Podcast Nem Me Viu · Thiago Marreta
Thiago Marreta revela o truque que usou para enfrentar Jon Jones no UFC
No Nem Me Viu, o meio-pesado conta do TUF Brasil em que foi o último escolhido, do exército e do medo antes de cada luta.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 22 ago 2022 (1:50:20).
O Thiago Marreta chegou à luta pelo cinturão dos meio-pesados do UFC contra o Jon Jones com uma ideia fora do comum. Além dos parceiros de treino duro, ele contratou um lutador iniciante, alto, do tamanho e da cor do Jones, só para fazer figuração. O rapaz entrava no octógono, ficava agachado do outro lado como o Jones fica e vinha andando do jeito dele.
“Cara, parece que eu treinei com esse cara aí três meses. Nada era surpresa para mim.”
Thiago Marreta, no Podcast Nem Me Viu · 1:00:26
Quem conta é o próprio Marreta, no terceiro episódio do Nem Me Viu, o podcast do Fabrício Werdum. Assisti à conversa e gostei de ver um lutador que se diz tímido abrir o jogo sobre coisas que pouca gente fala: o dia em que foi o último escolhido no TUF, a depressão depois da primeira derrota no UFC e o medo que sente no vestiário.
A luta contra Jon Jones
Segundo o Marreta, aquele foi o melhor camp da vida dele. Estava sem lesão e tinha certeza de que ia ganhar. Ele contou que só assiste às próprias lutas uma ou duas semanas depois, de cabeça fria. Revendo a luta com Jones de forma neutra, disse que, se fosse o juiz, daria a vitória para ele mesmo, mas admitiu que foi parelha e que não dá para falar em roubo. Na opinião dele, na dúvida o campeão fica com o cinto.
No fim do primeiro round, o joelho dele se machucou. Ele contou que sentou no banquinho, avisou o córner que tinha alguma coisa estranha, e ouviu a pergunta se era para parar.
“Parar não vai parar, nunca vai parar, só vai parar enquanto eu conseguir levantar e ficar de pé.”
Thiago Marreta, no Podcast Nem Me Viu · 1:01:58
Mesmo assim, ele não usa a lesão como desculpa: disse que talvez pudesse ter se exposto mais para acertar um golpe. Sobre a derrota para o Jamahal Hill, o Marreta foi honesto. A estratégia era derrubar e finalizar, e ele diz que insistiu demais nas quedas, cansou e, na troca de golpes, a mão do adversário entrou.
O último escolhido no TUF Brasil
O Marreta foi aluno do Werdum no TUF Brasil 2, em 2013, quando o Werdum era técnico contra o Minotauro. Na hora da escolha dos times, os lutadores ficam em fila e os técnicos vão escolhendo. Ele contou que sobrou por último, cheio de vergonha. O Werdum brincou que primeiro olhou por cima dele e apontou um segurança.
Lá dentro, ele lutava nos 77 kg, peso que já era um sacrifício. Fez quatro lutas em 45 dias, contando a de entrada. Perdeu para o Léo Santos, que acabou campeão do reality, e foi para a repescagem contra o Pedro Irie, do próprio time, com quem tinha brigado na cozinha da casa. Segundo o Marreta, o Pedro o chamou de vagabundo por não cozinhar, e os dois resolveram no ringue: se quebraram todinhos.
O Werdum aproveitou para contar os bastidores dos técnicos. O time dele amarrou numa árvore o americano Eric Albarracin, do time do Minotauro, em resposta a uma pegadinha com ovo, farinha e extintor dentro da van. E ele expulsou do próprio time um lutador que chamavam de Ninja, depois de o rapaz sujar o vestiário do time rival com fezes.
Da estreia com derrota ao camp nos Estados Unidos
No TUF Brasil 2, contou o Marreta, o UFC não contratou quem perdeu, ao contrário de outras edições. Ele assistiu à final da plateia. O empresário Alex Davis, que o acompanha desde o início, ligou depois com uma luta de 84 kg, e ele aceitou: já queria subir de peso.
A estreia foi contra o Cezar Mutante, campeão do primeiro TUF Brasil. O Marreta contou que tomou um soco no começo, entrou nas pernas e foi finalizado num triângulo de braço ainda no primeiro round. Vieram as críticas, dizendo que ele não merecia estar no UFC, e ele admitiu que ficou meio depressivo. Depois virou a chave: largou família e filho, foi treinar nos Estados Unidos e nocauteou o Ronny Markes no primeiro round.
Na American Top Team, logo de cara botaram o novato para fazer sparring com o Pezão, o Antônio Silva, que estava no auge. Ele contou que foi assim que conquistou espaço na academia.
Paraquedista, lesões e o medo antes da luta
Antes do MMA, o Marreta ficou sete anos no exército, onde foi paraquedista e fez o curso de precursor. Ele calcula uns 130 saltos, todos enganchados, a 1.200 pés de altura, e saiu do exército em 2010. É desse tempo que vem a resposta mais bonita da conversa, sobre o medo.
“Eu acho que todo mundo tem medo. Eu vejo no olhar dos caras, na pesagem.”
Thiago Marreta, no Podcast Nem Me Viu · 1:40:04
Para ele, o que paralisa é o pavor. A pior hora é o vestiário, minutos antes. Quando entra no octógono e olha para o adversário, o medo morre. O Marreta também contou que chegou a fazer cinco lutas num ano no UFC, muitas aceitas com 10 dias de aviso, e que hoje tem duas cirurgias em cada joelho e a mão quebrada de novo no mesmo lugar.
No quadro de opiniões do programa, ele elegeu o Fedor como o maior de todos os tempos, porque venceu todo mundo no auge. Elogiou o Jan Blachowicz, que tomou uma cerveja com ele depois de ser nocauteado, e lamentou as atitudes do Jon Jones fora do octógono, apesar de chamar o americano de excelente atleta.
O que vem pela frente
Aos 38 anos, o Marreta disse que tem mais uma luta no contrato, que ele considera defasado, e que vai decidir com o empresário se renova ou segue outro caminho. Uma luta de boxe interessa, desde que seja contra alguém de verdade. Saí da conversa com a imagem de um cara que já tinha tatuado na costela, antes do TUF, a frase que resume a carreira dele: Deus não disse que seria fácil, mas prometeu que valeria a pena.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.