Pular para o conteúdo

Pura Connection · Ana Maria Índia

Índia conta como largou a faculdade pelo jiu-jitsu e foi parar no MMA

Da academia de musculação em Marília à Brasil Top Team, a faixa-preta baiana refaz 25 anos de tatame sendo quase sempre a única mulher do treino.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 5 jul 2024 (1:23:13).

Ana Maria, a Índia, entrou numa academia de Marília, no interior de São Paulo, para fazer musculação. Na hora do treino de jiu-jitsu, largava os aparelhos e ficava sentada olhando. Três meses depois, trancou a faculdade de biomedicina e ligou para a mãe avisando que agora ia fazer jiu-jitsu. A resposta, segundo ela, foi que aquilo era coisa de marginal.

Assisti à conversa dela no Pura Connection e o que mais me pegou foi isso: a Índia chegou à luta sem conhecer ninguém, sem saber quem era quem, e mesmo assim passou pelos treinos mais fortes do país. Baiana de Barreiras, ela conta que saiu de casa com 16 anos, morou em Aracaju, começou administração, trocou por biomedicina e só achou o que procurava quando viu um treino de jiu-jitsu. Hoje soma, nas contas dela, 25 anos de tatame.

“Mãe, jiu-jitsu não é coisa de marginal não. É massa, eu sou boa para caramba.”

Ana Maria Índia, no Pura Connection · 0:27:03

A primeira aula terminou em montada e soco

O professor em Marília era o Alexandre Oliveira. A Índia conta que ele a via assistindo e chamava para treinar, e ela dizia que não tinha kimono nem dinheiro para comprar. Acabou comprando. Na primeira aula, alguém pôs luvas na mão dela para uma brincadeira de trocação. O menino do outro lado, segundo ela, começou a tirar sarro. Ela voou na perna dele, derrubou, montou e começou a bater. O Alexandre ficou rindo no canto e perguntou o que ela fazia da vida. Quando ouviu que era biomedicina, mandou largar: ela era lutadora.

Segundo a Índia, foi o Alexandre quem ensinou a treinar e a se comportar no tatame, desde a roupa até a musculação certa para o jiu-jitsu. O campeonato que ela chama de mais importante da vida veio logo depois, em Passos de Minas. Era a única mulher na caravana. O professor arrumou uma casa só para ela ficar, e ela recusou.

“Se eu aceitar qualquer regalia, todos eles vão se sentir no direito de me tratar diferente.”

Ana Maria Índia, no Pura Connection · 0:31:32

Ela conta que a regra valia para tudo: se a flexão das mulheres era com joelho no chão, ela perguntava por que ela podia e os outros não. Nunca quis tratamento diferente.

Grávida, vestibular e um campeonato com o peito cheio de leite

Ainda em Marília, a Índia engravidou. Segundo ela, voltou para a Bahia, treinou até o quinto mês, voltou a treinar um mês depois do parto e, com a filha de quatro meses, soube de um Campeonato Baiano em Salvador. Era faixa-branca e não conhecia nada do mundo da luta.

Um amigo de Barreiras treinava com alunos de Rodrigo Minotauro em Salvador. Segundo a Índia, o Minotauro tinha deixado três faixas-pretas na cidade: Yuri, Rafael e Eugênio. Foi o Rafael quem inscreveu ela no torneio. O campeonato caiu no mesmo dia do vestibular. Ela levou o kimono para a sala da prova e ali conheceu Renatinho Velame, que também ia lutar e foi com ela até o ginásio. Passou no vestibular, ganhou o campeonato e saiu de lá direto para o hospital, porque estava lutando com o peito cheio de leite.

Aí veio o que ela chama de decisão mais difícil da vida. A mãe pediu para ficar com a neta. A Índia conta que escolheu o que era melhor para a filha, que cresceu no interior com avós e primos, enquanto ela seguia treinando em Salvador.

O choque de chegar à Brasil Top Team

Em Salvador, segundo a Índia, os três faixas-pretas do Minotauro se separaram. Rafael e Eugênio passaram a usar o nome Combate BTT Bahia, e foi por esse caminho que ela desceu para o Rio para lutar o Brasileiro de faixa-azul. Chegou à Brasil Top Team e deu de cara com o treino de MMA da época: Paulão, Arona, Minotauro, Minotouro, Jucão, Cacareco.

Ela conta que ficou hospedada no apartamento do Wallid na Barra, e que os lutadores daquela geração tinham energia de gladiador. Cita Murilo e Zé Mário: você olhava para eles e tinha medo de errar. Na segunda vinda ao Rio, deixou as malas de vez.

Do jiu-jitsu ao MMA pelas mãos de Luiz Dórea

A vontade de lutar MMA, segundo ela, nasceu numa cena de filme. O Minotauro organizou o Conquista Fight, em Vitória da Conquista, e ela acha (diz que nunca perguntou a ele) que o evento foi feito para trazer Anderson Silva de volta às lutas. Antes do evento, viu um treino numa casa em construção, sem janela, tatame de estopa no chão e dois caras trocando soco com o suor voando. Voltou para Salvador decidida.

Faltava onde treinar. Numa academia de luta sem kimono em Salvador, contou, disseram que mulher não entrava porque ia desconcentrar os caras. Ela entrou mesmo assim. Uma amiga, a árbitra Carla Freitas, insistia que ela precisava conhecer Luiz Dórea. Quando finalmente foi à Champion, o Dórea chamou para conversar depois do segundo treino e pediu que ela contasse a história dela.

“Tudo que eu errei na minha carreira foi porque eu não ouvi o Dórea.”

Ana Maria Índia, no Pura Connection · 0:51:51

Segundo a Índia, o conselho que mais marcou foi não abrir mão da feminilidade para ser aceita na luta. Numa época em que quase só havia homem nos eventos, ela ia para a pesagem de vestido e salto. Ela diz que depois ouviu a mesma coisa do Zé Mário na BTT. E conta também que foi ela quem levou o time de jiu-jitsu para dentro da Champion, onde o Cigano chegava querendo entender single leg e double leg para adaptar ao boxe dele.

“O jiu-jitsu era meu amor e o MMA era meu trabalho, porque na época o jiu-jitsu não pagava nada.”

Ana Maria Índia, no Pura Connection · 1:08:56

Respeito no tatame e o que a luta ensina fora dele

A Índia diz que em 25 anos passou por três constrangimentos no tatame e resolveu todos na hora. O mais sério foi na BTT, durante um treino de posição encaixada, quando um colega falou besteira enquanto a estrangulava. Ela levou ao professor, depois encarou o rapaz na frente de todos, e conta que o Murilo suspendeu o aluno da academia por uns três meses.

“Do tatame para dentro todo mundo é soldado. Eu não sou mulher lá dentro.”

Ana Maria Índia, no Pura Connection · 1:19:23

Ela também contou, com poucas palavras, que já sofreu agressão física de um ex-marido. E disse que o que a luta deu a ela nessa hora foi controle emocional: não entrar na loucura do outro, olhar o ambiente e procurar algo para pôr entre ela e a pessoa. Por isso ela diz que usa workshops de defesa pessoal como porta de entrada, para a aluna acreditar que pode treinar jiu-jitsu de verdade.

Hoje dando aula em São Paulo, a Índia diz que a missão dela é a iniciação. Conta que numa academia nova chegou a quase 70 alunos em sete meses, a maioria faixa-branca, e fala de uma menina de quatro anos com problema de quadril que hoje faz bananeira. O que fica da conversa, para mim, é uma mulher que nunca pediu lugar especial e fez o próprio lugar no treino mais duro que encontrou.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.