Pura Connection · Raphael Abi-Rihan
Raphael Abi-Rihan revela o segredo que encheu sua academia de jiu-jitsu
Faixa-preta da Carlson Gracie fala da separação de programas, da taparia e do título brasileiro que só veio na 11ª tentativa.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 12 mai 2025 (1:36:33).
Raphael Abi-Rihan tem uma academia com 430 alunos no Clube Monte Líbano, no Leblon, 44 faixas-pretas formados por ele e mais 16 de fora que ele certificou. Quando o André, do Pura Connection, perguntou qual era o segredo, a resposta veio rápida: separar os programas. Criança de 2 anos, adolescente, iniciante, competidor, mulher. Cada um no seu lugar.
“Separação de programas, eu acho que seria o pulo do gato.”
Raphael Abi-Rihan, no Pura Connection · 0:32:26
Assisti à conversa inteira e, como professor, anotei muita coisa. O Abi-Rihan fala rápido, fala com paixão e, no meio de tudo, conta uma trajetória de atleta que está longe de ser de astro: ele foi campeão brasileiro faixa-preta na 11ª tentativa.
Da Carlson Gracie ao próprio dojô
Segundo ele, a história começou em 1988, aos 8 anos, com o primeiro professor, Kiko Veloso, na Carlson Gracie. Ele ficou com Kiko até os 18 anos. Naquela época, contou, o jiu-jitsu de criança era outro: o professor botava luva de boxe num aluno e mandava o outro derrubar. Ele diz que foi maravilhoso, mas que hoje filtraria.
Depois veio o mestre que o formou como competidor, numa fase que ele chama de forjada no aço. E veio também um período curto sendo treinado pelo próprio Carlson Gracie. Abi-Rihan lembrou o racha da Carlson Gracie, quando, nas palavras dele, praticamente a equipe inteira virou Brasília Top Team. Ele era faixa-marrom e ficou.
"Todo mundo fala que não ficou ninguém na Carlson Gracie. Eu fui um pouco desse ninguém", contou. Ele e outros retomaram o trabalho com Carlson, que vinha para as lutas sem kimono e de vale-tudo. Hoje ele não é associado à equipe e não tem o buldogue na academia, mas diz que é Carlson Gracie de alma e coração e que nunca deixou de competir por ela.
Para ele, o Carlson foi um divisor de águas, porque trouxe gente de fora da família Gracie e treinou essa gente para vencer. Abi-Rihan pegou a faixa-preta em 2002 e abriu o espaço dele em 2004, dando aula para meia dúzia de filhos de diretoras do clube.
“Hoje eu tenho mais tempo de vida sendo faixa-preta do que não sendo faixa-preta.”
Raphael Abi-Rihan, no Pura Connection · 0:17:39
O pulo do gato: cada aluno no seu programa
A virada, segundo ele, veio na tentativa e erro. No começo ele se sentia um casca-grossa e queria fazer todo mundo igual a ele, com equipe de competição. Aos poucos percebeu que podia atender outro público. Aí precisou, nas palavras dele, colocar o ego no bolso: tinha aluno melhor que ele para dar aula para criança e mulher melhor que ele para ensinar outras mulheres.
Hoje as crianças são divididas em turmas de 2 e 3 anos, 4 a 6, 7 a 9 e 10 a 14. O programa dos menores foi desenvolvido pela mestra Luciana Neder. Com 15 anos o aluno vai para os adultos, que têm turma de iniciante, turmas regulares (o que ele chama de lifestyle), turma avançada e uma turma de competidores com 12 ou 13 pessoas. A novidade é uma turma exclusiva para mulheres, criada três meses antes da gravação, que trouxe uma entrada grande de alunas.
Ele contou que chegou a dar 13 e 14 aulas por dia. Hoje a academia tem entre 70 e 80 aulas por semana e ele dá poucas. O foco agora é formar professores, muitos deles garotos que vêm da comunidade. Um deles, o Diego, dá 80 aulas por mês. Para quem acusa de trabalho de graça, ele responde:
“Você não tá trabalhando de graça para mim. Eu tô te dando uma faculdade de graça.”
Raphael Abi-Rihan, no Pura Connection · 1:00:01
A taparia com critério
O assunto mais delicado da conversa foi a taparia, o treino de tapa na cara que marcou gerações. Abi-Rihan não fugiu.
“Não tem como eu ser hipócrita. Eu adoro taparia.”
Raphael Abi-Rihan, no Pura Connection · 0:27:45
Mas ele explicou o critério: é feita de portas fechadas, entre pessoas que se conhecem há mais de 15 anos e já passaram por coisa mais pesada. Não é rotina. Segundo ele, quando o aluno chega à faixa-preta na academia, fica ansioso por aquele momento. Ele também gosta de ensinar chave de calcanhar para quem não quer competir e contou que fez na academia o curso de Álvaro Barreto sobre a defesa pessoal das 36 aulas da Academia Gracie.
Ele resumiu o raciocínio com uma frase que ouviu de alguém e que diz ter adorado: o jiu-jitsu é um errado que deu certo. Para ele, o ambiente foi hostil porque precisou ser, e hoje ele quer provocar tempos difíceis de forma controlada, para o médico, o porteiro e o entregador de aplicativo.
Campeão brasileiro na 11ª tentativa
A parte da carreira de atleta é a que mais me prendeu. Ele contou que começou a lutar o Brasileiro na faixa-azul, perdeu dois anos seguidos, perdeu na roxa, perdeu na marrom e só na sexta tentativa pegou a primeira medalha, uma prata. Naquele dia fez cinco lutas: pegou Chico Salgado nas quartas, Braulio Estima na semifinal e Felipe Simão na final. Todos, segundo ele, viraram amigos.
Na faixa-preta, perdeu em 2003 e 2004, ficou em terceiro em 2005 e 2006 e perdeu de novo em 2007. Depois teve uma hérnia grave na cervical e ficou um ano e meio parado. Em 2009, aos 29 anos, foi campeão brasileiro. Antes disso tinha sido campeão europeu, em 2007.
“Eu fui ser campeão brasileiro na minha 11ª tentativa.”
Raphael Abi-Rihan, no Pura Connection · 1:23:25
Ele contou que ficou no adulto até 2012, quando começou a pegar a geração que chegava, como Bernardo Faria, Rômulo Barral e Guto Campos, e percebeu que era hora de ir para o master. Foi campeão mundial master aos 35 anos, em Las Vegas. Diz que nunca foi astro e que não se frustra por não ter ganhado o Mundial e o Pan no adulto.
Jiu-jitsu para a vida toda
Hoje ele compete uma ou duas vezes por ano e passa dez meses no que chama de jiu-jitsu lifestyle. Ele disse que os adversários mais duros no master são os caras que começaram depois dos 30 e chegaram à preta atualizados. E que o master tem uma vantagem: ganhando ou perdendo, a família e os alunos estão lá no dia seguinte.
No fim, falou da confiança que existe no tatame. Segundo ele, você entrega o corpo para um desconhecido capaz de te estrangular, e por isso os laços do jiu-jitsu duram a vida inteira. Ele citou John Danaher, que, segundo contou, ensina a soltar o golpe assim que ele encaixa.
O que fica da conversa é um professor que se orgulha do passado casca-grossa e ainda assim reorganizou a academia inteira para receber gente de 2 a 80 anos. Para quem pensa em viver de dar aula, o recado dele é claro: separe os programas e tenha horário disponível, das 5 da manhã às 11 da noite se for preciso.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.