Pura Connection · Kyra Gracie, Malvino Salvador
Kyra Gracie conta o puxão de orelha de Renzo que mudou sua carreira
Ao lado do marido, Malvino Salvador, a primeira mulher faixa-preta da família Gracie fala do ambiente machista dos tatames, do conselho de Renzo e da aposta que os amigos chamaram de loucura.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 22 ago 2025 (1:44:41).
Kyra Gracie virou faixa-preta, foi campeã e, mesmo assim, chegou perto de parar de treinar. Ela contou isso no episódio 200 do Pura Connection, ao lado do marido e sócio, o ator Malvino Salvador. O motivo foi o ambiente dos tatames onde cresceu: só competição, papo machista e pressão para se testar todo dia. A saída foi criar uma academia do jeito que ela gostaria de ter treinado, a Gracie Kore.
Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi a franqueza dos dois. A Kyra fala do jiu-jitsu que a formou sem raiva, mas sem esconder o que excluía as mulheres e os mais fracos. E o Malvino conta, com números, como uma aposta que os amigos do mercado financeiro chamaram de loucura deu certo dentro de um shopping no Rio de Janeiro.
Uma sobrevivente no tatame
Segundo a Kyra, as amigas, as primas e as tias não gostavam de competir e acabaram saindo do jiu-jitsu. Ela gostava, tinha o perfil, e seguiu. Mas lembra que várias vezes se perguntou se devia continuar, porque os papos dentro do tatame eram papos que mulher nenhuma queria ouvir.
“Eu cresci nesse ambiente só de competição e eu fui uma sobrevivente ali.”
Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:14:37
Depois de faixa-preta e campeã, veio o cansaço. Ela contou que não queria mais treinar daquele jeito, em que toda chegada de alguém novo virava um confere, um teste para ver quem aguenta mais. A virada, segundo ela, foi quando teve as filhas.
“Eu tive minhas filhas e me questionei: será que minhas filhas vão conseguir estar nesse meio?”
Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:15:08
A inspiração veio de fora da família. A Kyra contou que visitou a Academia dos Valentes e encontrou um ambiente familiar, de respeito, com muitas mulheres treinando e foco nenhum em competição. Ninguém sabia quem ela era. As pessoas chegavam, davam boas-vindas e perguntavam se ela era nova ali. Foi aí que ela entendeu que dava para fazer diferente.
O puxão de orelha do Renzo
Uma das histórias mais engraçadas da conversa é sobre a primeira experiência dela como professora. A Kyra contou que começou a dar aula aos 19 anos, ainda faixa-marrom, em Nova York, numa turma feminina. Dava aula do jeito que tinha aprendido. Um dia, uma aluna não conseguia fazer o rolamento, e ela empurrou a menina pelo bumbum. O tio Renzo Gracie arregalou o olho e chamou a atenção dela na hora.
“Minha filha, não faz isso.”
Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:23:53
Ela disse que hoje se arrepende daquele jeito de ensinar e que o episódio ensinou uma coisa: ser campeã mundial não garante saber dar aula. Por isso, segundo a Kyra, passou dois anos estudando a metodologia antes de abrir a academia, e os primeiros professores treinaram seis meses na sala da casa do casal, com os móveis afastados, antes da inauguração.
Uma aposta que parecia loucura
A ideia inicial da Kyra era pequena: alugar uma sala e ver no que dava. O Malvino, segundo ela, quis ir com tudo. Quando ela mostrava o projeto para amigos do mercado financeiro, alguns deles faixas-pretas, a reação era sempre a mesma.
“Como é que você vai investir esse dinheiro todo no jiu-jitsu? Tá louca?”
Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:30:11
O Malvino contou que fez o plano de negócio sozinho e que ele bate até hoje. A meta era 550 alunos. Segundo o casal, a academia chegou a 687 e hoje tem cerca de 650, com o objetivo de chegar a 750, num espaço de 370 metros quadrados com 200 de tatame. Várias turmas, principalmente as infantis, têm fila de espera.
A fórmula que eles descrevem é organização de empresa: uma aula para cada perfil (competição, executivo, defesa pessoal), turmas infantis separadas por faixas de idade curtas, só quimono branco ou rosa e chinelos alinhados na beira do tatame. Segundo a Kyra, a academia abre às seis da manhã e fecha às nove da noite durante a semana, e tem aula até no domingo.
O Malvino também tem história no tatame. Ele contou que treinou jiu-jitsu em Manaus, numa academia de teto de zinco, com sexta-feira reservada para a pancadaria, e que disputou duas competições importantes na faixa-azul, terminando em terceiro nas duas. Numa delas, saiu da semifinal com o supercílio aberto por uma cabeçada involuntária do adversário. O André lembrou que o Malvino recebeu a faixa-preta recentemente.
O jiu-jitsu que Carlos e Hélio ensinavam
Para a Kyra, a Gracie Kore é uma volta ao que os bisavôs pregavam. Ela lembrou que Carlos e Hélio Gracie ensinavam jiu-jitsu para um público muito mais amplo, com aulas particulares e metodologia, e que o treino duro ficava para quem ia lutar. Na conversa, os dois citaram uma propaganda da família dos anos 1950, com a narração: "Não sofra de complexo de inferioridade, venha pro jiu-jitsu".
Ela também recomendou o livro do bisavô Carlos, Introdução ao Jiu-Jitsu, que segundo ela não tem uma posição sequer, só a filosofia. Uma das imagens mostra um menino confiante, com esta legenda:
“Uma criança que sabe jiu-jitsu sabe também que não deve agredir. Certo de sua superioridade, limita-se a defender-se.”
Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:36:29
A Kyra contou ainda que os dois tinham a cultura do campeão: chamavam todo mundo de campeão. Ela levou isso para a academia como a cultura do campeão e da campeã.
Namorar uma Gracie
Nem tudo foi sério. A Kyra lembrou que, nas festas da família, ninguém chegava perto dela. Era a sobrinha do Ryan, e os tios de fato iam tirar satisfação com quem tentasse. O Malvino brincou que tem uma palestra sobre como entrou na família namorando uma Gracie e nunca apanhou.
No fim, o Malvino resumiu o que os dois tentam passar nos vídeos de defesa pessoal que fazem juntos nas redes.
“O jiu-jitsu, como ferramenta, é antecipação de conflito.”
Malvino Salvador, no Pura Connection · 1:31:59
O que fica da entrevista é isso: a Kyra passou por todo o jiu-jitsu duro dos anos em que cresceu, foi a primeira mulher faixa-preta da família, segundo ela mesma, e decidiu que as filhas dela não precisariam ser sobreviventes para continuar treinando.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.