Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Rafael Mendes, Guilherme Mendes, Tainan Dalpra
Rafael e Guilherme Mendes: da bicicleta em Rio Claro à AOJ na Califórnia
Os irmãos e o aluno Tainan Dalpra contam como aula particular virou passagem, sócio e academia.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 28 jul 2022 (2:42:45).
Antes de seis títulos mundiais, de título no ADCC e de uma das academias mais conhecidas do mundo, Rafael e Guilherme Mendes dividiam uma bicicleta só para atravessar Rio Claro, no interior de São Paulo, e dar aula particular a um empresário. Era esse o preço da passagem para o Mundial. Os irmãos contaram essa história no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu Cast, numa conversa de quase três horas que teve também o bicampeão mundial Tainan Dalpra, aluno deles desde os 13 anos.
Assisti à entrevista inteira e o que mais me pegou foi como os três falam de carreira com a cabeça de quem administra uma empresa. Tem título, tem rivalidade, tem a final contra o Cobrinha que muita gente viu em looping, e no meio disso tudo o assunto que mais volta é planejamento, foco e o que fazer com o jiu-jitsu depois das medalhas.
Aula particular em troca da passagem
Segundo o Guilherme, os dois eram faixas-roxas quando o Mundial mudou para os Estados Unidos. Não havia dinheiro para visto, passagem e hotel. Um aluno da academia, que tinha uma empresa, propôs o acordo: pagaria tudo se os irmãos dessem aula particular para ele durante um ano, num tatame pequeno dentro da própria empresa. Eles aceitaram na hora.
“A gente não tinha carro, a gente andava os dois numa bike só.”
Guilherme Mendes, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:07:16
O Guilherme contou que tinha uns 17 anos, que eles revezavam a pedalada, que o caminho era cheio de subida e terminava em estrada de terra. E a dívida continuou depois do campeonato: foi um ano inteiro de aulas, com o Mundial já disputado.
Foi nessa viagem que apareceu o homem que mudaria a vida deles. Os irmãos treinavam numa academia pequena na Califórnia e ficaram fazendo técnica depois que todo mundo tinha ido embora. Um frequentador, que tinha uma marca de roupas, pediu para alguém traduzir e disse que tinha gostado da ética de trabalho dos dois. Pelo que o Guilherme contou, a amizade cresceu e, ainda na faixa-roxa, ouviram dele que tinha o sonho de abrir uma academia perto de casa e que eles seriam as pessoas certas para isso.
A academia branca que virou referência
O apresentador perguntou de onde veio o visual da Art of Jiu-Jitsu, a academia toda branca, com quadros na parede, em Costa Mesa. O Guilherme foi direto: a ideia foi do sócio. Ele contou que o homem coleciona arte, vive em galerias e que os irmãos chegaram a morar um período com ele. Segundo o Guilherme, a técnica e a visão de jiu-jitsu são dos Mendes, mas o design veio dali.
“Eu quero que a academia seja um white canvas, uma tela em branco.”
Guilherme Mendes, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:20:22
O Guilherme lembrou que a academia abriu em 2012 e que muita coisa mudou em dez anos. O Rafael explicou a divisão de trabalho: o irmão sempre teve jeito de coach, desde a faixa-azul na academia do Ramon, em Rio Claro, que segundo ele trabalhava mais o psicológico do atleta do que a técnica. O Rafael competiu até 2016 e depois foi para a parte administrativa, o desenho dos projetos e a expansão. Ele ainda treina e dá aulas particulares, mas o foco é o negócio.
Sobre crescer, os dois disseram que recebem e-mail todo dia de gente querendo licenciar a marca. Recusam porque, segundo o Rafael, esse modelo cresce rápido demais e perde a cultura da casa. A escolha foi ir devagar e formar gente com os mesmos valores antes de abrir outra unidade. O Guilherme adiantou que já existe outro local encaminhado, mas que só vão anunciar quando estiver tudo certo.
