Pura Connection · Ítalo Vilardo
Ítalo Vilardo revela o plano que fez Caio Terra vencer Bruno Malfacine
O preparador físico faixa-preta contou como estudou a final no Mundial, por que o excesso de treino ainda domina o jiu-jitsu e o que pensa do doping entre atletas.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 6 dez 2022 (1:30:48).
Faltavam uns 40 segundos para acabar a final do Mundial e Caio Terra estava perdendo para Bruno Malfacine. Aí o Caio raspou de fora para dentro, fez os pontos e virou campeão mundial. Foi uma virada no fim, e Ítalo Vilardo, preparador físico do Caio, contou que era exatamente o lance que eles tinham ensaiado no mês anterior.
“Aconteceu exatamente o que a gente treinou.”
Ítalo Vilardo, no Pura Connection · 0:28:01
Assisti à conversa dele no Pura Connection e essa história resume bem o jeito como o Ítalo trabalha. Faixa-preta de jiu-jitsu e formado em educação física, ele contou que hoje prepara mais de 350 atletas por mês, a maioria à distância. E passou boa parte da entrevista desmontando hábitos que ainda são comuns nas academias.
A beira do tatame como arma
O trabalho com o Caio começou em 2012, segundo o Ítalo, na preparação para o Metamoris contra Jeff Glover. A estratégia foi montada a partir de uma leitura simples: se o Glover não pegasse as costas do Caio, também não ia deixar o Caio pegar as dele. Então o treino foi para jogar por cima. O Ítalo contou que o Caio acabou pegando o Glover num armlock.
Depois veio o Bruno. O Ítalo disse que o Caio já tinha perdido para ele algumas vezes e pediu que o preparador fosse para a Califórnia no ano seguinte. Ele foi um mês antes do Mundial, organizou volume, intervalo entre os treinos e tipo de treino, e estudou as lutas do adversário. A conclusão foi que o Bruno conduzia a luta para a beira do tatame: se estava bom para ele, ficava ali; se estava ruim, saía da área para o árbitro mandar voltar em pé.
O time passou a treinar essa situação. Na final, segundo o Ítalo, o Caio foi levado para a beira, se manteve bem na posição enquanto o Bruno tentava ficar na área de segurança e, nos últimos 30 ou 40 segundos, veio a raspagem.
“Se vocês pararem para ver o vídeo da final, ele tá perdendo a luta até 40 segundos antes do final.”
Ítalo Vilardo, no Pura Connection · 0:27:31
O treino que quase acabou com um Mundial
O Ítalo contou que nunca foi um grande atleta. Competiu bastante nas faixas azul e roxa, mas se machucava muito, e foi isso que o levou para a preparação física. Treinava judô com a equipe do Vasco, onde conheceu Marquinho Tatu, que segundo ele foi preparador da seleção brasileira de judô por dois ciclos olímpicos e trabalhou com Marco Ruas e Pedro Rizzo.
O estalo veio no Mundial de faixa-marrom, em 2004 ou 2005. Dois dias antes da luta, ele fez na academia um treino de uns 50 minutos direto, trocando de dupla no meio. Terminou destruído e pensou que precisaria de três dias para se recuperar. Já estudava educação física e percebeu que aquilo estava errado, por melhor que fosse a intenção de quem organizou.
“Eu não preciso ser formado em educação física para dar aula de jiu-jitsu, mas me formar melhorou muito a minha aula.”
Ítalo Vilardo, no Pura Connection · 0:05:11
Para ele, o maior erro das academias até hoje é o excesso: achar que a quantidade de treino vale mais que a qualidade. Ele deu um exemplo que muita gente vai reconhecer. O tal treino de competição, com 40 minutos de aquecimento e dez rolas de cinco minutos sem intervalo, na visão dele não tem nada a ver com competição. No campeonato você aquece sozinho, luta, descansa e luta de novo. O treino tem que reproduzir isso, com pausa entre as lutas, para o corpo aprender a esfriar e voltar a fazer força.
O mesmo vale para a corrida como aquecimento. Segundo o Ítalo, o ganho de uma capacidade física não passa direto para outra: quem pedala 40 quilômetros não corre 40. O condicionamento específico da luta, disse ele, só vem treinando luta. Se o objetivo é trabalhar tiros curtos, dá para fazer isso com drill de queda em alta velocidade no lugar da bicicleta.
Menos campeonato, mais título
Organização foi a palavra que o Ítalo mais repetiu. Ele contou o caso de Bianca Basílio, com quem trabalha há três ou quatro anos. Segundo ele, ela batia na trave no Mundial da faixa-preta porque chegava ao fim do ano com competições demais. Este ano cortaram o calendário, focaram no Mundial e ela foi campeã.
Ele criticou quem vive de Open. Contou que Felipe Costa, que não ganhava quase nada nas faixas coloridas e ganhou tudo na preta, conta no primeiro capítulo do livro que está escrevendo que a avó não via diferença entre um título mundial e um torneio de bairro. Para o Ítalo, quem coleciona campeonato pequeno perde o foco no que importa.
“O campeão, além de tudo, tem que ter o poder de dizer não.”
Ítalo Vilardo, no Pura Connection · 0:56:25
Os detalhes contam também. No World Pro de 2018, segundo ele, mandou o Felipe levar a própria comida, porque sabia que ele não comeria o que havia por lá, e isso ajudou a bater o peso. Numa outra ocasião, quando um atleta ficou sem hotel a 15 dias do Mundial, o Ítalo o levou para o próprio hotel e organizou tudo até o dia da luta.
Doping virou moda
A parte mais séria da conversa foi sobre substâncias proibidas. O Ítalo disse que este ano bateu recorde e que isso o deixa triste. Contou que, em três meses, atendeu uns sete ou oito atletas usando testosterona, a maioria receitada pelo mesmo médico, incluindo um rapaz de 23 anos de São Paulo. Ele disse que, por ética, avisa que aquilo é doping e faz mal, e pede os exames.
“Esse ano tá batendo recorde e me deixa triste a quantidade de gente usando substância proibida.”
Ítalo Vilardo, no Pura Connection · 1:04:46
Na opinião dele, a punição de hoje compensa para quem trapaceia: o atleta perde uma medalha, mas continua lutando e dando seminário. Ele defendeu que quem for pego fique impedido de lutar qualquer campeonato, como acontece em alguns esportes olímpicos. Para quem tem mais de 30 ou 40 anos e precisa de reposição por saúde, disse que o caminho é fazer com acompanhamento médico sério, pensando só na saúde.
O que fica
Saí da entrevista com a sensação de que o recado do Ítalo cabe em qualquer tatame, do atleta de ponta ao aluno de três vezes por semana. Ele disse que muitos clientes notam diferença enorme em três semanas, e a explicação é quase sempre a mesma.
“A diferença não tá no que você começou a fazer, tá no que você deixou de fazer.”
Ítalo Vilardo, no Pura Connection · 1:28:54
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.