Pura Connection · Rogério Camões
Preparador de Anderson Silva, Rogério Camões explica o corte de peso
Faixa-preta de judô e ex-fisiculturista, ele conta como chegou ao Anderson e por que a gordura tem de sair meses antes da luta.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 29 nov 2021 (1:26:51).
Mackenzie Dern dormiu, acordou com 52,6 quilos e já estava no peso da luta. Não entrou na sauna, não fez banheira, não correu. Quem conta é Rogério Camões, o preparador que acompanhou Anderson Silva da primeira à última luta no UFC. Segundo ele, a Mackenzie ficou até chateada de não ter feito nada.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi a origem de tudo isso. O Rogério é faixa-preta de judô, nunca treinou numa academia de jiu-jitsu, mas passou a vida no meio da nossa turma. Foi judoca, fisiculturista, cortou peso dos 13 aos 42 anos e hoje usa essa experiência com lutadores de MMA.
O judô como resposta a uma agressão
O Rogério começou no judô em 1966, e a história de como chegou lá é forte. Ele conta que foi criado por uma família branca, de pai militar, que o colocou num colégio de classe média alta na Gávea. No primeiro dia de aula, na hora do recreio, um grupo de quatro ou cinco garotos partiu para cima dele, o único menino negro da escola. No dia seguinte, o pai o levou para uma academia de judô a 500 metros de casa.
Ele se lembra do tatame de palha de arroz e da sensação de paz ao entrar. Segundo ele, foi ali que entendeu que tinha encontrado o lugar onde ia conseguir se defender. Aos seis anos, já era campeão carioca. Mais do que a medalha, diz o Rogério, o judô deu a ele disciplina, autocontrole e um ambiente em que crianças de todas as cores se tratavam igual.
“Não tem atalho. O caminho da arte marcial é legal porque ele é real.”
Rogério Camões, no Pura Connection · 0:10:39
Um judoca no meio do jiu-jitsu
Muita gente acha que o Rogério é faixa-preta de jiu-jitsu, e ele mesmo ri disso. Segundo ele, os faixas-pretas de jiu-jitsu iam à academia dele para treinar judô e acabavam mostrando o chão. Sylvio Behring era presença frequente e ensinava a turma. Em 1980, contou, um faixa-azul pegou o pé dele num treino. Em vez de brigar, o Rogério pediu que o rapaz ensinasse a defesa e a chave, e passou a exigir isso dos próprios alunos.
Em 1984 e 1985, ele começou a inscrever alunos de judô em campeonatos de jiu-jitsu, para aprenderem o lado competitivo e conviverem com a turma. Segundo o Rogério, foi assim que Megaton começou no jiu-jitsu, antes de ir se aperfeiçoar com Rolls.
“Eu nunca quis provar nada. Eu não queria provar que o judô é melhor que o jiu-jitsu.”
Rogério Camões, no Pura Connection · 0:37:11
Ele também lembrou o clima do jiu-jitsu no Rio daquela época. Para entrar na academia de Carlson Gracie, contou, teve de conversar antes com Carlão Barreto e outros alunos. Era um ambiente hostil, de casca-grossa, e Carlson não deixava ninguém assistir aos treinos de vale-tudo. Mesmo assim, o Rogério fala do mestre com admiração: diz que Carlson era um visionário, que batia o olho e ajustava a posição, e que a academia dele era a única aberta para todo mundo num jiu-jitsu que ainda era de elite.
Do judô ao fisiculturismo
O último campeonato de judô do Rogério foi em 1987. Naquele ano ele passou uma temporada no centro olímpico de Colorado Springs, nos Estados Unidos, e viu europeus e americanos fazendo musculação pesada. Ele já treinava força desde os 15 anos, contra a opinião de muita gente que dizia que peso deixava o judoca duro. Ali, contou, teve certeza de que não estava errado.
Um campeão de fisiculturismo disse que ele tinha estrutura para crescer muito, e o Rogério resolveu transformar o próprio corpo em laboratório. Saiu de 83 quilos no judô para 120 quilos, comendo 10 mil calorias por dia de frango, ovo, peixe, batata, arroz, macarrão, fruta e aveia. Chegou ao top 5 num Mundial. Ele diz que o fisiculturismo é o único esporte que você carrega no corpo 24 horas por dia, e por isso não dá para enganar ninguém.
O método do corte de peso
Quem mais pode aprender com essa conversa é o lutador que sofre para bater peso. O Rogério lembra que cortava peso desde os 13 anos, quando era titular da seleção carioca juvenil, e depois como peso leve da equipe de judô do Flamengo. No fisiculturismo, chegou a ficar três dias sem beber água por ordem do treinador para chegar seco ao palco.
Hoje ele faz o contrário do sufoco. Segundo o Rogério, o atleta dele faz bioimpedância para medir gordura, músculo e água. Dois meses antes da luta, fica uns 10 quilos acima do limite, já com a composição do corpo acertada. Na semana da luta, chega com uns 5 quilos a mais, e esse excesso é só água, tirada depois de uma hiper-hidratação. O lutador continua comendo carboidrato e sódio, e o treino diminui para ele recuperar energia.
“Essa gordura só sai com dieta e exercício aeróbico.”
Rogério Camões, no Pura Connection · 1:09:11
O erro mais comum, explica, é tentar tirar gordura na última semana. Aí o atleta passa mais tempo na sauna, para de comer, perde energia e entra no octógono sem gás a partir do segundo round. Ele também alerta que o estrago de cortar peso errado por anos pode aparecer depois, nos rins. Sobre o Anderson, o Rogério diz que ele nunca teve problema para bater peso.
Do primeiro ao último dia com Anderson Silva
A ligação com o Anderson veio por Joinha, empresário do lutador. O Rogério era sócio do centro de treino da Black House no Rio, onde treinavam Rodrigo Minotauro e Rogério Minotouro. Segundo ele, o Anderson já aparecia por lá para treinar com os irmãos Nogueira, e o Joinha fez a apresentação quando ele estava chegando ao UFC. O trabalho começou na primeira luta no evento e só acabou na última.
Pelas mãos dele também passaram, segundo o próprio Rogério, Carlão Barreto, Wallid Ismail, Vitor Belfort, Ronaldo Jacaré, André Galvão e Ary Farias. Mas é do Anderson que ele fala com mais emoção. Para ele, o que mais o realiza como treinador é ter ficado ao lado do lutador nas vitórias, nas derrotas e nos problemas, até o fim.
“Estar do lado dele naquele momento valeu mais do que pegar um cinturão.”
Rogério Camões, no Pura Connection · 1:20:08
No fim da conversa, aos 64 anos, ele deixou um conselho que serve para o tatame e para fora dele. Fiquei com essa frase na cabeça depois de desligar o vídeo.
“Não começa aquilo que você não pode terminar, porque o terminar é mais importante do que o começar.”
Rogério Camões, no Pura Connection · 1:21:42
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.