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Pura Connection · Malvino Salvador

Malvino Salvador conta como montou com Kyra Gracie uma academia gigante

O ator treinou com Xande Ribeiro em Manaus, ficou 14 anos longe do tatame e hoje divide com a mulher uma academia de jiu-jitsu com metade do público feminino.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 1 ago 2022 (1:27:50).

Quando Kyra Gracie resolveu abrir a própria academia, ouviu do pai que precisava de um homem à frente do negócio. Quem contou isso foi o marido e sócio dela, o ator Malvino Salvador, no Pura Connection. Ele pensou no assunto e chegou à conclusão contrária: o diferencial da academia seria justamente ser comandada por uma mulher.

Deu certo. Segundo o Malvino, a academia na Barra da Tijuca passou dos 550 alunos que eram a meta do plano de negócios, tem metade do público formado por mulheres e entre 70% e 75% de crianças e adolescentes. Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi como ele junta o que aprendeu no tatame com o jeito de administrar.

Manaus, a Academia Monteiro e Xande Ribeiro

O Malvino é manauara e começou no jiu-jitsu aos 18 anos, na Academia Monteiro, com os irmãos Monteiro. Contou que um dos parceiros de treino dele era o Xande Ribeiro, ainda faixa-azul e já fenomenal. O que ele guarda daquela academia é o carinho dos professores com os alunos.

Ele treinou dos 18 aos 20, parou, voltou e seguiu até os 24, chegando a competir. Em 2001 largou tudo em Manaus, inclusive a faculdade de ciências contábeis quase no fim, para tentar a vida como modelo em São Paulo. Pediu aos pais um ano de ajuda. Segundo ele, a coragem para arriscar veio do jiu-jitsu.

“Não tenho dúvida alguma que isso só aconteceu também por conta dessa experiência com a arte marcial, com o jiu-jitsu.”

Malvino Salvador, no Pura Connection · 0:10:09

Foram três anos dormindo de casa em casa, estudando de madrugada e pegando ônibus, até passar no teste da primeira novela. Nesse tempo ficou 14 anos sem treinar jiu-jitsu. Fez boxe por causa de uma novela e só voltou ao tatame para valer quando começou a namorar a Kyra. Hoje ele é faixa-marrom há três anos e diz que não tem pressa nenhuma pela preta.

A conta dos 550 alunos

A parte do negócio é a mais curiosa. O Malvino contou que a Kyra, havia anos, dizia que o jiu-jitsu tinha perdido o jeito de ensinar da época de Carlos e Hélio Gracie: cada um abriu academia de um jeito, tudo virou competição e os melhores professores foram para fora do país. Ela pensava num estúdio pequeno. Ele, com a formação em contabilidade e a experiência de sócio em outros negócios, montou o projeto financeiro.

O raciocínio foi primeiro escolher o público, depois o bairro. Na Barra, segundo ele, havia escolas por todo lado e fila de espera até para natação infantil. Acharam um prédio novo, fizeram a proposta e chegaram à meta: 550 alunos para a conta fechar. A Kyra achou o número impossível. Ele respondeu que, se ela não acreditasse, era melhor nem começar.

“Você tem o teu nome, oito vezes campeã mundial, você tem toda a história da tua família.”

Malvino Salvador, no Pura Connection · 0:49:22

Ele disse que já refez as contas e que o espaço comporta 750. Uma segunda unidade estava sendo aberta perto da primeira, e o plano era chegar ao Leblon no ano seguinte.

Um método com psicólogo e sem rola solto

O Malvino descreveu uma rotina de reuniões que parece de empresa grande. Toda terça tem reunião de metodologia com os professores, com apoio de psicólogos e psicopedagogos. O aluno novo passa primeiro pela defesa pessoal, depois pelas posições básicas e de transição e só então entra no treino específico. Rola solto, de cara, não tem.

Ele explicou o motivo com um exemplo de dentro da família. Segundo o Malvino, quando Roger Gracie foi para Londres, não tinha ninguém graduado para treinar. Então se colocava nas piores posições contra faixas-brancas e azuis, e voltava para as competições sempre campeão. Para o Malvino, quem só treina duro vira um lutador limitado.

“Ele se colocava nas situações piores, e voltava para campeão o tempo inteiro.”

Malvino Salvador, no Pura Connection · 0:39:59

Ele contou que mudou o próprio jeito de treinar. Antes, lutava para ganhar todo rola, travava o jogo e amassava o parceiro. Hoje treina mais solto e diz que isso é uma forma de generosidade, porque o travamento atrapalhava o aprendizado dos dois. Para ele, o jiu-jitsu exercita disciplina, liderança e a humildade de ensinar quem tem faixa menor. E leva isso para casa: numa discussão com a mulher, contou, ninguém impõe nada, os dois conversam. Também usou a montada como lição de vida. Quem está por baixo precisa aceitar a posição ruim e controlar a emoção para achar a saída, em vez de se debater.

Ele também contou que, antes de abrir a academia, a Kyra foi atrás de quem já tinha feito aquilo. Citou a ajuda de Fábio Gurgel, dos irmãos Valente, de Renzo, Ralph e do Roger.

A mãe que tinha medo do jiu-jitsu

A história que mais me tocou foi a de uma mãe que levou os dois filhos, de 4 e 6 anos, porque eles sofriam bullying. Quando ofereceram uma aula experimental para ela, fez cara de pavor. Segundo o Malvino, ela via o jiu-jitsu como coisa bruta. Duas semanas vendo mulheres, crianças e homens respeitosos entrando e saindo mudaram isso. Ela se matriculou e, uma semana depois, levou a própria mãe, de mais de 70 anos. Eram três gerações no tatame.

Ele também falou de um aluno com paralisia cerebral que se apresentou sozinho no evento anual de graduação, para mais de 1.200 pessoas, e do primeiro aluno da academia, o Fábio, que começou depois dos 40 levando o filho e acabou de pegar a faixa-roxa.

No fim, o que fica é a ideia de crescer devagar. O Malvino disse que recusou um investidor quando a academia tinha dois anos, porque a cultura ainda não estava firme. A comparação que ele fez é de professor: numa passagem de guarda, quem pula etapas dá espaço para o adversário repor. Na empresa, segundo ele, é igual.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.