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Pura Connection · Toco

Toco Albuquerque recomeçou do zero aos 50 anos com o jiu-jitsu nos EUA

O faixa-preta de Carlson Gracie que ajudou a formar o Cyborg conta como trocou o Leblon por um emprego de professor numa academia da Flórida.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 12 dez 2022 (1:11:56).

Francisco Toco Albuquerque tinha academia no Leblon e vida feita no bairro. Quando anunciou que ia embora, ouviu que estava maluco: no Leblon ele podia comer no restaurante e pagar depois. Mesmo assim, perto dos 50 anos, decidiu ir para a Flórida e começar como empregado, dando aula dentro de uma academia de MMA. Ele contou essa virada no Pura Connection e explicou que foi uma escolha consciente: queria sentir o outro lado antes de ter o próprio negócio.

Assisti à conversa inteira e o que mais me pegou foi a calma com que o Toco fala dessa mudança. Ele diz que não sabe explicar direito a decisão. Chamou de estalo, de coisa de Deus. Mas por trás tinha um plano: garantir o futuro da filha, e do jeito certo.

“Eu tinha até condições de chegar e montar minha academia, só que esse não era o caminho. Eu tinha que sentir o que é o outro lado, ser empregado.”

Toco, no Pura Connection · 0:56:57

Do tatame improvisado no Leblon à escola de Carlson Gracie

A história do Toco no jiu-jitsu começa no Leblon. Ele conta que começou a treinar numa academia do bairro com o professor Maneco, na época faixa-marrom de Carlson Gracie. Quando o Maneco se afastou por compromissos profissionais, quem assumiu foi Isaías, outro atleta do Carlson que ele descreve como fenomenal.

Anos depois, a academia parou. O Toco e Rodrigo Medeiros, que hoje mora na Califórnia, faziam preparação física no mesmo lugar, até que o dono perguntou se eles não queriam dar aula de jiu-jitsu no espaço vazio. Os dois compraram tatame, botaram no chão e começaram sem pretensão nenhuma. Como eram conhecidos no bairro pelo surfe, foram chamando a turma da praia. Todo fim de mês, o melhor aluno ganhava uma medalha. Daquela leva saíram nomes como Pulga, que depois rodou o mundo com ele.

Na academia do Carlson, o Toco se via como o menor numa sala de monstros. Ele cita Libório, Murilo, Renatinho Tavares e outros que nem ficaram tão famosos. Segundo ele, era uma safra que não vai se repetir. E defende o mestre de uma fama que o acompanhou: muita gente achava o Carlson bruto, mas todos os alunos que ele conhece dizem que o homem tinha coração de mãe. O Toco também lembra que o Carlson foi o primeiro Gracie a botar os alunos para enfrentar outros Gracie, e que isso fez todo mundo evoluir.

“Às vezes a derrota é melhor do que a vitória. Na vitória você acha que está tudo bem, que você é o cara. A derrota mexe com a cabeça.”

Toco, no Pura Connection · 0:20:09

A derrota que ele não esconde

Ele mesmo diz que nunca foi um grande competidor, que competia mas não tinha isso como prioridade. E conta sem vergonha uma derrota dos anos 90, numa noite de lutas casadas em que a equipe do Carlson enfrentava um time rival. Ele puxou para a guarda bem, sentiu calor, virou de quatro para defender e o adversário pegou as costas e encaixou o estrangulamento. Nas palavras dele, bateu mais rápido do que a pressão que sentiu no pescoço, com o ginásio lotado gritando. Hoje ele diz que é grato pela experiência.

Anos depois, já nos Estados Unidos, voltou a competir sem kimono. Chamaram o nome dele, ele viu que o adversário era tricampeão e olhou para o Cyborg, que só mandou ficar tranquilo. Ganhou por 3 a 2 e ainda perdeu uma lente de contato no meio da luta.

