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Podcast Nem Me Viu · Gilbert Burns

Gilbert Durinho revela o erro que tirou seu foco no cinturão do UFC

No Nem Me Viu, Durinho e Werdum contam como a cabeça ganhou e perdeu lutas grandes, do título em Curitiba à vitória em casa no Rio.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 26 jan 2023 (2:13:52).

Gilbert Durinho chegou ao Nem Me Viu dias depois de vencer no UFC do Rio, finalizando no primeiro round, dentro de casa, com a família inteira na plateia. E o assunto que mais rendeu na conversa com Fabrício Werdum foi a cabeça. Os dois contaram, cada um do seu jeito, como já perderam lutas grandes antes mesmo de entrar no octógono.

Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi a honestidade. O Durinho admite que se dispersou na disputa de cinturão. O Werdum admite que esqueceu da luta quando foi defender o título em Curitiba. E os dois explicam o que mudaram depois disso.

A escassez que voltou na hora do cinturão

O Durinho conta que teve uma infância dura em Niterói. Segundo ele, a luz de casa era cortada várias vezes até o pai, que era estofador, receber por um serviço. A geladeira abria vazia, só com fubá: com um pouco de canela de manhã e com sal no almoço. Ele faz questão de dizer que nunca passou fome e que não gosta de se fazer de vítima.

Só que essa história, segundo ele, cobrou a conta na disputa de cinturão. Foi uma das poucas lutas em que ele entrou como favorito, e por isso choveram patrocínios. Uma postagem aqui, outra ali, dinheiro entrando dos dois lados. O Durinho diz que ainda carregava a escassez de moleque e achava que tinha de aproveitar tudo.

“Eu ainda tinha escassez, meu irmão, da infância, que eu trazia comigo. Achava que tinha que aproveitar tudo.”

Gilbert Burns, no Podcast Nem Me Viu · 0:23:15

Ele conta que a psicóloga avisava, e ele sempre tinha uma desculpa: agora não dá, depois eu faço rapidinho. Segundo o Durinho, a dispersão somou com outras coisas, e o peso de tudo isso ele só enxergou quando olhou para trás.

Werdum e a noite antes de Curitiba

O Werdum emendou com a própria história. Ele contou que, quando foi defender o título em Curitiba, a cabeça estava em tudo, menos na luta. A mãe, que mora na Espanha, ia ver uma luta dele pela primeira vez. Ele tinha ganhado 200 ingressos de um patrocinador para distribuir, mandou fazer máscaras para a torcida e entrou com música em homenagem ao Ayrton Senna.

Segundo o Werdum, na sexta-feira antes da luta ele jantou com umas 40 pessoas e depois recebeu uns 20 amigos no quarto, conversando até as quatro da manhã. Hoje ele diz com todas as letras que perdeu o cinturão por falta de foco.

“A luta mesmo, eu não tava ali. Eu esqueci.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:19:56

Ele também deixou um recado para quem é amigo de lutador: na semana da luta, não mande pedido de ingresso nem mensagem. Deixe para depois.

Como o Durinho preparou a cabeça para o Rio

Desta vez, segundo o Durinho, a pressão era outra. Ele era o número 5 do ranking e pegou o número 12, lutando no Brasil. Ele compara com um time grande de futebol enfrentando um adversário mais fraco: a obrigação era golear. O Durinho conta que trabalha há quase cinco anos com a psicóloga do esporte Luciana Castelo Branco, de Brasília, e que foi ela quem o ajudou a entrar frio.

Ele diz que visualizou várias vezes a entrada no octógono e que entrou exatamente como tinha imaginado. Decidiu não olhar para ninguém na plateia, nem para os amigos americanos que compraram lugar na frente. A comemoração ficava para depois.

“Eu acho que o mental ainda é mais importante.”

Gilbert Burns, no Podcast Nem Me Viu · 0:35:00

Para defender isso, ele lembra de duas lutas que aceitou em cima da hora, com duas semanas de aviso. Segundo ele, o físico estava em seis ou sete de dez, mas a inteligência de luta segurou. Ele também explicou o método que usa quando fecha uma luta: uma escada de metas. Primeiro define como quer vencer, depois quebra o treino em partes, com os treinadores, a preparação física, a fisioterapia e a nutrição. O Daniel Evangelista, de Brasília, recebe filmagens de todos os treinos e funciona, nas palavras dele, como o gerente desse sistema.

O Werdum contou uma experiência parecida. Antes de enfrentar o Gustafsson em Dubai, na volta ao UFC, ele fez um trabalho de foco com o Eric Faro. Segundo o Werdum, o exercício era se enxergar dentro dos próprios olhos no espelho e depois nos olhos do adversário na encarada. Ele diz que fez isso, recebeu um sorriso amarelo do sueco e finalizou no braço com pouco mais de um minuto.

De volta às raízes do jiu-jitsu

Outra parte que eu gostei foi quando perguntaram sobre a trocação. O Durinho credita o começo em pé a Vitor Belfort e o desenvolvimento a Henri Hooft. Mas conta que houve uma fase em que gostou tanto de sair na porrada que deu uma perdida no jiu-jitsu. Foi o Daniel quem o chamou de volta.

Até hoje, diz ele, treina muito jiu-jitsu sem quimono, e gosta de rolar de luvinha para a pegada ficar mais difícil. No sparring, contrata parceiros que imitem o adversário e repete várias vezes os primeiros 30 segundos de luta.

Ele voltou a competir no grappling e, segundo conta, foi numa dessas lutas que o Dana White o viu da primeira fila. O presidente do UFC ofereceu uma luta com Demian Maia. O Durinho conta que o empresário do Demian pediu para ele nem pedir a luta, mas que o Dana insistiu. Ele venceu, depois veio a luta com o Tyron Woodley, e o contrato mudou para a disputa de cinturão.

Até hoje, diz ele, treina muito jiu-jitsu sem quimono, e gosta de rolar de luvinha para a pegada ficar mais difícil. No sparring, contrata parceiros que imitem o adversário e repete dezenas de vezes os primeiros 30 segundos de luta.

O que fica da conversa

O Werdum também lembrou do TUF Brasil, quando era auxiliar do Wanderlei Silva e o Durinho estava do lado do Vitor. Ele admitiu que pegava no pé do Durinho e não acreditava que ele fosse dar certo no MMA. Hoje, disse, o Durinho surpreendeu todo mundo. O Durinho, por sua vez, contou que fez dez vitórias seguidas com o Vitor no seu corner.

Fecho com o jeito que ele encara a própria carreira. O Durinho diz que se sente privilegiado: na rua onde cresceu, amigos de infância tiveram outro destino, e ele vê pessoas trabalhando pesado e passando uma hora em pé no ônibus. Por isso, segundo ele, a obrigação é treinar ainda mais.

“Eu tenho oportunidade de fazer o que eu gosto, eu vou fazer bem feito para caraca, vou fazer por muito tempo.”

Gilbert Burns, no Podcast Nem Me Viu · 1:04:11

Para quem treina, fica a lição dos dois: a luta começa muito antes do octógono, e às vezes se perde num quarto de hotel às quatro da manhã.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.