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Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Rodrigo Cavaca

Rodrigo Cavaca revela a estratégia que fez Buchecha vencer Rodolfo em 2012

O técnico conta como a reposição de guarda da final do absoluto foi treinada antes e por que, para ele, 80% da luta é cabeça.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 10 ago 2021 (1:22:03).

A final do absoluto do Mundial de 2012 entre Buchecha e Rodolfo Vieira é daquelas lutas que todo iniciante acaba assistindo. O lance em que o Buchecha, esmagado na meia-guarda, explode e recupera a guarda virou posição copiada no mundo inteiro. No B-Cast, programa do Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, o professor Rodrigo Cavaca contou que aquilo foi treinado antes, e que ele estava sentado bem na frente do aluno quando a posição aconteceu.

Assisti à conversa e o Cavaca fala de estratégia com gosto de quem passou a vida estudando luta dos outros. Tem também cirurgia, lesão, briga com professor antigo e uma lista curta de referências. Vou pelo que mais rendeu.

O plano para sair da meia-guarda do Rodolfo

Segundo o Cavaca, o Rodolfo chegava na meia-guarda de todo mundo. Tentar impedir isso seria, nas palavras dele, egocentrismo, porque tecnicamente o Rodolfo estava melhor naquela época. A saída foi preparar o que fazer depois que ele chegasse.

O Cavaca descreveu a pegada: em vez de segurar na boca da calça, o Buchecha pegava na lateral do joelho do Rodolfo, o que mantinha a base dele no chão. Quando o Rodolfo antecipasse a montada, com toda a atenção na perna que ia montar, o Buchecha tinha uma única chance de explodir e jogar a outra perna, a que estava de gancho, para repor a guarda.

“Na hora que ele foi esmagado, eu tava na frente dele.”

Rodrigo Cavaca, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 1:05:31

O Cavaca contou que estava na cadeira do corner, ao lado da mesa do placar. Quando o rosto do Buchecha foi empurrado para o lado, deu de cara com o professor, e o único grito que deu tempo foi para usar a outra perna. Ele brincou que, se o aluno tivesse sido esmagado para o outro lado, nem voz teria sobrado.

Um ano de treino para virar o Buchecha

Antes da tática, o Cavaca contou a história do atleta. Segundo ele, o Buchecha tem cara de playboy mas veio de família com dificuldade: pedalava 10 quilômetros até a academia, voltava para almoçar e ia de novo, uns 40 quilômetros por dia durante anos. Quando o pneu furava, empurrava a bicicleta debaixo de chuva. O professor disse que chegou a proibir o aluno de treinar para ele não se machucar.

O começo na faixa-preta foi duro. O Cavaca lembrou que o Buchecha perdeu a estreia no pesado nas vantagens e foi finalizado nas quartas do absoluto. Em 2011, o professor disse na cara dele que ele ainda não estava pronto para ser campeão mundial. No ano anterior à final famosa, o Rodolfo tinha finalizado o Buchecha com uma chave de braço rápida.

“Eu espancava ele todos os dias e eu tava em alto nível, só que eu não era metade do que ele ia ser.”

Rodrigo Cavaca, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:35:06

O Cavaca contou que o trabalho de força explosiva transformou o corpo do aluno de um ano para o outro, e que no ano seguinte quem passou a apanhar no treino foi ele. Antes da final, disse ao Buchecha que agora sim ele estava pronto, e não só para a categoria. A outra parte foi a cabeça. O Buchecha era bonzinho demais, abraçava todo mundo no ginásio. O professor mandou parar: se ganhar, cumprimenta e sai para jantar com o adversário. Se perder, nem olha na cara dele e vai treinar.

Oitenta por cento é mente

É a tese que o Cavaca repete para os atletas: 80% é mente e 20% é todo o resto, treino, dieta, preparação física, fisioterapia. Segundo ele, numa final de Mundial os dois finalistas sabem jiu-jitsu, e o ajuste fino está fora do tatame, em como o atleta se comporta como filho, marido, pai e amigo. Ele deu um exemplo concreto: não adianta treinar dez anos e brigar feio em casa na semana do campeonato.

Para ele, o exemplo máximo dessa cabeça é Roger Gracie, que ele chamou de máquina. Contou que lutou com o Roger cinco vezes e que nunca viu o rosto dele mudar, nem tomando ponto, nem apanhando no MMA contra Kevin Randleman. Segundo o Cavaca, o Roger aprendeu a treinar sozinho na Inglaterra contra alunos menos graduados, e isso o acostumou a lutar fora da zona de conforto. Ele o colocou como o maior pelo conjunto da obra.

A mesma lógica de estudar o adversário apareceu em outra luta que ele contou: um aluno chamado Felipe contra Nicholas Meregali, dono de uma De La Riva temida. A regra era derrubar e não soltar a boca da calça da mão direita, nem se caísse sentado. Segundo o Cavaca, o Felipe abriu 6 a 0 com três quedas e só perdeu a posição no único momento em que largou a pegada.

O hábito vem de longe. O Cavaca contou que, de faixa-azul, comprava a passagem de ônibus de volta para o domingo à noite porque só saía do ginásio depois da última luta do absoluto faixa-preta.

Joelho, coluna e a regra nova da aula

O Cavaca pendurou a faixa de competidor em 2019, e disse que deveria ter parado em 2016. A conta chegou no corpo: cinco cirurgias de ligamento cruzado no joelho, dois anos parado e cinco hérnias de disco. Ele disse que não se arrepende e que no alto rendimento a lesão faz parte do preço escolhido pelo atleta. Para o aluno comum, pensa o contrário.

“O judô é lesivo, ainda mais com pouco tempo de prática.”

Rodrigo Cavaca, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:08:17

Por isso criou uma regra na aula comercial da escola dele: todo mundo começa de joelhos, um puxa para a guarda, o graduado escolhe quem fica por cima. Rasteira pelas costas está proibida. Na visão dele, a constância do aluno vale mais do que qualquer queda.

Sobre ser professor, ele contou uma mágoa. Da faixa-roxa até a preta, segundo ele, o próprio professor passou a ter inveja quando ele começou a ganhar e a aparecer, e deixou de dar atenção. Foi um dos motivos para sair da equipe. Hoje, disse, ver um aluno vencer emociona mais do que os títulos dele, e lembrou de um atleta que tirou da faixa-branca na favela, que recebia cesta básica e virou campeão mundial.

As referências do Cavaca

Perguntado sobre quem admira, o Cavaca disse que tem pouca referência no mundo da luta. Citou duas. A primeira é Carlinhos Gracie, que ele chamou de visionário. Contou que a padronização dos uniformes da Gracie Barra começou depois que um aluno reclamou que Rickson tinha mandado trocar o kimono dele pelo da academia. A segunda é Fábio Gurgel, pela capacidade de manter vários campeões mundiais faixa-preta na mesma equipe durante anos.

O que fica da conversa é o jeito do Cavaca olhar para o jiu-jitsu como jogo de estratégia, dentro e fora do tatame. A ordem das bandeiras dele resume bem: primeiro a amizade, depois o jiu-jitsu e só por último a equipe, e só porque a federação exige.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.