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Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Tainan Dalpra

Tainan Dalpra conta como trocou Floripa pelos irmãos Mendes aos 14 anos

O faixa-preta catarinense fala do visto de atleta, da escola que ficou para trás e do plano de cinco anos que o levou da faixa-verde à preta.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 22 jul 2021 (0:36:21).

O Tainan Dalpra tinha 14 anos quando decidiu que ia morar nos Estados Unidos para treinar com os irmãos Mendes. Hoje, com 20, é faixa-preta, fala inglês fluente e diz que tem um objetivo só: ser campeão mundial na preta. Assisti à conversa dele no Jiu Jitsu Podcast, do Muito Mais Ação, gravada quase às duas da manhã, depois de um evento, e o que mais me chamou atenção foi a clareza do garoto sobre o que quer.

O papo é curto, pouco mais de meia hora, mas tem muita coisa que serve para qualquer pai que pensa em mandar o filho competir fora, e para qualquer atleta novo que sonha com isso.

Do tatame do pai à equipe de competição

O Tainan nasceu em Florianópolis. Quem o levou para o jiu-jitsu foi o pai, que treinava. Ele contou que começou com 5 anos, lá por 2005 ou 2006, numa academia que quase não tinha treino de criança. Na prática, ia acompanhar o pai e aprender uma posição aqui, outra ali.

A primeira academia foi a Maromba Jiu-Jitsu, uma casa pequena na época. Quando o gosto pela competição apareceu, a família foi atrás de uma equipe com mais criança e mais campeonato. Segundo o Tainan, foi assim que ele passou para a equipe Carlos Dourado, que levava todo mundo para as competições e sempre estava no pódio. Dali ele saiu dos regionais para os nacionais e chegou a ser vice no Brasileiro.

A virada veio em 2014. Com 13 anos, perto de fazer 14, ele foi campeão do Pan Kids. Foi lá o primeiro contato com os irmãos Rafael e Guilherme Mendes. A vontade de treinar com eles nasceu ali, mas ainda não cabia na realidade da família.

Seis meses de teste e um visto de atleta

Antes de viajar, a preocupação dos pais era fazer tudo certo no Brasil. O Tainan contou que começou o inglês dois ou três meses antes de ir, para chegar com uma adaptação melhor. Ele já sabia que, se quisesse dar aula lá fora um dia, o idioma seria fundamental.

Em 2015 ele foi pela primeira vez. O pai ficou seis meses com ele, para ver como seria a adaptação. No começo, a ideia era fazer como a maioria dos brasileiros: passar seis meses lá como turista, voltar, e repetir. O que mudou tudo, segundo ele, foi uma competição na Rússia, logo em seguida, onde ele se destacou. Depois dessa luta a família decidiu pedir o visto de atleta e fazer a mudança de vez, pelo caminho certo.

Ele conta que a família não queria correr o risco de ficar ilegal no país. Então os seis meses seguintes foram de correria com papelada, com ajuda dos pais e dos professores.

A escola que ficou para trás

O entrevistador perguntou o que eu também queria saber: e a escola? O Tainan foi sincero. Com o tipo de visto, ficou difícil estudar e ainda poder viajar para competir. A família teve que escolher entre a mudança e ficar no Brasil estudando. Escolheu a mudança.

A mãe, segundo ele, era quem mais se preocupava, porque a vida de atleta é ingrata para muita gente. O que a acalmou foi ver de perto como o esporte é valorizado nos Estados Unidos. E desde cedo os Mendes o colocaram para aprender o lado do negócio, ajudando na academia.

“O jiu-jitsu, quando eu fui para os Estados Unidos, se tornou a minha faculdade, os meus estudos lá.”

Tainan Dalpra, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:15:08

Ele credita muito ao exemplo dos pais, que têm uma empresa em Florianópolis. Disse que não lembra de grandes conversas sobre trabalho, mas cresceu vendo a ética deles de perto. A irmã, Monique, ficou no Brasil com os pais, e ele acha que isso ajudou a família a aguentar a distância. Ele também contou que recebeu muita ajuda quando precisou, até financeira, e que hoje responde quem manda mensagem pedindo conselho para fazer a mesma mudança.

“Muita gente me ajudou e agora eu vou passar para o próximo.”

Tainan Dalpra, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:17:46

O plano de cinco anos dos Mendes

Quando chegou, o Tainan era faixa-verde. E ali mudou uma coisa que, para ele, fez toda a diferença: o planejamento de carreira. A família já planejava a vida, mas nunca tinha planejado a parte do atleta.

“A gente sempre planeja, tenta planejar de 1 até 5 anos na frente o que a gente quer.”

Tainan Dalpra, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:22:56

Segundo ele, desde a faixa-azul o alvo já era a preta: a categoria, os adversários, as competições de cada faixa. Ele contou que o professor dos Mendes, Ramon Lemos, fez a mesma coisa com os irmãos, e que eles passaram isso adiante. Tudo aconteceu rápido: em 2018 ele ainda era azul e em 2020 já pegou a preta.

Nas faixas coloridas ele ganhou Europeu, Pan e Mundial. Mas, segundo o Tainan, nenhum desses títulos tirou o foco, porque o objetivo sempre foi outro. É esse plano que o tira da cama nos dias de lesão ou de cansaço.

“O nosso foco é sempre no campeonato mundial da faixa-preta.”

Tainan Dalpra, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:25:01

Na divisão de tarefas, ele contou que o Guilherme cuida da parte de competição e treino, e o Rafael puxa mais o lado do negócio. O Guilherme também o mantém na linha fora do tatame. Sobre a aposentadoria cedo dos irmãos, que muita gente pergunta a ele, o Tainan tem uma explicação: eles cumpriram o que planejaram. O Guilherme, contou, queria bater o recorde de títulos na categoria da preta, e quando conseguiu, a vontade já não era a mesma. Somam-se a isso o desgaste de quem começou a treinar aos 11 anos e os novos objetivos: academia, programa infantil, time juvenil, online e família.

Jiu-jitsu antigo, jiu-jitsu novo

O entrevistador comentou que o estilo do Tainan lembra muito o do Guilherme, com o jogo de passagem de joelho, colocando o quadril no chão. O Tainan disse que sentiu a diferença ao chegar: no Brasil aprendeu um jiu-jitsu mais antigo e, nos Estados Unidos, sentiu falta de técnicas novas no começo. O professor pediu paciência.

“Técnica é fácil de adicionar, é só questão de continuar repetindo.”

Tainan Dalpra, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:31:15

Hoje ele valoriza as duas escolas. Tenta lutar com o jiu-jitsu moderno dos Mendes, mas quer estar preparado para qualquer coisa. E citou o Roger Gracie como exemplo de quem venceu tudo com o básico.

O que fica da conversa é a imagem de um garoto que saiu de casa aos 14 com um plano no papel e seguiu esse plano quase à risca. Ele contou que era o primeiro podcast da vida dele. Pela clareza, não vai ser o último.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.