Podcast Nem Me Viu · Norma Dumont
Norma Dumont conta a treta com Chelsea Chandler antes da luta no UFC
No Nem Me Viu, a lutadora mineira fala da rival que a provocou pela internet, do marido que é seu treinador e do overtraining que quase a tirou de uma luta.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 31 out 2023 (3:21:05).
Norma Dumont trocava mensagens no Instagram com Chelsea Chandler. Dava conselho, comentava as lutas da americana, tratava como amiga. Até que, ainda na banheira de gelo depois de vencer Carol Rosa, abriu o celular e leu a Chelsea dizendo que a luta dela tinha sido horrível e que a nocautearia ou finalizaria no primeiro round. Dali saiu uma treta com xingamento em português no dia da pesagem e um vídeo que passou de um milhão de visualizações.
Assisti à participação dela no Nem Me Viu, o podcast de Fabricio Werdum, e o que ficou foi a franqueza. A Norma fala do jeito que luta: sem rodeio.
“Se eu tiver medo de lutar com a Chelsea, como é que eu vou enfrentar a Amanda?”
Norma Dumont, no Podcast Nem Me Viu · 1:18:53
Da provocação à pesagem
Segundo a Norma, as duas já tinham tentado marcar essa luta antes, e o UFC recusou porque a americana ainda estava estreando e a brasileira já estava perto do cinturão. Depois da vitória sobre a Carol, a ideia era enfrentar Amanda Nunes pelo título, mas o UFC já sabia que a Amanda podia se aposentar. Foi aí que o matchmaker ofereceu a Chelsea, que estava sem ranking e pedindo a luta. O empresário Alex Davis achou arriscado. A Norma mandou aceitar e ainda topou lutar dois meses depois, com o pé machucado.
Quando a luta foi confirmada, a americana voltou a provocar, dizendo que a Norma não tinha nível e era pequena demais para a divisão. A resposta foi uma mensagem no privado: te vejo dia 15 de julho. Na semana do evento, segundo a Norma, a Chelsea desviava o olhar em todo lugar. Na encarada, ela avisou o empresário que, se a rival pusesse a mão no queixo dela, como costumava fazer, ia responder na hora. Não pôs. Mas atrás do palco, depois de um gesto obsceno da Chelsea, a Norma xingou em português e a confusão só acabou quando o Alex separou.
Depois disso ela entregou o celular para o marido e para a fisioterapeuta e parou de ler rede social. Ela conta que chegava muita mensagem dizendo que ia apanhar por causa da briga, e pediu aos fãs para não mandarem esse tipo de coisa para quem está perto de lutar.
O plano do marido treinador
A parte que eu mais gostei foi a técnica. O Johnny, marido e treinador da Norma, estava no estúdio e explicou o plano. A Chelsea é canhota, tem mão pesada e joga em linha reta. A orientação era abaixar a cabeça e soltar o swing por baixo. A Norma contou que lutou com 69 kg enquanto a rival devia estar com uns 74, então o Johnny avisou antes de sair para a luta: nada de trocar pancada para provar quem é mais forte.
“Eu não quero concurso de machismo nessa luta. Ela vai sentir sua mão, mas vai continuar vindo. Quando apertar, bota para baixo.”
Johnny, no Podcast Nem Me Viu · 1:30:11
Foi o que aconteceu, segundo ela. A Chelsea balançou duas vezes no segundo round e continuou vindo, e a Norma lembrou da voz do marido e passou a levar a luta para o chão. Essa vitória foi a terceira seguida dela.
O casal contou outros exemplos. Contra Aspen Ladd, que tinha wrestling forte e seis nocautes no ground and pound, o plano foi só jab nos dois primeiros rounds. Como o Johnny fala inglês, ele ouvia as ordens do corner adversário e antecipava. Quando o treinador da Aspen mandou ela entrar na perna depois do direto, o Johnny pediu para a Norma fintar o direto e soltar um uppercut. Já contra a Carol Rosa, com dois corners brasileiros, uma ouvia o que o técnico da outra gritava, e a Norma saiu da luta esgotada de tanto pensar.
Da briga de rua ao UFC
A Norma disse que sempre gostou de briga de rua. Começou no jiu-jitsu aos 14 anos numa academia perto de casa, parou em menos de um ano para trabalhar e virou secretária na Vale do Rio Doce aos 18. Com salário, foi fazer sanda, uma luta chinesa que ela descreve como kickboxing com quedas, depois de ver Cris Cyborg lutando. Voltou ao jiu-jitsu aos 22 e hoje soma 12 anos de treino de chão.
Foi numa aula de sanda e kung fu que ela conheceu o Johnny, o faixa-preta de mais destaque da equipe, ex-lutador de MMA que parou por uma lesão no olho. Ele era guarda municipal, ela secretária. Largaram os dois empregos, montaram um CT com dinheiro emprestado e moraram lá dentro. Segundo o Johnny, a dívida só acabou de ser paga seis meses antes do podcast, e a primeira viagem de passeio do casal em 13 anos foi naquele mesmo ano. O casamento, no cartório, saiu só para ele conseguir o visto de acompanhante e ir às lutas nos Estados Unidos.
Overtraining e o limite do corpo
Um trecho que todo professor deveria ouvir é o do overtraining. A Norma contou que teve três. No pior, chorava no meio do treino, não conseguia dormir e tomava doses altas de cafeína para compensar. O médico mediu o batimento em repouso na casa dos 80 e 90, quando o normal dela era 50. Ela vinha de seis meses de lutas marcadas e canceladas, com quatro trocas de adversária.
Ela admitiu que tinha dificuldade de aceitar o limite. Sempre treinou com homens e se cobrava para render igual a meninos de 21 anos. Hoje respeita o controle de carga do Johnny: um treino longo e outro de 40 minutos por dia.
O futuro no peso galo
Sem a Amanda, que para a Norma era a mulher a ser batida, e com o UFC mostrando pouco interesse em manter a categoria até 66 kg, ela decidiu descer para o peso galo. Disse que não quer ser campeã de uma divisão sem adversárias. Na lista de desejos estão Germaine de Randamie, Valentina Shevchenko e Irene Aldana, porque ela quer um desafio na trocação. Também lamentou que Holly Holm nunca aceitou a luta entre elas.
Ela fechou com uma defesa do lutador brasileiro. Para a Norma, dá para ser campeão do UFC treinando no Brasil, desde que a equipe seja boa. O que falta, na visão dela, é profissionalismo e ciência: o americano vira atleta com 7 ou 8 anos, e o brasileiro só aprende a comer, dormir e treinar como atleta depois de chegar ao UFC. Técnica e disposição, segundo ela, a gente tem de sobra.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.