Pura Connection · Ralph Gracie, Chance Glasco
Ralph Gracie e criador de Call of Duty falam de jiu-jitsu, rua e games
O Gracie lembra das brigas na Barra e do primeiro vale-tudo aos 17 anos; o americano conta como o tatame virou um jogo sobre academia no Brasil.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 26 out 2023 (1:12:45).
Quando o Ralph Gracie chegou no tatame pela primeira vez, ele já sabia brigar. Foi isso que mais me chamou atenção nessa conversa do Pura Connection, gravada em inglês, em que o neto de Carlos Gracie dividiu a mesa com o americano Chance Glasco, que trabalhou na franquia Call of Duty desde o primeiro jogo.
Parece uma dupla estranha, mas a conversa encaixa. Os dois falam de infância difícil, de resiliência, de por que tanto nerd de computador está entrando na academia hoje e de um jogo de videogame em que você administra uma academia de jiu-jitsu no Rio de Janeiro. Assisti tudo e separei o que interessa para quem é do jiu-jitsu.
Ralph Gracie: a rua antes da academia
O Ralph contou que a família se mudou para a Barra da Tijuca quando ele tinha uns 8 anos. Segundo ele, a Barra da época era cheia de terreno vazio, um lugar mais perigoso, para onde pouca gente queria se mudar. Na casa eram umas dez crianças, que se protegiam entre si, e a casa não tinha tranca. Tinha cachorro: ele falou em uns 20, entre eles mastins napolitanos enormes, e disse que teve gente que apanhou feio na porta de casa.
A parte da rua é a mais forte. Segundo o Ralph, o ponto final do ônibus ficava perto de onde eles moravam, e vinha gente tentar roubar a molecada o tempo todo, às vezes cinco contra dois, às vezes com faca pequena. Ele disse que brigava quase todo dia na praia, com amigos ou com desconhecidos. Quando a academia Gracie chegou à Barra, ele tinha uns 13 anos e começou a treinar. E aí a vantagem apareceu.
“Eu estava treinando a realidade, brigando na rua. Eles não tinham essa habilidade.”
Ralph Gracie, no Pura Connection · 0:15:17
O vale-tudo veio cedo. O Ralph contou que fez a primeira luta profissional com 17 anos. Perguntado se sentia o peso de ser um Gracie, ele cortou a ideia: disse que ninguém mandava, eles faziam porque gostavam. E explicou que ficar duro foi fácil para ele, porque o ambiente em que cresceu já era duro.
“Nunca foi uma responsabilidade ser Gracie. A gente fazia porque gostava.”
Ralph Gracie, no Pura Connection · 0:11:05
Ele ainda lembrou de uma briga num ônibus, contra quatro ou cinco caras. Segundo o Ralph, ele foi para cima com tanta energia que o grupo desistiu, talvez achando que ele estava armado. Não estava.
O nerd chegou ao tatame
O Ralph mora nos Estados Unidos há 28 anos, segundo ele mesmo, e disse que o perfil da academia dele mudou por completo nos últimos cinco ou seis anos. Antes eram os caras durões, os monstros. Hoje, ele calcula que uns 80% dos alunos são engenheiros, gente de computador, gente que joga videogame. Antigamente esse tipo de aluno ficava duas semanas e ia embora. Agora fica, porque, na visão dele, a pessoa percebe que o jiu-jitsu pede inteligência e que dá para sobreviver sem ser o mais forte.
O Chance puxou a comparação com programação: o código é cheio de "se isso, então aquilo", e o jiu-jitsu também, porque se o parceiro faz uma coisa você responde de um jeito, e se ele muda você muda junto. O Ralph completou dizendo que cria muita posição rolando, quando cai numa situação que nunca viu antes.
O Ralph também contou outra mudança: segundo ele, muita gente voltou a treinar na academia dele por medo da violência ligada às drogas e ao aumento de moradores de rua na Califórnia, algo que ele diz ter piorado nos últimos seis ou sete anos.
