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Pura Connection · Rodrigo Cavaca

Rodrigo Cavaca largou os EUA para viver só de jiu-jitsu no Brasil

Campeão mundial em 2010, ele conta por que voltou dos Estados Unidos, por que é contra premiação em dinheiro e como gradua crianças por valores.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 18 set 2023 (1:29:37).

Em 2010, logo depois de ganhar o Mundial de faixa-preta, Rodrigo Cavaca recebeu a proposta que muito lutador sonha: morar nos Estados Unidos, com visto de trabalho, carro zero, salário, hotel cinco estrelas nas competições e duas academias de 400 alunos para comandar. Ele foi. E voltou. Segundo ele, cada aluno que parava de treinar na academia de Santos, que ficou para trás, doía.

Assisti à conversa dele no Pura Connection e o Cavaca que aparece ali é bem diferente do competidor que eu via nos campeonatos. Fala de gestão, de formar gente, de criança atípica, de escola. E defende uma opinião que vai contra quase toda a comunidade: ele é contra pagar premiação em dinheiro nos campeonatos.

“Eu decidi voltar para o Brasil com propósito. Eu vou aprender a viver do jiu-jitsu, e a partir do momento que eu aprender, vou começar a ensinar as pessoas.”

Rodrigo Cavaca, no Pura Connection · 1:09:40

Dez anos para o primeiro Mundial

O Cavaca conta que jogou futebol quando garoto, se frustrou e parou. Com 19 para 20 anos, cursando arquitetura, chegou ao jiu-jitsu. Era briguento e achou que ia virar brigador. Aconteceu o contrário: ficou mais calmo, mais seguro e mais consciente do que fazia.

Ele diz que detesta perder até hoje, e que a maior lição que o jiu-jitsu deu foi justamente aprender a perder. Por uns cinco anos na faixa-preta, colecionou vice-campeonato mundial, terceiro lugar no Mundial e vice no Brasileiro. Entrava no YouTube e só via vídeo dele perdendo.

Quando finalmente ganhou o Mundial, em 2010, dez anos depois de começar, a frustração mudou de lado. Ele conta que se achou o melhor do mundo, muito mais do que era, e tomou um tombo gigante. Hoje tem orgulho das derrotas: lutou com Roger Gracie e foi finalizado quatro vezes, enfrentou Cyborg, André Galvão e outros caras que admirava.

“Eu fui finalizado quatro vezes. Mas quem é o Roger Gracie?”

Rodrigo Cavaca, no Pura Connection · 0:42:58

Pertinho de se aposentar, ele conta que sentiu medo. Percebia que algumas pessoas e oportunidades estavam ao lado dele por ser campeão. Foi olhando para mestres que são mais admirados hoje do que quando lutavam que ele chegou a uma frase que repete até hoje: medalha no peito de quem não tem valor não vale nada.

A ida para a Flórida e a volta

O convite veio de um dono de equipe em Jupiter, na Flórida, que conheceu o trabalho do Cavaca num seminário e gostou do que ele fazia em Santos com as filiais da CheckMat. O Cavaca levou dois alunos, um deles Buchecha, ainda faixa-marrom. Virou head coach da parte de chão, numa estrutura que tinha lutadores do UFC como Edson Barboza e Marlon Moraes.

Em Santos ele tinha deixado uma academia simples, de tatame de EVA, com uns 200 alunos. De longe, via a turma se desfazer, porque a maior referência tinha ido embora. Ele conta que achava que tinha deixado o nada e ido para o tudo, e descobriu que era o contrário. Voltou para recomeçar do zero, com a meta de viver só do jiu-jitsu no Brasil e depois ensinar outros professores a fazer o mesmo.

Faz isso há quase quatro anos no Instagram, de graça. Responde perguntas todos os dias, passa duas a três horas por dia nas mensagens diretas e às vezes abre uma videochamada na hora com o professor que pediu ajuda. Diz que não teme concorrência, porque o público dele são as pessoas que nunca pensaram em treinar.

Contra premiação, a favor da IBJJF

Aqui a conversa fica polêmica, e o próprio Cavaca avisa. Ele diz que nunca recebeu um real para lutar nem por conquista nenhuma. Os patrocinadores pagavam preparo, viagem e comida, o suficiente para chegar bem. O dinheiro vinha de outro lugar: usar o nome das medalhas para vender seminário, aula particular, uniforme e trazer aluno para a academia.

Para ele, foi essa falta de prêmio que o obrigou a aprender a ser professor, empresário e líder enquanto ainda competia. Se a IBJJF tivesse pago bolsas altas, talvez tivesse se acomodado. Por isso se diz o maior apoiador da federação, mesmo levando crítica por isso. Ele ainda compara com o judô olímpico, em que o atleta ganha salário e, segundo ele, sobram poucas academias depois.

“A vida de atleta tem fim. A vida de empresário, de professor, de líder, é para sempre.”

Rodrigo Cavaca, no Pura Connection · 1:04:29

O argumento final dele é de conta simples: o prêmio de um GP vai para uma pessoa só entre dezenas da chave, e o Buchecha, segundo o Cavaca, faz o mesmo valor em dois seminários depois que parou de lutar.

Faixa por adesivo e prova de história

Hoje o Cavaca chama o lugar dele de escola, porque academia de luta assusta quem nunca lutou. Com as crianças, usa um aplicativo igual ao da Alliance, que ele diz ser muito parecido com o método de Fábio Gurgel: a cada 15 aulas, um grau. Mas só troca de faixa quem também completa um tabuleiro de 24 adesivos de valores.

Toda segunda, pais e professores sentam com as crianças. O pai é perguntado primeiro se o filho cumpriu as tarefas em casa, e depois o professor diz como foi no tatame. Só com os dois positivos a criança ganha o adesivo. Na matrícula, uma psicóloga faz entrevista e monta um relatório que é revisto com os pais em três meses. Para os adultos, o exame de faixa tem prova escrita sobre a história do jiu-jitsu brasileiro e da equipe.

Ele contou também a história do Lucas, um menino atípico que chegou com 110 quilos e sem encostar em ninguém. Hoje está com 90, abraça, passa guarda e monta. Foi por causa dele que o Cavaca começou a trabalhar com crianças atípicas.

O que fica é um ex-competidor que só dá aula particular, forma os próprios professores desde a faixa-azul e promete sociedade a quem der resultado. São 22 pessoas vivendo só de jiu-jitsu nas duas unidades dele, abertas das 5h30 às 21h30. Depois de ter voltado dos Estados Unidos, o plano do Cavaca é abrir mais quatro unidades próprias em São Paulo.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.