido pelos vídeos engraçados na internet, mas a história que ele conta é de um jiu-jitsu duro, do subúrbio e da Zona Oeste do Rio nos anos 90, que pouca gente registrou.
O magrelo que corria da escola
O Donda é de Campo Grande. Ele conta que era magrelo, brincalhão e abusado, e que estudava num colégio público onde valia a lei do mais forte. No fim da aula, diz, tinha até fila para pegá-lo. Ele fugia pulando o muro e correndo até em casa.
Um dia os garotos correram atrás dele até a porta de casa. Ele foi para a casa de um primo, o Edinho, que era bom de briga. O primo pulou o muro para enfrentar a turma achando que o Donda vinha junto, e ele não foi. Segundo o Donda, foi a única vez na vida que ele foi covarde de verdade, e aquilo virou aprendizado.
“Foi a única vez que eu fui covarde de verdade.”
Donda Malvadão, no Pura Connection · 0:05:54
Depois ele foi morar num bairro de classe média e passou por uma academia de kickboxing. Por volta de 1995 e 1996, um vizinho começou a levá-lo para passar fins de semana num condomínio da Barra. Foi lá que aconteceu o encontro com o Felipe Jerry, que o Donda diz ter mudado a vida dele.
Do tatame da Gracie Barra ao mestre de Campo Grande
Na Barra, só se falava de Ryan Gracie e de outros nomes da época. O Jerry levou o Donda à Gracie Barra para tentar uma bolsa, e ele lembra de ver o Ryan de perto pela primeira vez, todo largado, do jeito que imaginava. Conseguiu uma bolsa na filial do Recreio, mas não tinha dinheiro para a passagem.
Aí descobriu que Campo Grande tinha uma academia de jiu-jitsu, a do mestre Vasco Bento. Segundo o Donda, o Vasco vinha de outra linhagem, a de Oswaldo Fadda, que cresceu no subúrbio e foi menos divulgada. Ele ensinava o que o Donda chama de jiu-jitsu para tudo: servia para a rua e para o campeonato. A academia era tão cheia que tinha turmas de manhã, de tarde e de noite, e os campeonatos internos eram tão disputados que ele precisava de cinco lutas para ser campeão dentro de casa.
Em 1997, contou, disputou o primeiro Estadual de faixa-branca do Rio e foi campeão. Ele adora lembrar disso e diz que qualquer um pode conferir na federação.
O baile funk como ringue
A parte mais forte da conversa é sobre o baile funk de corredor, lado A contra lado B. O Donda conta que ia para fazer o chamado mano a mano, um contra um, e que, depois de aprender jiu-jitsu, chegava a fazer dez brigas numa noite. Escolhia sempre o maior. O arroz com feijão bastava: pegava as duas pernas, a famosa baiana, montava e acabava.
“Depois que eu conheci o jiu-jitsu, o tamanho de qualquer um não fazia diferença.”
Donda Malvadão, no Pura Connection · 0:21:29
Na Zona Oeste, lembra ele, a luta forte era a luta livre, e havia rivalidade com o jiu-jitsu. Ele cita Corval, da luta livre, com quem tinha desavença sem nem conhecer. Depois que se conheceram, diz o Donda, virou uma amizade que ele lamenta não ter começado antes.
A Black House e a faixa-preta
Em 2007, contou, o professor Marcelo Nigue, que lhe deu a faixa-preta, dava aula de jiu-jitsu na Black House e o mandou se apresentar a Carlão Barreto. Ele achou que ia trocar de roupa e treinar. O Carlão o mandou direto para o octógono lutar com um aluno do Bolão que ele nem conhecia. Era o teste para entrar na equipe.
Passou, e ali treinou perto de ídolos como Anderson Silva, Ronaldo Jacaré e Lyoto Machida, com Rogério Camões cuidando da musculação. Fez quatro lutas de MMA, com duas vitórias e duas derrotas. Hoje trabalha como segurança e dá aula de boxe.
Um recado para a geração nova
O Donda se preocupa com o que está se perdendo. Diz que a garotada não sabe quem são Tererê, Roberto Traven, Rodrigo Comprido ou Márcio Pé de Pano. Reclama que as equipes com kimono próprio acabaram com os patrocínios que ajudavam o atleta a pagar inscrição, e que hoje tem professor que nunca levou um soco na cara dando aula de luta.
Mesmo com todo o jeito brincalhão, ele fala sério sobre o controle que o jiu-jitsu lhe deu. Conta que hoje tenta resolver tudo na conversa e só se impõe quando a pessoa passa do limite.
Ele lembra uma lição do mestre Vasco Bento para quando alguém chega exaltado: conversa calma, mãos por perto e atenção total. Se o outro partir para cima, é a baiana e a montada, e aí, diz o Donda rindo, o cara muda de ideia rapidinho. Para ele, o lutador de jiu-jitsu tem de saber dar e defender um soco, e o professor precisa ensinar isso explicando que a técnica serve para se defender e nunca para abusar do mais fraco.
“Eu mudei minha postura, mas não mudei meu discurso.”
Donda Malvadão, no Pura Connection · 0:36:38
Ele admite que nunca foi um grande campeão das artes marciais. Mas diz que o jiu-jitsu o levou do garoto que fugia pulando o muro ao homem que se sente à vontade em qualquer lugar.
“Me tornei um grande campeão da vida. O jiu-jitsu me deu isso.”
Donda Malvadão, no Pura Connection · 1:09:44
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.