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Pura Connection · Paulo Zulu

Paulo Zulu conta como virou faixa-preta de jiu-jitsu depois dos 40 anos

Faixa-azul por 16 anos por causa da carreira de modelo, ele voltou ao tatame aos 43 e pediu para ser testado antes de aceitar a preta.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 22 ago 2022 (1:17:11).

Quando ofereceram a faixa-preta a Paulo Zulu, ele recusou. Tinha só dez meses de marrom e não queria a faixa de alguém que nunca o tinha visto treinar. Ligou para os amigos que o acompanhavam desde pequeno, viajou para o Rio e pediu um treino duro contra um faixa-preta no auge. Se achassem que ele era marrom, ficava marrom.

“Se vocês acharem que eu sou marrom, fico com a marrom. Se vocês acharem que não, quero que vocês me deem a preta.”

Paulo Zulu, no Pura Connection · 0:19:08

Assisti à conversa dele no Pura Connection esperando ouvir o modelo e o surfista. Encontrei um apaixonado por jiu-jitsu que passou 16 anos na faixa-azul, voltou a treinar com mais de 40 e ainda fala da arte suave como quem fala de um sonho.

Dezesseis anos de faixa-azul

O Zulu conta que começou com o Pitoco, passou por Marcelo Behring e, quando o Marcelo teve problemas de saúde, seguiu com Sylvio Behring. Depois caiu na Gracie Barra, que ficava do lado de casa. Nunca competiu no jiu-jitsu: competia no surf, que era de onde tirava dinheiro.

Aí veio a carreira de modelo. Ele lembra que chegou a treinar numa academia na França, mas o pescoço engrossou e as roupas do desfile não fechavam mais. Começou a perder trabalho e teve de parar. Enquanto isso, os amigos do Rio iam todos se graduando, e quando ele aparecia para treinar era atropelado. Diz que desanimou e preferia chamar a turma para pegar onda.

Mesmo longe do tatame, ele conta que foi entendendo com o tempo por que a arte suave funciona: tem lei da física, tem muita inteligência. E passou a enxergar a vida do mesmo jeito. Quando você está no sufoco, quase batendo, lembra que basta virar o queixo um pouquinho para voltar a respirar, e depois outro movimento para aliviar a pressão. Para ele, jiu-jitsu é coreografia de chão, defesa pessoal, autoestima e criatividade, muito mais do que campeonato ou ego de quem se acha duro.

A volta aos 43 anos

A virada foi com um amigo que hoje mora em Dubai, o Cabeça, Rafael Roberto da Silva. O Zulu tinha levado os filhos para treinar com um professor de que não gostou e começou a brincar de jiu-jitsu com eles em casa. O Cabeça viu, perguntou há quanto tempo ele era azul e ouviu a resposta: 16 anos. Pegou e deu a roxa para ele. Na época, o Zulu tinha 43 anos.

Ele se empolgou. Passou a treinar de manhã e de tarde, procurando os caras bons, e a agência reclamava do risco de machucar. A resposta dele era que o sonho de modelo já estava realizado.

“Meu sonho é essa faixa-preta, não pela faixa, mas pelo respeito à arte suave e aos meus amigos.”

Paulo Zulu, no Pura Connection · 0:17:31

Depois de três anos, contou, os amigos foram à casa dele com o Cabeça e o graduaram faixa-marrom. Dez meses depois veio a oferta da preta, que ele recusou até passar pelo teste.

O treino que valeu a faixa-preta

No Rio, marcaram o treino contra um faixa-preta chamado Davi, que o Zulu descreve como uma pedra no auge. Ele conta que estava muito afiado, porque vinha treinando com gente de todas as linhas e academias. O placar das finalizações, pelas contas dele, foi 3 a 2 para ele, com um triângulo e um estrangulamento de lapela com o braço. No fim, recebeu a faixa-preta.

E, mesmo assim, ele diz que saiu inseguro. Voltou ao Rio e rodou academias de amigos treinando só com faixas-pretas, para ter certeza de que o jogo dele sustentava a graduação.

O melhor jogo termina empatado

O jeito de treinar do Zulu diz muito sobre ele. Como era famoso, virou alvo: tinha gente que aparecia na casa dele só para pagar para ver, apertar o modelo. Ele conta que começou pela defesa justamente por isso, e aprendeu a perder o medo e o ego.

Hoje ele prefere o treino como brincadeira: deixa o parceiro passar uma posição, cai de propósito numa situação ruim para ver o outro trabalhar. Ninguém quer se machucar, diz ele, e ninguém gosta de bater o tempo todo.

“O melhor jogo é o que termina em empate.”

Paulo Zulu, no Pura Connection · 0:21:44

Por não ter bandeira de equipe, ele se orgulha de conhecer o jogo de todo mundo. Conta que já chegou em academia onde todo mundo jogava só guarda-aranha, ou só guarda X, e levou antídoto pronto porque tinha feito treino específico para aquilo. Sobre o próprio estilo, resume: fica na sombra, esperando o que o adversário deixa sobrar.

Modelo pode ser lutador

Segundo o Zulu, muita gente o subestimava por ser modelo, e depois da faixa-preta, que teve muita mídia, o respeito mudou completamente. Ele conta que lutadores como Xande Ribeiro, que treinou com ele no ano anterior, e Daniel Gracie já perguntaram a ele sobre fazer foto, e que a ideia de que lutador não pode ser modelo ficou para trás.

Ele cita Cauã Reymond como exemplo. Conta que o Cauã, quando garoto, acampava no terreno dele e o tinha como referência, e que foi lutador antes de ator, da linha de frente da Alliance, com título brasileiro. Depois precisou parar por causa das novelas, porque não dá para se machucar no meio de uma gravação.

Perto dos 60 anos, o Zulu conta que voltou a treinar forte havia um mês, depois de um acidente de alguns anos antes em que bateu a cabeça e ficou meses em recuperação. E deixa a régua dele para quem acha que tem problema demais na vida:

“Vai lá treinar com um faixa-preta de 130 quilos e me diz o que é um problema.”

Paulo Zulu, no Pura Connection · 0:42:30

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.