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Muito Mais Ação Jiu-Jitsu

Patrocínio no jiu-jitsu: donos de marcas dizem que título não vende mais

Os donos da Brown's, da Caveira e da Stormstrong contam o que buscam num atleta, os patrocínios que deram errado e a história do Kaynan Duarte morando na casa do patrocinador.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 20 jul 2021 (1:21:41).

Quem compete e sonha com patrocínio devia ver essa conversa inteira. O B-Cast juntou três donos de marca do jiu-jitsu, Renato, da Brown's, que mora na Austrália, Marcelo, da Caveira, e Kleber, da Stormstrong, e o recado dos três foi o mesmo: medalha sozinha não paga mais a conta de ninguém.

Assisti ao episódio e o que mais me chamou atenção foi a sinceridade. Eles contaram os casos que deram certo, os que deram errado, e explicaram como enxergam o atleta do outro lado da mesa. Para quem acha que ser campeão já basta, é um banho de água fria.

Cem campeões mundiais por ano

A conta foi feita no meio do papo por Jaime, do Muito Mais Ação: são cinco faixas, dez categorias de peso, masculino e feminino. Isso dá em torno de cem campeões mundiais por ano. Se o atleta não fizer nada de diferente, disse ele, é só mais um.

Marcelo, da Caveira, foi direto: na visão dele, atleta já não converte em venda. Por isso a marca mudou a estratégia e passou a fechar com líderes de equipe, para uniformizar o time inteiro. Ele contou que a última atleta que realmente fez a marca vender foi a Gabi Garcia. Kleber concordou e disse que é muito raro um atleta que vende, e que o campeão ajuda mais no posicionamento da marca.

Renato completou com uma frase que resume o episódio. Ele prefere ler três linhas sobre quem a pessoa é do que um currículo cheio de títulos. E lembrou que o modelo de marca pagando rios de dinheiro para campeão não se sustenta: a prova, segundo ele, foi a pandemia, quando a maioria ficou sem patrocínio.

“Esse modelo de marca pagar campeão e campeão ganhar rios de dinheiro não é sustentável.”

o apresentador, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:49:28

O que as marcas evitam

A primeira pergunta foi o contrário do normal: que atleta eles não patrocinariam? Marcelo disse que evita o atleta muito polêmico, que usa ofensa para se promover. A Caveira já tem valores conhecidos pelo público, e quem segura a crítica depois é a marca. Ele prefere o cara sorridente, que sabe se divulgar de forma pacífica.

Kleber falou com a experiência de quem já passou por isso. A Stormstrong patrocinou o Erberth Santos desde a faixa-marrom, antes das grandes polêmicas, e segundo ele a marca conseguiu fazer dele campeão mundial. Kleber disse que na época foi vantajoso e que a marca soube conduzir a polêmica, mas que hoje evita esse perfil, porque não dá para ficar apagando incêndio.

Outro ponto repetido pelos três: o pedido de kimono pela internet. Kleber separa bem as coisas. Ajuda é caridade, e às vezes ele dá um kimono com defeito para quem precisa. Patrocínio é negócio e tem de dar retorno.

“Patrocínio é negócio. Patrocínio precisa dar retorno.”

o apresentador, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:11:48

Marcelo contou de um rapaz que conversou com ele por duas horas e meia no estande do Brasileiro, puxando assunto, até que pediu um kimono de graça.

Do atleta que sumiu ao Kaynan morando em casa

As histórias foram a melhor parte. Kleber lembrou de 2005, bem no começo da Stormstrong, em Londrina. Um atleta pediu patrocínio para um evento, e ele mandou estampar um short com a marca porque o cara não tinha nada. Foi com a namorada, hoje esposa, para a arquibancada ver a estreia. O atleta entrou com a marca de outra empresa.

A história boa também é dele. O Kaynan Duarte, na época de faixa-roxa, estava em San Diego quando machucou o menisco, perto de uma seletiva do ADCC, e ligou desesperado dizendo que não tinha dinheiro para a cirurgia. Kleber contou que a marca pagou a operação, descontando depois do contrato, e que o Kaynan foi morar na casa dele para fazer a fisioterapia. Depois, segundo Kleber, ele foi ao ADCC e finalizou o Pablo Popovitch.

Ronaldo Aoqui, que apresentava o programa, deu o exemplo contrário do atleta que some. No BJJ Stars, a BJJFlix patrocinou uns quinze atletas, e quem mais valorizou a marca, sem ninguém pedir, foi a Bia Basílio. Campeã, ela falou da plataforma na entrevista em cima do tatame. Ele disse que vai lembrar disso na hora de escolher quem patrocinar.

Renato, da Brown's, lembrou de outro tipo de relação. Ele patrocina o Roger Gracie e disse que não espera que o Roger fique o dia inteiro postando sobre a marca. O que ele traz é reconhecimento e a consolidação do que a empresa quer fazer dentro e fora do jiu-jitsu. Renato contou que, para ele, foi também uma conquista pessoal.

Trocar de marca sem queimar a ponte

Sobre atleta que troca de patrocinador, os três pensam parecido. Renato só pede uma conversa antes. Kleber, que revela muita gente da base, diz ao atleta que recebeu proposta maior para ir, porque a carreira é curta.

O exemplo citado foi o do Mica Galvão. Foi descrito como a saída de equipe mais tranquila que o dono da marca já viu: a empresa ajudou a carreira do Mica, o Mica trouxe audiência, e a mudança para outra marca foi feita sem briga. Eles ainda se falam todo dia.

Kleber também reclamou de um hábito: o atleta que troca de patrocinador e depois apaga a logo antiga das fotos. Para ele, aquela marca faz parte da história do atleta e merece aparecer.

O conselho para o faixa-branca

No fim, a pergunta foi o que dizer ao faixa-branca que quer viver de jiu-jitsu. Kleber comparou esse atleta a um empreendedor: ele não pode esperar crédito antes de trabalhar. Treinar, competir, construir o nome, e o patrocínio vem depois. Marcelo pediu caráter antes de tudo e deu uma saída para quem não vira campeão: se não se tornou um bom lutador, que se torne um ótimo professor e forme bons lutadores.

“Se você não se tornou um bom lutador, se torne um ótimo professor e forme bons lutadores.”

o apresentador, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:57:20

Jaime lembrou que ele mesmo nunca ganhou um campeonato e é patrocinado por uma marca de jiu-jitsu. E contou que o Tainan Dalpra ficou acordado depois de um evento para gravar um podcast com ele às duas e meia da manhã. Para Ronaldo, os mais antigos entendem isso: o Cyborg, segundo ele, trata todo mundo bem e chegou a levar a equipe para gravar no Pantanal.

O que fica da conversa é simples. Patrocínio é relação, construída em anos, e começa muito antes da primeira medalha.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.