Dos Nossos Podcast · Esquiva Falcão, Rey Physique
Esquiva Falcão revela luta clandestina de MMA perdida numa chave de braço
No Dos Nossos, o medalhista olímpico explicou por que boxeador não se arrisca no MMA e Werdum rebateu com a lista do que um lutador completo precisa saber.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 18 jun 2024 (1:29:50).
O Esquiva Falcão tem 30 vitórias e uma derrota no boxe profissional. Mas tem também uma luta de MMA no currículo, que quase ninguém conhece. Foi clandestina, em São Paulo, valendo 300 reais. E terminou numa chave de braço. Ele contou essa história no Dos Nossos Podcast, sentado ao lado do Fabrício Werdum, e para um site de jiu-jitsu não tem como começar por outro lugar.
O episódio teve dois convidados: o Esquiva, às vésperas de enfrentar o campeão olímpico Hebert Conceição, e o Rey Physique, fisiculturista que virou boxeador de eventos de influenciadores. A conversa rodou em volta de uma pergunta que sempre volta: boxeador ganha de lutador de MMA, ou o contrário?
A orelha do adversário já avisava
O Esquiva contou que ainda era da seleção brasileira quando um amigo ofereceu a luta. Três rounds de três minutos, 300 reais, que na época era dinheiro. Ele topou. Quando chegou, viu o adversário: baixinho, com a orelha toda grossa. Pensou na hora que o cara era bom de chão.
O plano era manter a distância. Jogou o jab, jogou o direto, e o baixinho entrou e derrubou. Começou a bater nele no chão. Só que o pai do Esquiva tinha ensinado a virar. Ele virou, ficou por cima e bateu de dentro da guarda. Aí veio o erro: foi levantar, apoiou a mão do jeito errado e o adversário encaixou uma chave de braço reta. Ele bateu na hora.
“Fui levantar errado, que eu botei a mão, ele foi, deu a chave de braço e já bati.”
Esquiva Falcão, no Dos Nossos Podcast · 0:35:38
Foi a primeira e única. Segundo ele, depois daquilo decidiu que o negócio dele era boxe mesmo. O Esquiva também disse que tem mais medo do MMA do que do boxe, porque acha mais lesivo, com cotovelada e joelhada, e que chão, para ele, é zero. Mas quer aprender jiu-jitsu.
Filho de lutador de vale-tudo
O detalhe do pai não é à toa. O Esquiva contou que começou no boxe aos 13 anos porque o pai era lutador de vale-tudo das antigas. O plano da família era outro: boxe primeiro, depois judô, depois MMA, que era o sonho do pai. O boxe deu tão certo que os filhos ficaram nele e viraram medalhistas.
Hoje ele se define como um lutador de gancho. Das 30 vitórias, 20 foram por nocaute, e mais da metade dos nocautes, segundo ele, saiu desse golpe. A próxima luta seria em peso combinado de 74 quilos, entre os 72 dele e os 76 do Hebert, com pesagem na véspera e recuperação de uns oito quilos até a hora da luta.
Boxe contra MMA: cada um no seu quadrado
Quando o Werdum perguntou por que o lutador de MMA costuma se dar mal no boxe puro, o Esquiva foi direto. Ele treina boxe há 20 anos. O lutador de MMA treina boxe um pouco, para adaptar a trocação a um jogo que tem chute, queda e chão. Na visão dele, o cara do MMA tenta acabar a luta rápido, gasta o gás, e o boxeador, que aguenta muita pancada e sabe lutar a longo prazo, vai tomando conta.
“Vocês são guerreiros da luta. Nós do boxe somos da nobre arte.”
Esquiva Falcão, no Dos Nossos Podcast · 0:31:01
O Werdum concordou em parte e virou o argumento. Disse que o lutador de MMA precisa dominar cinco coisas: boxe, muay thai, wrestling, jiu-jitsu e preparação física. Por isso, se chamarem para uma luta de boxe, de wrestling ou de jiu-jitsu, o cara do MMA vai. O de uma modalidade só não aceita o desafio de MMA. O Esquiva deu razão: se o Werdum jogar um boxeador no chão, acabou o boxe.
O Esquiva citou exemplos. Para ele, o Conor McGregor foi com tudo para cima do Floyd Mayweather, que só esperou e ganhou. O Francis Ngannou fez uma luta boa contra o Tyson Fury, mas depois tomou knockdowns do Anthony Joshua, que lutou tranquilo sabendo que o adversário ia cansar. Já o Anderson Silva, na visão dele, se adaptou muito bem ao boxe puro.
A mesma lógica apareceu na pergunta do Rey sobre Popó contra José Aldo. O Werdum disse que, no MMA, o Aldo ganha. O Esquiva, amigo dos dois, respondeu que no boxe o Popó leva, e por nocaute. Contou que já tomou um golpe do Popó no estômago, brincando, com luva de 16 onças, e sentiu como se o rim tivesse quebrado.
O nariz do Werdum e o medo antes da luta
Falando de pancada, o Werdum lembrou do uppercut que tomou do Júnior Cigano. Segundo ele, o nariz abriu inteiro, ele levou 14 pontos e precisou de cirurgia. Contou que, ainda tonto, viu o rosto num espelhinho e só então entendeu o estrago.
“Eu vi os buracos daqui de dentro, abriu assim, de cair para cá.”
Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:17:23
No fim, o Rey perguntou se o medo bate antes de subir. O Werdum respondeu que o medo está sempre junto, de perder e de se machucar, e que lutador aprende a controlar. Contou, como exemplo, que o Vitor Belfort não queria sair do vestiário antes de enfrentar o Wanderlei Silva, teve de ser empurrado e acabou a luta rapidinho. O Esquiva disse que o maior medo dele é não saber como o adversário vai começar: a perna treme até ele subir no ringue.
O Werdum aproveitou para falar do documentário Acima da Dor, sobre a última luta dele, contra o Cigano, depois de três anos parado e cinco lesões, aos 46 anos. Disse que chora toda vez que assiste.
Saí da conversa pensando naquela chave de braço. Um medalhista olímpico, com 20 nocautes, perdeu para um baixinho de orelha estourada por apoiar a mão no lugar errado. O Esquiva conta rindo, mas é o resumo perfeito do que o Werdum defendeu o programa inteiro: no chão, quem não treinou não tem vez.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.