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Pura Connection · Murilo Bustamante

Murilo Bustamante e a luta no UFC que recomeçou depois da finalização

Faixa-coral, ele conta como a cabeça decidiu suas lutas mais duras, do desafio contra a luta livre ao cinturão do UFC, e por que treinava para perder.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 9 set 2021 (1:22:26).

Murilo Bustamante tinha acabado de finalizar o adversário e defendido o cinturão do UFC. Foi aí que o árbitro mandou os dois de volta aos corners para recomeçar a luta. Na conversa com o André no Pura Connection, o Murilo lembrou esse momento como um dos maiores testes mentais da carreira: ele diz que nem sabe se, naquela hora, abririam a porta do ringue para ele sair.

“Eu ganhei a luta e aí o cara fala para você: não, você não ganhou, volta para o seu corner que vai recomeçar a luta.”

Murilo Bustamante, no Pura Connection · 0:19:08

Assisti à entrevista e o fio de tudo é esse: controle emocional. O Murilo fala de medo, de vaidade, de insegurança, e de como o jiu-jitsu deu a ele ferramentas para lidar com isso dentro e fora do tatame.

O cinturão contra Lindland e outros testes de cabeça

A luta era contra Matt Lindland. Segundo o Murilo, ele chegou inseguro: vinha de uma infecção no dedo que tinha atrapalhado a preparação e o contrato com o evento estava acabando, sem saber o que viria depois. Pegou o americano, a luta parou, e em vez da vitória veio a ordem de recomeçar. Ele conta que teve clareza para se acalmar, com ajuda do corner, e no fim deu tudo certo.

Ele citou outros dois momentos parecidos. Um foi contra Tom Erikson, que ele descreve como um cara muito mais pesado, preparado contra o jiu-jitsu e que por pouco não foi às Olimpíadas. Segundo o Murilo, o empresário dele na época queria uma luta casada mais fácil, contra um faixa-roxa do mesmo peso. Ele recusou. Estava com uns 30 anos, anos de faixa-preta, e queria saber até onde o jiu-jitsu dele ia.

O outro foi uma luta no Pride que ele aceitou numa quarta-feira para lutar no domingo, contra um adversário que, segundo ele, estava super preparado. "Não tinha feito o dever de casa", disse. Para o Murilo, o vale-tudo é sobretudo mental: não adianta o atleta ser muito bom se não tem a cabeça no lugar para raciocinar no meio do sufoco.

O desafio contra a luta livre

Antes de tudo isso veio o primeiro vale-tudo da vida dele, o desafio entre jiu-jitsu e luta livre. O Murilo diz que nunca pensou em ser lutador profissional. Se ofereceu porque era um dos principais faixas-pretas competidores da época.

“Eu tenho obrigação de defender o jiu-jitsu.”

Murilo Bustamante, no Pura Connection · 0:17:35

Ele contou um detalhe que pouca gente sabe: por muito tempo tentaram organizar o confronto dentro de uma academia, entre os selecionados das duas artes, e não havia dinheiro nenhum envolvido. Só depois apareceu um empresário que tomou a frente e montou o evento, que acabou passando na televisão. Nas imagens, lembra o Murilo, a torcida ficava colada no ringue e lutador caía quase em cima do público.

Ele também lembrou que muita gente apostava contra ele e contra o Fábio por serem caras educados, que não brigavam na rua. "A minha agressividade toda era canalizada para as competições", explicou. Depois, sem prêmio em dinheiro no jiu-jitsu daquela época, o caminho para quem queria viver de luta era o vale-tudo, com o surgimento do UFC e do Pride.

Orlando Cani e o treino para perder

O Murilo credita boa parte do preparo mental a Orlando Cani, com quem fez ioga e ginástica natural por muito tempo no começo da carreira de faixa-preta. Segundo ele, o Cani o ajudou na concentração e na respiração nos dias de combate, e insistia num ponto.

“O medo de perder tira a tua criatividade.”

Orlando Cani, no Pura Connection · 0:10:46

Mas a parte que mais me marcou foi o método de treino que ele contou. Na época áurea de competidor, o Murilo rodava sem parar com os caras mais duros da academia e guardava o pior de todos para o final, quando já estava exausto depois de uns 50 minutos. Ele diz que tomava o maior sufoco da vida nesse momento, de propósito. Melhorava a defesa e treinava a cabeça para não desligar nunca.

“Eu ia perder necessariamente. Eu queria perder, eu queria ser finalizado ali naquele momento.”

Murilo Bustamante, no Pura Connection · 1:05:09

Ele compara com o que os senseis de judô fazem no Japão com os campeões: botam o melhor para perder, porque quem nunca perde no treino não aprende a aceitar a derrota. E diz que já viu, como treinador, atletas que evitavam situações difíceis pagarem o preço na luta.

Do garoto inseguro ao faixa-coral

O Murilo começou no jiu-jitsu em 1977, com 10 para 11 anos, levado pelo exemplo dos irmãos mais velhos, que já surfavam e lutavam. O surfe veio até antes. Ele conta que era um garoto muito tímido e inseguro, marcado pela separação dos pais, e que foi ao começar a competir, com 14 ou 15 anos, que se encontrou.

Da academia onde se formou, ele guarda uma lição pelo avesso. Contou que viu várias vezes o antigo mestre discutir com alunos que faltavam com o respeito de forma acintosa, e numa época em que o iniciante rolava depois de duas ou três aulas, na lei da selva. Quando começou a dar aula, decidiu fazer diferente: cumprimento no dojô, postura no tatame, turma de iniciante protegida.

“Para mim vale muito mais ajudar a formação do cidadão do que do campeão.”

Murilo Bustamante, no Pura Connection · 0:33:12

Hoje ele está mais presente nas aulas infantis e diz que uma hora com criança cansa como três de adulto, mas dá uma energia que compensa. Faixa-coral, com 45 anos de jiu-jitsu, 33 dando aula e competindo até os 45, ele fecha a conversa falando de humildade. Para ele, quem acha que já sabe tudo parou de aprender, no tatame e na vida. Saí da entrevista com vontade de testar o treino dele: deixar o mais duro para o fim.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.