Tainan, o menino de 13 anos que mostrou trabalho
O Tainan contou que era praticamente o único competidor da equipe dele em Florianópolis e viajava só com o pai, faixa-preta. No primeiro Pan Kids, viu a AOJ com 40 ou 50 crianças competindo e decidiu que queria fazer parte daquilo. Segundo ele, o que abriu a porta foi a postura.
“Acho que a minha maturidade brilhou mais. Eu tinha 13 anos, mas era bem maduro.”
Tainan Dalpra, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:41:04
O Guilherme confirmou, rindo, e contou uma história que disse nunca ter revelado. Na primeira visita, o Tainan lutou uma competição contra um aluno da academia e perdeu. Era um menino bom no meio de muitas crianças boas, e o que chamou a atenção do professor foi o caráter. Dias depois o menino disse que queria ficar, já com o aval do pai caso o professor concordasse. Como o pai não morava nos Estados Unidos, o Guilherme virou a principal referência adulta dele.
Hoje o Tainan dá aula para as turmas de 5 a 7 e de 8 a 13 anos, e a esposa dele cuida das crianças de 3 a 5. O Guilherme contou que, com 21 anos, o aluno já tem três apartamentos alugados. E fez as contas em voz alta: quando o Tainan parar de competir, essas crianças estarão chegando ao juvenil com ele no comando.
Por que pararam cedo e a final contra o Cobrinha
O Guilherme contou que foi campeão mundial no primeiro ano de faixa-preta e que o Rafael foi campeão do ADCC também no primeiro ano. Isso trouxe pressão cedo. Ele disse que queria parar ao ganhar o quarto título, número que a IBJJF exigia na época para o Hall da Fama, e parou com uns 27 anos. O Rafael parou com 26, depois de bater o recorde que buscava no peso pena.
O Rafael também respondeu a quem diz na internet que eles saíram por causa de doping. Segundo ele, os dois foram testados todos os anos em que competiram na faixa-preta nos Estados Unidos. Na versão dele, os dois tinham cumprido o objetivo e queriam aplicar o mesmo foco extremo ao negócio.
Aí veio o momento que o apresentador esperava: a final do Pan-Americano de 2012 contra o Cobrinha. O Rafael chamou de luta favorita. Contou que avisou o irmão antes que ia finalizar e que, quando o Cobrinha chegou à faixa-preta, os irmãos ainda eram faixas-azuis infantis na mesma equipe. Lembrou que entrou no berimbolo e já deixou o leg drag armado antes de terminar a raspagem.
“Quando eu chego ali por cima, a posição já tá encaixada.”
Rafael Mendes, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 2:14:46
O Cobrinha esticou o braço para se defender e o Rafael pegou a chave. Ele fez questão de elogiar a garra do adversário, que demorou para bater.
Tainan x Mica, Gordon x Galvão e o recado final
O Viktor Doria mandou uma pergunta: depois de dois Mundiais, qual o próximo objetivo? O Tainan respondeu que quer passar o recorde de Marcelo Garcia, dono de cinco títulos na categoria.
“Meu objetivo é ganhar seis, tentar passar o recorde da categoria.”
Tainan Dalpra, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 2:03:48
Ele explicou também por que prefere a IBJJF a eventos que pagam bolsa alta: usa o campeonato como vitrine para seminário, aula e conteúdo. Sobre a luta contra Micael Galvão, que o público pede, o Guilherme disse que ninguém está fugindo. Os caminhos ainda não se cruzaram porque os dois lutaram em categorias diferentes e o Mica anda focado no sem kimono. O Tainan elogiou o fato de o rival seguir treinando com o pai.
Sobre André Galvão contra Gordon Ryan no ADCC, o Guilherme colocou o americano como favorito no papel, pela idade, pelo tamanho e pela dedicação ao sem kimono, mas lembrou que o André sabe levar a luta para onde se sente à vontade.
No fim, cada um deixou um recado. O Rafael pediu olho aberto para todas as áreas do jiu-jitsu. O Guilherme pediu para ninguém se sabotar com objetivo que nem a própria pessoa acredita. O Tainan falou em profissionalismo. O que fica da conversa é essa ideia de que a medalha é a parte mais fácil e que o difícil vem depois dela.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.