Pura Connection · Erica Paes
Erica Paes treinou jiu-jitsu escondida do pai até finalizar Cris Cyborg
A paraense formada por Osvaldo Alves conta como saía de casa vestida para o vôlei, por que trocou o UFC pela novela e o que ensina hoje a milhares de mulheres.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 11 abr 2022 (1:19:56).
Aos 11 anos, em Belém do Pará, Erica Paes saía de casa vestida de jogadora de vôlei. O pai não deixava a filha lutar, então ela treinava jiu-jitsu escondida, com um kimono velho que ganhou do primeiro professor. Anos depois, ela seria campeã mundial na faixa-preta e finalizaria Cris Cyborg com um minuto de luta. A história ela contou no Pura Connection.
Assisti à conversa e o que me chamou atenção é que a Erica fala do tatame e da defesa pessoal como uma coisa só. Tudo o que ela construiu, diz ela, saiu do jiu-jitsu: os estudos, os amigos, as conquistas e o trabalho que faz hoje com mulheres vítimas de violência.
“Absolutamente todas as conquistas, sem dúvida nenhuma, foram oriundas do tatame.”
Erica Paes, no Pura Connection · 0:08:45
Karatê para os meninos, vôlei para as meninas
A luta estava na família antes de estar na vida dela. A Erica conta que o pai era faixa-preta de karatê e que os irmãos homens também treinavam. Ela ia junto, ficava assistindo e, segundo ela, executava os katas melhor que os irmãos só de olhar. Mas o pai tinha uma regra: karatê era para os meninos, e as meninas podiam fazer balé, jazz ou vôlei. Ela já nadava no Clube do Remo desde bebê e jogava vôlei.
O jiu-jitsu entrou pela escola, entre o fim de 1991 e o começo de 1992. Ela vivia perdendo as brigas com o irmão mais velho e, num intervalo de aula, viu uma demonstração do professor Ricardo Holanda, que virou o primeiro mestre dela. A Erica disse para ele que o pai não podia saber e que ela não tinha dinheiro. Ele mandou começar assim mesmo e deu um kimono usado. O tatame era de palha de arroz com lona verde, e no fim do treino os alunos carregavam as placas para secar no sol.
Três meses depois veio o teste em casa. O irmão partiu para cima dela, ela baixou numa baiana, derrubou ele na cama e montou. Foi ali que entendeu que aquilo funcionava.
Sem adversárias no Pará, entre monstros no Rio
No começo não tinha menina para lutar. A Erica conta que, nos campeonatos paraenses, chegou a enfrentar um garoto da idade dela. Depois vieram os torneios Norte-Nordeste em Fortaleza e, por volta de 1995 ou 1996, o primeiro Brasileiro no Rio, que ela venceu. Foi aí que ela entendeu que o próximo passo era a cidade.
No Rio, recebeu convite de dois mestres: Carlson Gracie e Osvaldo Alves, ambos com academia em Copacabana. Ela diz que foi muito bem recebida no Carlson, mas se sentiu em casa na academia pequena do Osvaldo, na Ministro Viveiros de Castro. Lá treinavam Zé Mário Sperry, Amaury Bitetti, Paulo Caruso, Murilo Bustamante, Carlão Barreto e uma turma do Amazonas que viajava para competir, com Ronaldo Jacaré ainda faixa-azul, André Galvão e Fredson Paixão. Foi o Osvaldo que deu a faixa-preta a ela, e foi com ele que ela virou campeã mundial.
Ela lembra que, na época, a referência do jiu-jitsu eram os Gracie, e que de repente estava no meio das pessoas que via no jornal. No Pará, conta, já treinava o que chamavam de freestyle, uma espécie de vale-tudo de treino em que, no lugar do soco, se dava tapa.
O pai mudou de lado. Segundo a Erica, com as medalhas e as matérias na televisão, ele virou o maior fã dela. Nunca treinou jiu-jitsu, mas ia às lutas e gritava da arquibancada para ela passar a guarda.
Cyborg, UFC e a troca pela novela
A vitória mais importante da carreira, segundo ela, foi sobre a Cris Cyborg. A Erica conta que treinava de 8 a 10 horas por dia e que, quando finalizou com um minuto de luta, muita gente disse que foi sorte. Ela discorda.
“Quanto mais você treina, quanto mais você se dedica, mais chance você tem de fazer com que as coisas deem certo.”
Erica Paes, no Pura Connection · 0:30:45
Entre 2014 e 2015, a convite do Fredson Paixão, ela passou três meses em Las Vegas. Segundo a Erica, a organização queria uma revanche com a Cyborg e pediu que ela fizesse uma luta antes. Ela voltou ao Brasil, lutou e finalizou de novo com um minuto. Estava organizando a mudança para Las Vegas quando o telefone tocou: era a autora Glória Perez, que queria conhecer a história dela.
Pesaram na decisão duas coisas que ela contou sem rodeio. Os atletas do UFC tinham acabado de perder o direito de levar patrocínio próprio, que era de onde vinha o dinheiro de verdade. E o corpo já cobrava: foram cinco cirurgias nos dois joelhos, além de hérnia de disco, depois de competir desde os 11 anos. Ela aceitou o convite, parou de lutar e passou a preparar a atriz Paola Oliveira para viver a Geisa, personagem inspirada na vida dela. Conta que conseguiu botar cenas de jiu-jitsu na novela, com hierarquia e reverência ao mestre.
O jiu-jitsu que salvou a própria Erica
Tem uma história que ela contou e que explica o resto da vida dela. Aos 14 anos, segundo a Erica, um homem adulto tentou levá-la à força para dentro de um carro. Ela conseguiu se soltar com técnica. Diz que ali teve certeza de que estava no lugar certo.
“Nunca sofri nenhum tipo de assédio ou de abuso e também jamais me senti desrespeitada no tatame.”
Erica Paes, no Pura Connection · 0:17:06
Ela se considera privilegiada por isso, porque recebe muitas denúncias de atletas, do jiu-jitsu, do MMA e de outras lutas, que desistiram da carreira por assédio. Hoje coordena, com o Governo do Estado do Rio, um programa de defesa pessoal para mulheres que, pelas contas dela, já atendeu mais de 120 mil. O mestre Sylvio Behring faz parte do trabalho. As professoras são sempre mulheres faixas-pretas, e homens faixas-pretas entram como monitores. A regra dela é clara: o programa não ensina mulher a bater em homem. Ensina a reconhecer o perigo, a não travar e a sair da situação.
Ela também é contra curso de defesa pessoal por vídeo, sem professor olhando a execução, porque passa uma falsa sensação de preparo. Os planos agora incluem levar o programa a outros estados e ao exterior, além de uma versão para meninas de 4 a 12 anos, feita em cima do tatame. Saí da conversa com a sensação de que a Erica nunca largou a luta. Só mudou o adversário.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.