Pura Connection · Gutemberg Pereira
Gutemberg Pereira conta como o jiu-jitsu o curou da síndrome do pânico
O baiano da GF Team fala dos quatro anos dormindo no tatame, da desclassificação no primeiro Mundial de faixa-preta e do acidente na neve que o trouxe de volta ao Brasil.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 6 mar 2023 (1:48:04).
Aos 15 anos, o Gutemberg Pereira tinha síndrome do pânico. Quem resolveu o problema, segundo ele, foi uma dupla improvável: a fé e o jiu-jitsu. Assisti à conversa dele no Pura Connection e essa parte me pegou logo no começo, porque ele fala do assunto sem rodeio nenhum.
O Gutemberg contou que veio de comunidade, em Salvador, e que casos de violência na família, envolvendo um primo muito próximo, o deixaram com medo de ser atingido também. Ele teve várias sessões com uma psicóloga, até que ela sugeriu à mãe dele colocar o menino num esporte de contato, para trabalhar a autoestima.
“Hoje eu posso dizer sinceramente que o jiu-jitsu e a minha espiritualidade me curaram disso.”
Gutemberg Pereira, no Pura Connection · 0:18:09
O professor certo na hora certa
Ele chama de ironia da vida, ou de coisa de Deus. Pouco depois do conselho da psicóloga, a mãe mudou de emprego e de casa, e o novo endereço ficava em frente a uma academia. Na primeira aula, o professor olhou para aquele garoto magro, de uns 75 quilos, e disse que ele ia ser peso pesado.
Para o Gutemberg, foram as palavras certas. Ele contou que levou anos para entender que estava curado, mas no primeiro mês de treino já tinha dito à mãe que queria viver daquilo. Diz que nunca gostou de estudar e que o jiu-jitsu deu a ele um lugar para colocar o foco.
Ele também elogia a visão do primeiro professor, que viajava muito para a Europa e os Estados Unidos e via o jiu-jitsu como algo amplo. Na época, a academia tinha virado muito voltada para o MMA. Segundo o Gutemberg, o Cigano treinava lá e o Anderson aparecia bastante. Ele até fazia muay thai e boxe, como todo baiano, conta rindo, mas decidiu cedo que queria o jiu-jitsu.
Sessenta reais, um kimono e a GF Team
O ídolo dele sempre foi o Rodolfo Vieira. O Gutemberg contou que mandava mensagens para o Júlio César, o mestre da GF Team, dizendo que seria o próximo Rodolfo da academia. Depois de ser apresentado ao Júlio num campeonato em São Paulo, ouviu que podia aparecer no Rio.
Ele foi na semana seguinte, com 60 reais no bolso, um kimono e uma mochila. No primeiro treino, o Júlio mandou ele rolar com um faixa-azul que o finalizou umas seis vezes em cinco minutos. Na cabeça do Gutemberg, o jeito era voltar para a Bahia. Só depois ele descobriu, olhando os quadros de campeões na parede, que aquele faixa-azul era o Marinho, um grande campeão da academia que costumava botar faixa colorida para testar quem chegava de fora.
O Júlio o aceitou, e ele morou quatro anos dentro da academia, no Méier, em frente à estação de trem. Dormia no tatame, com um aparador de muay thai de travesseiro. A mãe mandava entre 50 e 80 reais por semana, o que dava uns 300 reais para comer o mês inteiro, treinando o dia todo.
“Eu dormia no tatame, lençol, e meu travesseiro era um aparador de muay thai, por quatro anos.”
Gutemberg Pereira, no Pura Connection · 0:48:49
Segundo ele, o Rodolfo o abraçou desde a faixa colorida, gostava de treinar e de conversar com ele. E os resultados vieram: o Gutemberg disse que ganhou todos os campeonatos que lutou de faixa colorida, com exceção do Brasileiro. Ele mesmo reconhece que o excesso de confiança atrapalhou. Conta que um dia disse ao Rodolfo que era tecnicamente melhor que os adversários, e ouviu de volta: se é tão bom, por que não ganhou?
Estados Unidos, faixa-preta e o Mundial perdido
A ida para os Estados Unidos começou com um camp para ajudar o Rodolfo no ADCC de 2015. Lá, um amigo o levou para Ohio, onde um investidor bancava a preparação de um atleta. Duas semanas viraram três meses, e depois veio a proposta de abrir uma academia juntos. Cansado de morar na academia, ele aceitou.
Ele pegou a faixa-preta lá, depois de ganhar o Mundial de marrom, e levou uns nove amigos para treinar com ele. Só que a vida virou uma correria. Além de atleta, cuidava das academias, da comida da equipe e ainda trabalhava como corretor de imóveis para ter renda extra. Mesmo assim, chegou à final do absoluto do Pan contra o Leandro Lo, que ele descreve como um dos melhores sentimentos da vida.
O episódio mais tenso veio no primeiro Mundial de faixa-preta. Segundo o Gutemberg, um adversário que ele já tinha vencido postou na internet que ele tinha fugido da luta em pé. Os dois se reencontraram nas quartas do absoluto. Ele contou que vencia por 4 a 2, pegou as costas e, no fim, irritado, deu um chute nas costas do rival e o xingou em inglês. O árbitro era o Marola, que o desclassificou.
Ele não tira o corpo fora: diz que foi punido pelo que fez. Pela regra da IBJJF, a desclassificação disciplinar no absoluto o tirou também da categoria, que ele nem chegou a lutar.
“Fui punido pelo que eu fiz, realmente.”
Gutemberg Pereira, no Pura Connection · 1:20:31
O acidente na neve e a volta para casa
Com tanta pressão, o Gutemberg contou que viu a carreira declinar e entrou num quadro de depressão, se afastando da família e dos amigos. A virada veio numa noite de tempestade de neve. Ele voltava de um trabalho, viu passar um carro de funerária e pensou que a vida é curta demais para não fazer o que se ama. Segundo ele, três segundos depois o carro rodou a 120 quilômetros por hora, bateu em uma parede e depois em outra. Ele saiu sem nada.
Foi ali que caiu a ficha. Ele sentiu que tinha pulado uma etapa do próprio sonho. Meses depois, passou a parte dele na sociedade e voltou para o Brasil, no início da pandemia. Diz que hoje vive melhor, perto da mãe, e que a perda do avô durante um Mundial reforçou essa decisão.
Seminários, estudo e os planos para a Bahia
Uma história divertida é a de um seminário na Suécia. Um aluno magrinho levantou a mão no meio da aula e disse que aquela posição não funcionava. O Gutemberg foi treinar com ele no fim, na frente de todo mundo. Não conseguiu finalizar na posição, mas variou e pegou uma guilhotina. O desfecho: o cara o convidou para jantar e pagou o hambúrguer e a cerveja.
Ele também se diz estudioso. Contou que compra cursos instrucionais desde a faixa-azul, e que recentemente, já campeão mundial, comprou um curso do Tainan Dalpra. Lembra ainda de um seminário do Xande Ribeiro que assistiu de faixa-roxa, e diz que foi assim, observando como os outros ensinam, que montou a própria didática.
O que fica da conversa é um atleta que já pensa no depois. O Gutemberg diz que ama competir, mas que o prazer dele no jiu-jitsu está em outro lugar, porque foi o jiu-jitsu que o curou. Ele quer voltar para Salvador com projetos de academia e um projeto social, e sonha em treinar e surfar pelo mundo. Para quem chegou ao Rio com 60 reais, é um bom lugar para mirar.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.