Connect Cast · Rayron Gracie
Filho de Ryan Gracie, Rayron fugia do jiu-jitsu e virou campeão mundial
Rayron Gracie conta como treinou com Roger em Londres, lidou com a morte do pai e transformou cartas em terapia.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 10 jul 2023 (2:12:39).
Rayron Gracie tem 21 anos, acabou de ganhar o absoluto do Mundial na faixa-marrom e foi promovido a faixa-preta. Mas ele contou que, quando era criança, fazia de tudo para ficar longe do jiu-jitsu. O motivo era a pressão de carregar o sobrenome, e ela vinha de fora de casa.
“Você é um Gracie, você não pode ser só bom. Você tem que ser dez vezes mais do que as pessoas esperam.”
Rayron Gracie, no Connect Cast · 0:03:47
Assisti à conversa dele no Connect Cast e saí impressionado com a calma do garoto. Filho de Ryan Gracie, que morreu quando ele tinha seis anos, o Rayron falou da preparação com o primo Roger Gracie em Londres, do jeito quase obsessivo como organizava os treinos, das críticas que leu sobre o pai na internet e das cartas que escreve para ele desde pequeno.
O menino que fugia do tatame
Segundo o Rayron, ele nasceu em São Paulo, foi para o Rio com poucos meses e cresceu por lá. Treinava na Barra, na academia onde Josuel Distak dava aula, no meio da turma de MMA, com gente como Anderson Silva. Ele era pequeno e ouvia dos adultos que daqui a pouco estaria batendo no Anderson.
A reação dele foi correr. Contou que fazia boxe, ia todo sábado para o sparring de MMA, fazia tudo, menos jiu-jitsu. No boxe ninguém cobrava nada dele. No jiu-jitsu, com o nome que tinha, a expectativa pesava.
A virada veio em Nova York. Aos 13 ou 14 anos ele foi passar seis meses lá para aprender inglês e acabou ficando sete ou oito anos. Encontrou primos com quem nunca tinha convivido, como Renzo, e se sentiu em casa. Longe do ambiente antigo, a pressão sumiu.
O primeiro campeonato foi com uns 15 anos, e o começo foi duro. Ele contou que bateu num triângulo em uns dez segundos, e o pai do adversário ainda pediu uma foto com ele. Na cabeça dele, era a maior humilhação do mundo. Depois perdeu mais umas cinco ou seis lutas, empatou duas que foram para o outro lado, até ganhar a primeira. A partir dali, disse, tomou gosto e não parou mais. O que ele tirou disso é que perder na frente dos outros não mata ninguém.
Quatro meses em Londres com Roger Gracie
Para o Mundial, o Rayron repetiu o que tinha feito antes do Europeu, quando ficou em terceiro no peso e em segundo no absoluto: foi para Londres treinar com o Roger. Ficou três ou quatro meses por lá e fez só jiu-jitsu. Segundo ele, não fez um dia de musculação, e hoje considera isso um erro que não repetiria, porque acha que poderia ter rendido mais no cardio. Na parte técnica, disse que valeu muito.
Perguntado sobre o que o Roger tem de diferente, ele respondeu que precisa rolar com ele para entender. Contou que o primo pesa uns 95 quilos, não é um cara forte e não treina com grosseria. Treina com aluno, com mulher, leve e pesado, e ele nunca viu ninguém se machucar com o Roger. Nas últimas semanas antes do Mundial, o Rayron decidiu que seria o dia de pegar o primo e foi para cima com tudo. Segundo ele, o Roger montou, pegou as costas e repetiu isso umas cinco vezes.
“Se ele botasse o kimono e quisesse competir hoje, ele ganhava um Mundial absoluto.”
Rayron Gracie, no Connect Cast · 0:16:50
O Rayron também contou como o Roger se preparou para um Mundial em que atropelou todo mundo: treinando específico com faixas-roxas e marrons da academia dele, já que não tinha tantos faixas-pretas. A ideia, segundo o Rayron, é que um faixa-roxa atacando da montada, naquela posição e repetidas vezes, é tão duro quanto um faixa-preta. Ele disse ainda que o Roger nunca assistiu a lutas dos adversários na carreira de faixa-preta.
