Dos Nossos Podcast · Maurício Ruffy
Maurício Ruffy conta como saiu de Alagoas aos 14 anos e chegou ao UFC
No Dos Nossos Podcast, o nocauteador da Fighting Nerds lembra do ônibus clandestino, dos três anos de lesão e explica o chute que chama de golpe do Neymar.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 8 mai 2025 (1:52:03).
O Maurício Ruffy tinha 14 anos quando entrou num ônibus clandestino em Alagoas rumo a São Paulo, com a passagem paga por trabalhadores do corte de cana, cada um dando um ou dois reais. Hoje ele é um dos nomes que mais chamam atenção no UFC. No Dos Nossos Podcast, sentado com o Fabrício Werdum, ele contou esse caminho inteiro, e não foi uma estrada bonita.
Assisti à conversa e fiquei impressionado com duas coisas: o tanto que o Ruffy sofreu antes de dar certo e o quanto ele pensa cada luta. Ele diz que já sabe o minuto em que vai dar o chute que quer.
“Eu costumo dizer que viver é totalmente diferente de sonhar.”
Maurício Ruffy, no Dos Nossos Podcast · 0:02:37
A fita do Pride e o ônibus clandestino
Tudo começou aos 6 anos, segundo o Ruffy. O irmão mais velho treinava em São Paulo, voltou para Coruripe, montou um ringue de madeira no quintal e saiu na mão com os amigos. O menino viu aquilo e decidiu que ia ser lutador. Ninguém levou a sério. Na mesma época, a família tinha uma única fita com lutas do Wanderlei Silva e do Shogun no Pride, e ele passava a noite voltando as lutas.
Aos 14 cumpriu a promessa. Os pais, contou ele, não tinham dinheiro nem queriam o filho levando soco na cara. A viagem que devia durar três dias levou quase sete, e no caminho ele viu um homem ser morto numa briga dentro do ônibus e jogado para fora. Passou o resto do trajeto sem descer nem para comer.
Em São Paulo, a realidade foi outra: ele costurava barra de camisa na fábrica de um tio durante o dia e treinava à noite. Segundo o Ruffy, um tio chamado Renildo, faixa-marrom de jiu-jitsu, foi quem passou a luta para ele e para o irmão.
O nocaute que tirou Ruffy da costura
A virada veio aos 17 anos. O dono da academia chamou um lutador com mais de 100 quilos para fazer sparring com ele, que pesava uns 75. A ideia, segundo o Ruffy, era só ver se ele tinha coração para apanhar. Com um minuto, ele acertou uma mão e o grandão caiu duro. No dia seguinte, ganhou uma ajuda de 600 reais por mês e suplemento, e largou a costura.
Ele contou que fez seis lutas em eventos pequenos de São Paulo e nocauteou todo mundo no primeiro minuto. O sonho, porém, era a Chute Boxe, por causa do Wanderlei. Chegou lá, mas saiu: segundo o Ruffy, o Diego Lima o tirou da equipe porque ele não conseguia cumprir os horários, numa fase de dificuldade financeira, com a moto presa e sem habilitação. Ele fez questão de dizer que depois os dois conversaram e ficou tudo bem.
Três anos parado e a fé
Na Fighting Nerds, segundo o Ruffy, o treinador Pablo o recebeu com uma regra dura: se faltasse um treino, não precisava voltar. Veio então a pior fase. Ele contou que passou cerca de três anos entre cirurgias: toda vez que marcava uma luta, estourava um joelho ou a mão. Ficou três anos na equipe sem lutar.
Ao mesmo tempo, o casamento ia mal, a esposa sustentava a casa e ele contou, com muita franqueza, que chegou a desejar não acordar. A saída, segundo ele, veio pela fé, numa história que envolve um barbeiro que virou pastor e a gravidez da esposa, que tinha diagnóstico de endometriose. Hoje ele tem dois filhos e diz que a missão principal é falar de Jesus nas lutas.
Duas lutas na mesma noite
O contrato que abriu a porta foi estranho, nas palavras do próprio Ruffy: um torneio com duas lutas na mesma noite, depois de três anos parado, numa chave com dois ex-UFC. Ele nocauteou o primeiro adversário em cerca de um minuto e 20 com um chute rodado na barriga, mas quebrou a mão direita. Na segunda luta pegou o Ronys Torres, que ele descreve como muito bom de jiu-jitsu. Contou que chegou a dizer ao adversário, na grade, que ele estava machucado demais. O Torres quis continuar, e o Ruffy nocauteou.
Poucos dias depois veio o Contender, numa categoria acima, contra um adversário que, segundo ele, era treinado junto do Islam. Nocaute de novo. Na estreia no UFC, contra um rival com dez lutas na organização, ele mostrou uma tesoura de capoeira, arte em que é aluno graduado.
O golpe do Neymar
O nocaute sobre o Bobby Green foi planejado. O Ruffy disse que avisou a equipe que nos dois primeiros minutos ia sentir a velocidade do americano e frustrar o ímpeto dele. Quando o Caio Borralho gritou dois minutos, ele já estava preparando o chute. A inspiração, contou, veio de um drible do Neymar que ele viu: um drible em cima do outro. Na luta, ele fez duas fintas, direto e cruzado, e o chute rodado chegou por trás da guarda.
“Neymar, você me ajudou a nocautear alguém.”
Maurício Ruffy, no Dos Nossos Podcast · 1:07:23
Antes dessa luta, na encarada, o Green esbarrou no braço dele. O Ruffy foi atrás e cobrou um pedido de desculpas, que veio na hora. Para ele, a luta tem etapas antes do octógono.
“O meu primeiro round é a balança. O segundo round é a encarada.”
Maurício Ruffy, no Dos Nossos Podcast · 1:29:41
O Ruffy diz também que, nas três últimas lutas no UFC, não levou um soco no rosto, e credita isso ao controle de distância que o Pablo ensina. Contou que, no começo, saltitava para frente e para trás até não aguentar mais. Ele citou ainda o trabalho de respiração com o Márcio Faraco, que segundo ele mudou a performance e o trouxe para o momento presente.
O recado do Wanderlei
No meio da gravação, o Werdum ligou para o Wanderlei Silva. O Ruffy contou que pagava 5 reais em lan house para ver dois vídeos dele, porque a internet era lenta. O Wanderlei deu um conselho simples e lembrou do Werdum nos Estados Unidos: segundo ele, nunca viu um peso-pesado tão dedicado, que chegava primeiro e fazia dois, três, quatro treinos por dia.
“Mantém o foco mais do que nunca.”
Wanderlei Silva, no Dos Nossos Podcast · 0:45:41
O Ruffy disse que quer ser campeão do UFC até os 30 anos, que não pensa em lutar contra brasileiros como o Charles do Bronx e que o alvo é o Islam. O que fica da conversa é o retrato de um lutador que sofreu muito para chegar e que agora luta com cabeça fria e plano na mão.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.