Pura Connection · Cácio Zanon
Psicólogo de Diogo Reis conta como a mente decide a luta no jiu-jitsu
Faixa-preta e psicólogo, Cácio Zanon fala do trabalho com a equipe de Melqui Galvão, da final do Baby Shark no ADCC e dos 11 anos em que só perdeu.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 1 fev 2024 (1:19:23).
Quando perguntaram ao Diogo Reis, o Baby Shark, o que ele lembrava da final do ADCC, a resposta foi curta. Quem conta é o psicólogo dele, Cácio Zanon, faixa-preta e professor de jiu-jitsu, que voltou ao Pura Connection dez meses depois da primeira conversa para falar do método que montou desde então.
“Eu só estava ali e executei. Transformei o ADCC num treino.”
Diogo Reis, no Pura Connection · 0:43:50
Assisti à entrevista e achei o assunto mais útil do que parece. O Cácio atende atletas de ponta de várias equipes, mas passa boa parte do tempo falando de gente comum: o faixa-azul que trava no campeonato, o master que perde para a própria cabeça, a criança que já cresce grudada no celular.
O ajuste que faltava no Baby Shark
Segundo o Cácio, foi o próprio Diogo quem chegou à conclusão. Depois de um Mundial, o atleta percebeu que o que tinha pesado foi o lado mental. A equipe de Melqui Galvão já cuidava do físico, da técnica e da estratégia, e o Cácio entrou como especialista para fazer o ajuste que faltava. Dali o Diogo seguiu até o ADCC.
Ele descreve o cenário da final como um teste de nervos: um garoto de Manaus diante de 16 mil pessoas, com o Bruce Buffer anunciando, fogo no palco e encarada. O trabalho, conta, foi blindar a confiança do Diogo e fazer ele focar só no que controlava, tirando o ruído. O Cácio diz que tem vídeo do Diogo aplicando nos treinos as mesmas quedas e movimentos que usou na semifinal e na final.
Ele também cita Mica Galvão, que segundo ele teve um 2023 com cem por cento de aproveitamento e acabava de ir bem no Europeu, e o Gutemberg, campeão do absoluto dois dias antes da gravação, que marcou todos os profissionais que o ajudam numa publicação. Hoje, diz o Cácio, ele atende atletas da Art of Jiu-Jitsu, da equipe do Melqui, da equipe de André Galvão, da Dream Art e de outras escolas.
Onze anos tomando na cabeça
A parte que mais me pegou foi quando o Cácio falou da própria carreira. Ele conta que passou dez, onze anos sem ganhar nada, da faixa-branca até virar professor, só batendo na trave. Quase desistiu. Só na preta virou multicampeão, chegou ao top 10 do mundo em duas categorias de peso e ao top 5 do Brasil.
“Eu tenho 11 anos tomando na cabeça e um ano ganhando. Valeu a pena.”
Cácio Zanon, no Pura Connection · 0:23:01
Quando começou a atender grandes campeões, ele diz que a síndrome do impostor bateu forte, porque nunca tinha sido campeão na federação em que eles lutavam. A saída foi tirar um tempo da vida e ir lutar. O Cácio também conta que se apoiou na fé. Num período curto, perdeu o pai e viu o filho passar 20 dias na UTI neonatal, no mesmo hospital. E lembra de um conselho de um amigo, pastor e psicanalista: se o outro assinou para lutar, dentro da regra, ele tinha permissão para apertar o adversário sem culpa.
Ele diz que o impostor ainda aparece, mas que aprendeu a lutar mesmo com essa voz na cabeça. E conta que, quando foi a Manaus, a família do Mica o levou ao culto, e que vê no atleta alguém que coloca Deus em primeiro lugar.
Por que o jiu-jitsu faz bem para a cabeça
Para o Cácio, o treino tem um efeito que remédio nenhum consegue. Quando alguém pega a montada em você, explica ele, o instinto de sobrevivência obriga a cabeça a ficar ali. Ele fala do tálamo, a parte do cérebro que filtra a atenção, e diz que estar presente é uma capacidade que se treina, igual pegada ou puxada na barra.
“Tu pode chegar muito ruim da cabeça, tu vai sair bem.”
Cácio Zanon, no Pura Connection · 0:27:15
A consequência prática, segundo ele, aparece no campeonato. A primeira luta, as quartas, a semi e a final acontecem no aqui e agora, e numa chave de eliminação simples quem perde a primeira vai para o chuveiro. O Cácio lembra que atletas bem preparados no físico e na técnica chegam iguais, e que o mental é o que quase ninguém treina.
“Duas pessoas no mesmo nível físico e técnico, o que vai ser a diferença? A mente.”
Cácio Zanon, no Pura Connection · 0:31:22
O apresentador lembrou que o mestre Orlando Cani insistia em respiração e meditação depois do treino. O Cácio contou que uma atleta campeã europeia faixa-preta que ele atende já chegou praticando a meditação do mestre Orlando, e que ele achou o método válido: é treino para o cérebro ficar no presente.
O inimigo no bolso
Boa parte da conversa foi sobre o celular. O Cácio montou o que chama de top cinco sabotadores da performance: rede social em primeiro, depois drogas, pornografia, ambientes tóxicos e relacionamentos negativos. Para o competidor, o conselho dele é direto.
“Por favor, não vai na rede social do seu adversário.”
Cácio Zanon, no Pura Connection · 0:16:41
A explicação é simples. No Instagram, diz ele, todo mundo é bravo: foto no ângulo certo, peito inchado depois de meia hora de treino. Se quer estudar o jogo do adversário, veja a luta no YouTube ou no FloGrappling e deixe a marca pessoal dele de lado. O Cácio diz que cada vez mais atende crianças de 4 a 12 anos, porque ali dá para prevenir antes que o estrago aconteça.
O que fica da entrevista, para mim, é a ideia de que o atleta forte também tem fraqueza. O Cácio repete isso sobre o Mica: se ele tem problemas e resolve, é justamente por isso que impressiona. E a receita que ele dá serve do faixa-branca ao campeão mundial: ir ao treino no dia ruim, olhar menos para a tela e treinar a cabeça como se treina o corpo.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.