Esse tipo de treino virou a base do Rayron. Ele explica: escolhe uma posição, avisa o parceiro do ataque que vai fazer e só passa para a próxima quando consegue finalizar com o outro defendendo a 100%.
“Eu acho que o específico é a chave para o desenvolvimento técnico do jiu-jitsu.”
Rayron Gracie, no Connect Cast · 0:21:00
Rituais, agenda no minuto e o dia em que deu tilt
A parte que mais me chamou atenção foi a disciplina. O Rayron contou que, em Londres, organizava a semana inteira no domingo, com horário para tudo, até para ligar para a família e para ler. Na preparação para o Mundial da faixa-roxa, ficou quase dois anos fora do Instagram, sem filme e sem televisão, só treinando. Segundo ele, foi o camp mais bem-sucedido que já fez.
Ele também criou regras para si mesmo. Ao fim de cada treino, tinha que fazer três perguntas ao professor sobre posição. Se o olho saísse da demonstração, pedia desculpa três vezes na cabeça e voltava a olhar. Chegou a escrever juramentos de manhã e se julgar à noite. O problema, contou, é que isso passou do tatame para a vida. O apartamento tinha que estar milimetricamente arrumado, até que um dia deu tilt e ele teve que aprender a ser intenso só no treino.
O pai, as críticas e as cartas
O Rayron contou que o Ryan morreu uma semana depois do aniversário de seis anos dele. A mãe disse primeiro que o pai estava doente, e ele respondeu que o pai era forte e ia ficar bem. Quando soube da morte, chegou em casa e consolou a avó. Só entendeu o que era a perda meses depois, quando o pai não apareceu no Natal, no Dia dos Pais e nos aniversários.
Ele também contou que só descobriu como o pai morreu entre os oito e os dez anos, vendo no computador uma reportagem do Fantástico. Anotou tudo num papel e levou para a mãe, que sentou com ele e explicou. Depois vieram os comentários horríveis sobre o Ryan na internet. No começo ele xingava de volta. Mais tarde passou a mandar mensagem para quem criticava, se apresentando como filho do Ryan e perguntando o motivo. Segundo ele, a maioria pediu desculpa.
“Você tem todo o direito de ter a sua opinião sobre o meu pai. Não posso mudar a opinião alheia, mas posso mudar como isso me afeta.”
Rayron Gracie, no Connect Cast · 0:33:35
As cartas começaram num trabalho de escola, no Dia dos Pais. Ele contou que a professora se emocionou e mandou a carta para a família. Desde então escreveu para o pai contando o dia, pedindo conselho e até avisando da primeira vitória em Nova York. Para ele, foi uma terapia que o livrou de caminhos como drogas e álcool. A história virou o documentário Cartas para o meu pai. Hoje ele diz que escreve de meia hora a uma hora por dia.
Kyra, Rickson e o recado para os próximos anos
O Rayron voltou a morar no Rio depois que o avô morreu. Contou que estava fora de casa havia oito anos e pensou na avó, mãe do Ryan, que criou ele junto com a mãe. Segundo ele, a volta foi 100% pela família. Agora dá aula e monta o time de competição na academia da prima Kyra Gracie. Ele contou que a Kyra foi o primeiro contato dele com a luta: ele brincava com as medalhas que ela trazia dos campeonatos, e ela diz para todo mundo que é tia dele.
Ele também falou de uma conversa recente com Rickson Gracie, que tinha acabado de revelar o diagnóstico de Parkinson. Segundo o Rayron, todo mundo ficou mais abalado do que o próprio Rickson. Ele perguntou como eram os camps dele na época em que ele carregava a bandeira da família depois do Hélio.
“Lutas casadas, algo planejado, foram poucas. Eu tinha que estar preparado o ano inteiro.”
Rickson Gracie, no Connect Cast · 1:04:23
No discurso de faixa-preta, contou o Rayron, ele prometeu honrar pelas ações o Hélio e o Carlos: lutar pelo legado como o Hélio e formar pessoas como o Carlos. O que fica da conversa é um atleta que ganhou o absoluto com técnica, ainda sonha com uma luta de MMA e trata o nome da família como obrigação de treinar mais do que os outros.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.