Pura Connection · Rayron Gracie
Rayron Gracie conta por que deixou a competição e aposta na defesa pessoal
O faixa-preta da família Gracie diz que o foco em medalhas afasta quem mais precisa do jiu-jitsu e conta o projeto para levar a arte às escolas e às Forças Armadas.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 7 abr 2025 (1:09:08).
O Rayron Gracie tem acesso a um privilégio que quase nenhum atleta tem. Ele mesmo lembrou que pode treinar com o Roger, o Renzo, a Kyra, o Royler e o Rickson, e que tem as portas abertas em qualquer academia do mundo. Justamente por isso, contou no Pura Connection, decidiu parar de dedicar a vida a competir.
“Chego na final do Mundial e luto contra um rapaz que tem que trabalhar para sustentar a família e treina quando dá. Isso para mim não é grandeza.”
Rayron Gracie, no Pura Connection · 0:28:44
Assisti à conversa e achei corajosa a franqueza dele. O Rayron venceu muito, e fala sem desprezar o que viveu. Mas ele diz que hoje tem mais a oferecer do que medalhas, e passou a hora inteira explicando o que isso significa na prática.
Gostava de ganhar, nunca de competir
A confissão mais curiosa veio logo no começo. O Rayron contou que competiu porque gostava da sensação de vencer, aquele êxtase, e que perder era horrível. Competir em si, disse, nunca foi algo de que ele gostasse. Para ele, campeonato é uma das formas de provar competência, mas não a única nem a necessária.
“Se a gente pensa da mesma maneira que pensava cinco anos atrás, desperdiçou cinco anos da vida.”
Rayron Gracie, no Pura Connection · 0:06:21
Ele admitiu que talvez tenha dito o contrário na última vez que esteve no canal. Mudou, e acha que isso é bom sinal.
A unha cortada que valeu mais que um título
A história que o fez mudar de olhar, segundo o Rayron, veio de um professor chamado Guilherme, que tem academia em Boston. Numa aula infantil, ele cortou as unhas de um menino que estava com elas grandes demais para treinar. Na saída, a mãe caiu no choro. O professor achou que tinha feito algo errado e foi pedir desculpas, até ouvir que o filho era autista e nunca tinha deixado nem a própria mãe cortar suas unhas.
Para o Rayron, aquilo vale muito mais do que transformar um garoto já forte e ágil em campeão. Ele contou também o caso de um aluno de Nova York, policial recém-aposentado, que se atracou com um suspeito numa abordagem e escapou por pouco de um tiro, porque só treinava jiu-jitsu esportivo. Segundo o Rayron, o aluno ficou deprimido depois do episódio e foi o jiu-jitsu que o trouxe de volta à vida social.
A defesa pessoal que ficou para trás
O centro da conversa é a crítica ao jiu-jitsu que vive só do campeonato. O Rayron diz que nunca viu ninguém entrar numa academia querendo ser competidor. As pessoas chegam para aprender a se defender, perder peso e ganhar confiança. E, anos depois, saem com a orelha estourada e a carteirinha da IBJJF, sem saber se defender de um soco.
Ele usou um exemplo que qualquer professor entende. A raspagem de tesourinha é das primeiras que se ensina porque funciona perfeitamente contra quem cai por cima tentando socar e enforcar, que é a reação de alguém destreinado numa briga. Quando o parceiro aprende a sentar na base, a tesourinha para de funcionar e começa um buraco sem fundo de adaptações, como a De La Riva e as guardas de lapela. Por isso, segundo ele, quase nenhum faixa-preta usa a tesourinha: a gente só treina com quem é treinado.
“Um cara na rua não vai sentar posturado no calcanhar na tua guarda. Ele vai tentar te socar. Vamos treinar isso.”
Rayron Gracie, no Pura Connection · 0:54:47
O Rayron lembrou que o Rickson costuma dizer que o esporte coloca o jiu-jitsu dentro de um quadrado. Na visão dele, quando a defesa pessoal volta, o esporte passa a ser tratado como o jogo divertido que é, e deixa de afastar os mais fracos, que são justamente os que mais precisam da arte. Ele ainda contou que, semanas antes da gravação, esteve com o Rickson perguntando como impactar melhor a vida das crianças do projeto social, e recebeu um exercício de sensibilidade encostado na parede.
O Rayron citou ainda os irmãos Valente, que tiveram aula com o Hélio Gracie e se dedicaram à defesa pessoal, como uma visita obrigatória para qualquer professor. E disse que não se sentiria ético pendurando uma placa de defesa pessoal na porta da academia se só ensinasse o esportivo.
O exemplo que vem dos Emirados
O modelo que o Rayron quer trazer está nos Emirados Árabes. Segundo ele, lá os militares não sobem de patente sem graduação no jiu-jitsu, e nas escolas há sala de jiu-jitsu no mesmo corredor de matemática e ciências, com professores brasileiros dando nota. Ele contou que visitou uma dessas escolas e que a nota não se baseia só em saber dar um armlock.
A conta que ele faz para defender a mudança é direta. Segundo o Rayron, o dinheiro para levar duas crianças a dois campeonatos internacionais paga de um ano e meio a dois anos de aula de inglês semanal para 30 ou 40 crianças. E ele diz que conhece donos de academia no mundo todo cuja maior falta é de instrutor qualificado, com professores em Nova York ganhando mais de 15 mil dólares por mês.
O que ele quer construir
Daí nasceu o projeto que ele chama de VOA, Victory of Art. São três frentes: jiu-jitsu nas escolas públicas, jiu-jitsu nas Forças Armadas, com projetos sociais dentro das bases, e uma universidade gratuita para formar professores com defesa pessoal, inglês, oratória, educação financeira e aulas para crianças com limitações. Nada focado em campeonato.
Na despedida, o Rayron resumiu tudo numa frase. Disse ter certeza de que, no fim da vida, não vai lembrar quantos títulos ganhou nem quanto dinheiro fez, e sim de quantas pessoas ajudou. Vindo de alguém com o sobrenome e as vitórias dele, é uma frase que pesa.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.