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Pura Connection · Ricardo Americano

Ricardo Americano, o judoca que virou faixa-preta de jiu-jitsu em três anos

Faixa-coral, ex-modelo e empresário, ele conta como levou a queda do judô para os tatames dos anos 80 e por que se arrepende de não ter ido mais longe.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 4 jul 2022 (1:14:12).

Ricardo Americano abriu a conversa no Pura Connection com uma confissão que, segundo ele, nunca tinha feito a ninguém. Faixa-coral de jiu-jitsu, faixa-preta de judô, ex-modelo e empresário, ele disse que se arrepende de não ter se dedicado mais ao jiu-jitsu. Ele teve uma história forte nos tatames dos anos 80, competiu no adulto até perto dos 40 anos, mas a moda o levou para o mundo.

“Eu me arrependo de não ter me dedicado mais ao jiu-jitsu.”

Ricardo Americano, no Pura Connection · 0:01:48

Assisti à entrevista e o que mais me chamou atenção foi a mistura de judô e jiu-jitsu que ele levou para o tatame numa época em que as duas coisas quase não se falavam. E a energia de um cara de 60 anos que, pouco tempo antes, voltou a lutar um Mundial e saiu de lá com a costela quebrada e uma medalha de prata.

Do judô para o jiu-jitsu

Segundo o Ricardo, o judô entrou na vida dele porque ele e os irmãos eram terríveis. Ele contou que foi expulso de quatro colégios e que o pai, sem saber mais o que fazer, o colocou no judô. Treinou numa academia pequena de tradição japonesa, que ele chama de santuário, e o judô começou a moldar o menino. Ele morava em Laranjeiras e era vizinho do Marco Ruas.

Quando entrou numa academia de jiu-jitsu, já era medalhista de bronze no Campeonato Brasileiro de judô e tinha sido convidado a frequentar a seleção adulta. Ele se apresenta como o primeiro judoca de competição de alto nível do Rio a fazer jiu-jitsu. E contou o choque: no judô, com educação japonesa, ele era um lorde; no jiu-jitsu ninguém parava, e todo mundo queria apertar o pescoço dele. Gostou tanto que largou o resto.

Ele disse que entrou em todos os campeonatos de 1983 a 1986 e pegou a faixa-preta em três anos. Na faixa-azul já lutava o absoluto. O diferencial, segundo ele, era o gás e a queda: pegava um cara de 100 quilos de guarda aberta, colocava a mão na nuca e o jogava sentado. Tinha experiência de competição desde criança e sabia a hora de acelerar.

“Eu peguei a faixa-preta em três anos.”

Ricardo Americano, no Pura Connection · 0:18:01

O Ricardo acredita que inspirou muita gente a treinar em pé nos anos 80. Para ele, judô e jiu-jitsu são a mesma arte com regras diferentes: um foca em derrubar, o outro em finalizar. Juntar os dois, diz ele, é difícil de parar. Ele contou que ficou nove anos invicto no jiu-jitsu e que as derrotas vieram já mais velho, quando os mundiais dos anos 90 viraram coisa de atleta profissional e ele trabalhava com moda.

O lifestyle carioca e a resenha

Uma ideia que ele repetiu várias vezes: o sucesso do jiu-jitsu brasileiro lá fora vem do jeito carioca de viver. Na geração dele, quem treinava também pegava onda no Arpoador, voava de asa-delta, jogava tênis. Ele próprio dava aula de tênis e surfava. E o jiu-jitsu, segundo ele, juntou turmas que antes não se misturavam.

“O sucesso do jiu-jitsu brasileiro no mundo é o lifestyle do carioca.”

Ricardo Americano, no Pura Connection · 0:06:32

Ele também gosta de dizer que a academia nivela todo mundo. Lá dentro, o filho de família rica apanha do garoto que vende mate na praia, e os dois aprendem com isso. A resenha depois do treino, com histórias de casamento, dinheiro, falência e viagem, faz o resto. Ele brincou que o jiu-jitsu rouba muito cliente dos psicólogos.

Ele contou que hoje abraça antigos rivais dos anos 80, gente com quem teve porradas incríveis no treino, e que campeões mundiais já vieram dizer que aprenderam muito apanhando dele.

Rickson, a respiração e o yoga

Sobre o Rickson Gracie, o Ricardo contou que, nos anos 80, ele estava um passo à frente de todo mundo porque trouxe a respiração para o jiu-jitsu, ligada ao yoga. O Ricardo fez yoga naquela época e diz que isso salvou a vida dele. Para ele, saber respirar é o que deixa o lutador sobreviver por baixo até o outro cansar de apertar.

Ele também contou que chegou a agenciar atletas numa empresa de imagem e que tentou levar para São Paulo a última luta do Rickson no Brasil, mas o valor subia a cada conversa e o negócio não saiu.

Mundial com duas costelas quebradas

A história mais forte da entrevista é recente. Segundo o Ricardo, depois de 20 anos sem competir, ele voltou para o Mundial. Ganhou a primeira luta, quebrou uma costela, ganhou a segunda com duas costelas quebradas e chegou à final contra um bicampeão. Estava vencendo. Podia segurar, mas quis finalizar, foi atacar e as costelas travaram. Terminou vice-campeão.

Ele contou que o campeão olhou para ele no fim e disse que podia se aposentar, e depois que tinha dado sorte. O Ricardo respondeu que a sorte tinha sido dele. E tudo isso, segundo ele, depois de virar diabético dependente de insulina, o que mudou muito o físico dele.

Nos Estados Unidos, onde passou dois anos, ele treinou com o Rilion Gracie, que ele contou ter lhe dado a faixa-coral, e depois na academia do Cyborg, perto de casa. O ambiente competitivo de lá, disse, lembrou a Figueiredo Magalhães e o começo da Barra Gracie, quando o tatame era de lona e 20 ou 30 atletas de ponta se matavam no treino. Ele elogiou o trabalho do Victor Dória, que agencia atletas de jiu-jitsu, como na carreira do Mica Galvão, ao lado do pai do atleta.

Faixa-coral aprendendo a jogar por baixo

O que eu mais gostei no fim da conversa foi a humildade dele no treino. Depois de uma vida jogando por cima, agora, faixa-coral, ele está aprendendo a jogar por baixo e sai feliz do treino apanhando.

“Agora eu tô aprendendo, faixa-coral, a jogar por baixo, porque eu sempre batia nos outros. Agora os outros batem em mim.”

Ricardo Americano, no Pura Connection · 1:05:10

Ele fechou falando de amizade. Contou de uma pesquisa de Harvard que acompanha pessoas da infância até a velhice e diz que, no fim da vida, o que elas lembram são os momentos com os amigos. Para o Ricardo, o jiu-jitsu é isso: os parceiros de academia que ele vai chamar de irmão pelo resto da vida.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.