Pura Connection · Rommel Cardozo
Rommel Cardozo conta como enfrentou o rótulo de pitboy do jiu-jitsu
Faixa-preta de muay thai de Marco Ruas e cria da Gracie Barra, o filho do dono do Bar do Osvaldo lembra o protesto de 2004 que levou 400 pessoas à praia.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 7 mar 2024 (1:29:27).
Em 2004, a imagem do jiu-jitsu no Rio estava no chão. Segundo Rommel Cardozo, a Rede Globo tratava as academias como fábrica de pitboy. Foi aí que ele, filho do dono do Bar do Osvaldo, na Barra da Tijuca, convocou uma manifestação na praia. Apareceram 400 pessoas, contou ele, incluindo Minotauro e Wanderlei Silva.
Assisti à conversa dele com o André no Pura Connection e percebi que o Rio pela Paz é só uma parte da história. O Rommel foi o segundo faixa-preta de muay thai do Marco Ruas, começou no jiu-jitsu com o Carlinhos Gracie, lutou a Copa Pelé e passou anos atrás do balcão de um bar frequentado por todos os casca-grossas do Rio.
O protesto contra a fama de pitboy
O Rommel contou que tinha sido entrevistado pelo Fantástico semanas antes e terminou a fala dizendo que ali todo mundo gostava de porrada, mas dentro do tatame. Segundo ele, a segunda parte da frase não foi ao ar. Na visão dele, a briga de rua vinha da falta de respeito e de punição: a polícia não agia e muitos pais não cuidavam dos filhos. Por isso, ligou para o editor do programa e depois chamou o ato.
“Eu fiz questão de dizer que o jiu-jitsu não compactuava com a violência que estava acontecendo.”
Rommel Cardozo, no Pura Connection · 0:44:09
Ele lembra que o Wanderlei, que estava no auge, veio de São Paulo para a praia, e que até a imprensa japonesa apareceu. O André completou dizendo que o jiu-jitsu cresceu de forma meio descontrolada naquela época, sem metodologia. O Rommel concordou e contou que o mestre João Fernandes, faixa-vermelha, até hoje fala que o jiu-jitsu precisa se estruturar, ou vai ser tomado pelos americanos.
Do muay thai de Marco Ruas à Gracie Barra
O pai do Rommel era capoeirista, aluno do Sinhozinho, que segundo ele era adversário dos Gracie nas décadas de 50 e 60. O pai dizia que dono de bar tinha que saber bater, e isso levou o filho para a capoeira e depois para o muay thai. Quem o apresentou ao boxe tailandês, contou ele, foi o Mamazinho, com uma calça preta de lista vermelha.
O Marco Ruas o incentivou desde o começo. O Rommel contou que fumava desde os 17 anos e que, aos 21, o Ruas ligou para a casa dele. A mãe atendeu e entregou o hábito. A bronca foi curta: queria ser campeão ou bunda-mole? Ele parou de fumar ali. Depois de uns cinco anos e muitos títulos, cansou de correr atrás do mestre, que dava aula em várias unidades da Corpore, e voltou para a capoeira.
Uma lesão no tendão de Aquiles o levou de volta ao jiu-jitsu. Ele já tinha treinado com o Carlinhos e o Carlson aos 15 anos, em Copacabana. Em 1989, aos 24, entrou como faixa-branca na Gracie Barra, puxado pelo Soneca. Segundo ele, o Jean Jacques Machado deu a faixa-azul em três meses, e em mais oito veio a roxa.
“Eu demorei três meses para pegar a faixa azul no jiu-jitsu, o Jean Jacques me deu.”
Rommel Cardozo, no Pura Connection · 0:16:04
Açaí antes da final da Copa Pelé
Tem uma história aqui que todo mundo que treina vai gostar. Em 1991, na Copa Pelé, o Rommel lutou com um adversário chamado Igor e no dia seguinte faria a final contra o Léo Dalla. Ele contou que estava fraco, porque a turma passava o dia sem comer. O Soneca o levou a uma portinha no Leblon, com três caras suando e o liquidificador ligado sem parar, e mandou beber uma tigela de uma coisa cor de terra. Era açaí.
No dia seguinte, ele venceu. Segundo o Rommel, a luta foi duríssima e o troféu, um prato, foi entregue por Carlos Gracie, com o Pelé ao lado. Até hoje, contou, o Léo Dalla curte as postagens dele lá de fora.
O muay thai também deixou lembrança ruim. O Rommel contou que acertou uma cotovelada que quebrou quatro dentes de um adversário depois de pedir ao juiz, o Molina, que parasse a luta. A professora do rapaz não jogou a toalha. Ele desceu do ringue pedindo perdão, e os dois ficaram amigos.
O bar onde os casca-grossas tomavam batida
O Bar do Osvaldo, que segundo o Rommel foi tombado como patrimônio cultural do Rio, era ponto de encontro da luta. Ele diz que vivia sobre o muro: servia gente do jiu-jitsu, do Carlson e da luta livre, e impunha respeito a todos. Aos 11 anos, quase brigou com o Renzo Gracie. Não brigaram, e a amizade já dura mais de 40 anos.
A melhor história é a do Saulo Ribeiro. Segundo o Rommel, o Saulo tinha acabado de ganhar o ADCC e tomava uma batida de amendoim no balcão quando um cliente perguntou se ele tinha visto o brasileiro que venceu o campeonato na Arábia. O Rommel apontou para o Saulo, e o cliente não acreditou. O Saulo foi até o carro e deu a ele uma camisa do ADCC. O Carlson também passou por lá e aprovou a batida do pai dele.
“Aqui todo mundo gosta de porrada, mas porrada dentro do tatame.”
Rommel Cardozo, no Pura Connection · 0:43:06
Robson Gracie, o mestre da política
Hoje o Rommel está na política e diz que aprendeu a política do jiu-jitsu com o Robson Gracie, que chegava com uma pastinha para explicar que o professor de arte marcial precisava ter profissão reconhecida e poder se aposentar. Ele chama o Carlinhos de primeiro mestre e o Robson de segundo.
Quando o bar pegou fogo, contou, amigos da luta como André Pederneiras apareceram para ajudar. O que fica da conversa é isso: um cara que circulou entre o muay thai, a capoeira e o jiu-jitsu numa época de rivalidade e escolheu defender a luta de dentro do tatame para fora.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.