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Pura Connection · Magid Hage

Magid Hage defende que o iniciante de jiu-jitsu treine sem kimono

Criado na Gracie Barra da Califórnia e sócio de Joel Tudor, o finalista da seletiva do ADCC quer chave de pé desde a faixa-branca.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 29 mai 2023 (1:34:58).

O Magid Hage cresceu dentro da Gracie Barra, vestiu kimono a vida toda e diz que consegue bater em qualquer pessoa que não treine jiu-jitsu. Mesmo assim, a opinião dele sobre como receber um aluno novo vai contra quase tudo o que ele aprendeu: para ele, o adulto que entra numa academia pela primeira vez deveria passar o primeiro mês sem kimono.

Assisti à conversa, gravada em inglês no Pura Connection, e o Magid avisa logo que a opinião é polêmica. Mas ele não fala de teoria. Fala do que viu na própria escola, a Surf Fight, que tem com o surfista e faixa-preta Joel Tudor em San Diego.

“Colocar kimono num iniciante é como pegar uma criança de cinco anos e colocar numa aula de álgebra.”

Magid Hage, no Pura Connection · 0:49:24

O kimono como matemática avançada

O raciocínio do Magid é de sala de aula. Primeiro se aprende um mais um, depois a tabuada, e só lá na frente a equação com incógnita. No jiu-jitsu, segundo ele, o kimono é a equação. O aluno ainda não sabe fazer fuga de quadril nem rolar sem bater o pescoço e já está ouvindo que pode pegar na gola, na faixa, passar a lapela pelo pescoço.

Ele contou que viu várias vezes um homem de 40 anos sair do banheiro com a calça do kimono ao contrário e a faixa amarrada errado. Para o Magid, a roupa intimida e deixa o iniciante com cara de aula de caratê. Na escola dele, durante o primeiro ano, os fundamentos eram todos de kimono, porque era assim que ele e o Joel tinham crescido. Depois mudou: hoje tem fundamentos com kimono às segundas e quartas e sem kimono às terças e quintas. Segundo ele, é muito mais fácil ensinar uma americana sem a roupa atrapalhando.

A parte que eu gostei é que ele não joga o kimono fora. O Magid diz que o kimono deixa o jogo mais lento, ajuda a aprender e é o que garante a longevidade de quem quer treinar aos 50, 60 ou 70 anos. A ideia é que o aluno chegue a ele por vontade própria, depois de ver os caras de kimono jogando melhor no treino misto do meio-dia.

“O kimono é a longevidade do jiu-jitsu. Se você quer treinar com 50, 60, 70 anos, tem que treinar de kimono.”

Magid Hage, no Pura Connection · 0:58:46

Chave de pé desde o começo

O Magid contou que cresceu num ambiente em que chave de pé só vinha na faixa-roxa e o joelho só na marrom. Ele acha isso errado, porque cria medo. Hoje, na escola dele, aluno de primeira semana já faz drill de chave de calcanhar na aula para todos os níveis. A regra é uma só: faixa-branca não aplica chave de perna em faixa-branca.

Ele contou que as mulheres da academia se apaixonam pelas chaves de perna. A explicação dele é que a posição deixa a parte de cima do corpo longe de um homem mais forte e usa as pernas, onde elas têm força. Segundo o Magid, tem faixa-azul finalizando homem faixa-branca com chave de pé, e os caras batem rápido porque ficam com medo do joelho.

De Oceanside à Pirâmide do ADCC

A história dele começa com o pai, que, segundo o Magid, começou a treinar em 1993, ano em que ele nasceu. A família se mudou para a Califórnia em 1999 atrás do surfe. Sem aula infantil, o menino ficava vendo o pai dar aula numa academia de Oceanside cheia de militares. Até que o irmão do professor, Marcelo, mandou ele fazer uma kimura e riu quando viu que ele não sabia. No dia seguinte o pai comprou um kimono e o jogou na turma de adultos.

O clique veio no ADCC de 2005, em Long Beach. O professor original do pai, Daniel Valverde, estava hospedado na casa deles e deu ao garoto de 12 anos o crachá de técnico. Um desconhecido ainda o colocou na área VIP, e ele assistiu dali à luta do Marcelo Garcia. Segundo o Magid, foi ali que se apaixonou por competição.

Depois vieram os anos na sede da Gracie Barra, onde, ainda faixa-laranja, treinava numa turma com dez ou vinte faixas-pretas e virava o placar em lutas de Roger Gracie, André Galvão e Braulio Estima. Ele também contou que, entre os 13 e os 15 anos, era parceiro de drill da Kyra Gracie nos camps do Mundial e apanhava dela, para diversão de todo mundo.

“Aquele momento me fez me apaixonar por competição e pelo Marcelo Garcia.”

Magid Hage, no Pura Connection · 0:29:30

Camiseta, seletiva e o que vem pela frente

Na seletiva do ADCC no Brasil, o Magid foi o único atleta lutando de camiseta. Ele conta que isso vem da Gracie Barra, onde as regras de uniforme foram apertando até exigir rash guard e bermuda da marca. Ao abrir a própria escola, quis estilo próprio. Segundo ele, chegou à final com seis lutas, todas vencidas por finalização, e perdeu para o Mica Galvão. Antes, na seletiva da Costa Leste, tinha perdido uma luta apertada para o Kade Ruotolo.

Depois da seletiva, ele contou que conversou com Carlos Gracie Júnior na Flórida e pediu desculpas por não ter aberto uma Gracie Barra. Segundo o Magid, o Carlinhos disse que não via problema nenhum e que, aos 20 e poucos anos, também só queria saber de turma de competição.

Os planos dele são mais algumas edições do ADCC, levar um aluno junto e abrir escolas em cidades de praia com onda boa, de San Diego até Austrália e Japão. Ele lembra que surfe e jiu-jitsu andavam juntos desde a raiz, com Rickson e Royler fazendo as duas coisas, e acha que cabe a eles manter essa ligação viva. Saí da conversa convencido de que ele leva o assunto a sério.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.