O Cyborg, o Pulga e a Nova Geração

Uma das partes mais bonitas da conversa é sobre o Roberto Cyborg. O Toco lembra que o Cyborg estava no Mato Grosso do Sul, já era um atleta diferenciado, mas não tinha bandeira. Por meio do Isaías, ele já tinha ouvido falar do rapaz. Um dia o telefone tocou: o Cyborg queria uma linha para seguir e pediu para representar a equipe. Virou Nova Geração.

O Toco é honesto sobre o papel dele. Segundo ele, em técnica o Cyborg aprendeu muito mais com o Pulga. O que ele passou foi o foco. O Cyborg vinha para o Rio, ficava na academia treinando, e o Toco chegava a passar uma hora ao telefone com o pai dele, seu Roberto. No início da Fas Esporte, era o Toco quem assinava a papelada dos atletas nas federações, e muitos deles dormiam na academia na época das competições.

“Eu acho que em termos de jiu-jitsu ele aprendeu muito mais com o Pulga do que comigo. Comigo ele aprendeu a se manter focado na linha.”

Toco, no Pura Connection · 1:00:41

O Toco também contou uma história de 2008 ou 2009. Um faixa-azul mexicano mandou e-mail querendo representar a equipe na cidade dele, perto da Cidade do México, e convidou o Toco para um seminário. Ele topou, desde que levasse o Pulga. Os dois chegaram achando que iam para um hotel e foram parar na casa do sujeito, com mulher e filhos. Quando o Toco perguntou se o anfitrião era maluco de botar dois brasileiros desconhecidos dentro de casa, ouviu que ele já conhecia a vida do Toco melhor do que ele mesmo.

Terno, gravata e o pai que era seu super-herói

O jiu-jitsu não estava nos planos. O pai do Toco tinha uma imobiliária e, segundo ele, vendeu o Barramares, chegando a botar Elis Regina para cantar no estande de vendas. O Toco chegou a trabalhar com ele, até se olhar no espelho do banheiro de terno e gravata e sentir que tinha alguma coisa errada.

O mesmo pai ficou doente por 16 anos, nove deles internado. O Toco tinha uns 14 ou 15 anos quando tudo começou e diz que chegou a questionar a própria fé. O jiu-jitsu foi a válvula de escape. Ele compara aquela fase a estar com alguém nas costas, com as duas mãos na gola: não tem o que fazer, a não ser respirar e sobreviver. É a mesma lição que tenta passar para os alunos americanos.

“Eu nunca pensei em ser professor de jiu-jitsu. A melhor coisa que aconteceu na minha vida foi o jiu-jitsu, não tenho dúvida nenhuma.”

Toco, no Pura Connection · 0:25:57

Kimono branco, aula de português e crianças sem pressão

Na academia da Flórida, a parede tem as fotos de Carlos, Hélio, Carlson e dele. Toda aula os alunos cumprimentam os mestres. Ele se diz da segunda geração do Carlson e cobra respeito a quem veio antes. Contou que quando Bolão visitou a academia, mandou os alunos fazerem fila para apertar a mão dele. Também aceita kimono de uma cor só, o branco. Para ele, cor misturada faz a arte perder a identidade.

Tem ideias que eu achei ótimas. Uma vez por semana ele dá a contagem da aula em português, porque acha que o jiu-jitsu brasileiro deveria ser contado na nossa língua no mundo inteiro. Para as crianças, faz duas a três vezes por ano um torneio interno, o Mestre Challenge, em que pais podem assistir mas ninguém torce, e todo mundo ganha medalha. Os menores, a partir de três ou quatro anos, fazem exercícios de postura e equilíbrio sem combate.

Os primeiros anos nos Estados Unidos foram de pancada, nas palavras dele: três anos e meio desde a estaca zero, passando pela covid, com a mulher gerenciando o negócio. No fim, o recado do Toco é simples. Medalha não é o objetivo da casa dele, e o jiu-jitsu é maior do que qualquer técnica. Saí da conversa com vontade de ver mais professor falando assim.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.