Chance Glasco: três anos até a faixa-azul
A história do Chance no jiu-jitsu começa no escritório da Infinity Ward, o estúdio de Call of Duty. Ele contou que começou a assistir Pride e Dream com um colega e ficou impressionado com lutadores de corpo normal vencendo gente maior e mais forte. Pouco depois, abriu uma academia a menos de um quilômetro da casa dele, com o Alberto Crane dando aula, que ele descreveu como um dos primeiros americanos a vir ao Brasil e ganhar medalha.
A primeira aula foi a fuga da montada, e ele gostou. Mas o próprio Chance se definiu como alguém sem ligação nenhuma entre cabeça e corpo, e disse que levou uns três anos para pegar a faixa-azul. Depois ficou anos quase sem treinar, o que ele chamou de faixa-azul eterna.
Quando se mudou para o Rio, voltou a treinar na Nova União. Durou três semanas: segundo ele, um faixa-azul de 15 anos aplicou uma finalização no ombro tão rápido que ele não conseguiu bater a tempo, e o ombro ficou ruim por quase um ano. A lição que ele tirou é boa para qualquer iniciante: se puder escolher entre rolar com um faixa-preta de muitos anos ou com um faixa-azul de 15 anos querendo se provar, fique com o faixa-preta.
Ele também contou o único caso em que usou o jiu-jitsu na rua, em Hollywood. Uma mulher, aparentemente fora de si, partiu para cima do grupo dele tentando arranhar os olhos. Ele fez um quadril com quadril, virou a mulher no ar, segurou na posição norte-sul até o amigo chegar e foi embora sem machucar ninguém.
“Muita gente vai descobrir que o treino de jiu-jitsu ajuda mais a outra pessoa do que a você.”
Chance Glasco, no Pura Connection · 1:05:39
Um jogo sobre academia de jiu-jitsu no Rio
O motivo da visita do Chance é o Martial Arts Tycoon: Brazil, um jogo de administração em que você toca uma academia de jiu-jitsu no Rio. Ele explicou que um jogo em que você controla a luta botão por botão nunca vai funcionar para o jiu-jitsu, e deu o exemplo dos games de UFC, em que ele prefere trocar soco a lutar no chão.
“Um jogo de jiu-jitsu nunca vai ser divertido se você tentar controlar a luta.”
Chance Glasco, no Pura Connection · 0:50:16
A ideia dele é outra. Cada aluno chega com força, agilidade, resistência e uma história de vida, e essa história gera traços de personalidade. Um aluno pode ter o traço de valentão: é forte, pode virar campeão, mas tem mais chance de machucar os colegas. O trabalho do jogador é tirar esse traço ruim e colocar traços bons. Tem até missão para trazer mulheres para a academia, e o Chance listou o que ajuda: academia limpa, sem cheiro ruim, professora mulher e outras alunas treinando. Qualquer dono de academia vai se reconhecer.
O jogo começa com tatame na laje, pagando o vizinho para usar o espaço, e vai subindo de bairro conforme a academia cresce. O Chance ligou isso ao que viu de perto: ele organizou uma arrecadação que comprou 64 quimonos para quatro projetos sociais, com mais uns 12 doados pela Shoyoroll, e visitou um deles no Dona Marta, onde a turma treina no térreo da casa de um morador, com tatame de EVA e sem luz.
O que fica da conversa
O Ralph fechou o assunto dos projetos sociais com uma ideia que eu ouço muito no meio e que ele defende com números. Ele contou que tem um projeto na Mongólia com cerca de 150 crianças, num prédio sem água, onde a molecada leva galão de casa para dar descarga. E disse que só em Abu Dhabi são mais de 800 brasileiros vivendo de dar aula de jiu-jitsu.
“Se você aprender jiu-jitsu de verdade, não existe lugar no mundo onde você não consiga um trabalho.”
Ralph Gracie, no Pura Connection · 0:57:14
Os dois concordaram num ponto que qualquer praticante sente: no treino você não consegue pensar em problema nenhum, porque tem alguém tentando te finalizar. O Ralph comparou com pular em água gelada. É uma conversa leve, cheia de história de videogame, mas que mostra dois caminhos bem diferentes que chegaram no mesmo tatame: um aprendeu a brigar na rua da Barra, o outro levou três anos para pegar a azul, e os dois saíram melhores.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.