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Pura Connection · Afonso Viking, Lacerda (Krugans)

Viking conta como nasceu a Krugans, o kimono feito para o jiu-jitsu

Pai e filho lembram a oficina de uniformes que virou fábrica de kimono, a cópia no Paquistão e o nome tirado de um vilão de cinema.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 9 mai 2022 (1:24:00).

Durante muito tempo o jiu-jitsu foi treinado com roupa emprestada de outra arte marcial. Quem conta é Viking, criador da Krugans: no fim dos anos 80, quando o kimono dele rasgava pela enésima vez, ele perguntou ao professor por que a roupa não aguentava a luta. A resposta foi que o jiu-jitsu não tinha kimono próprio. Usava o de judô, o de karatê, o que servisse.

“Por que esse kimono de jiu-jitsu que a gente usa tá rasgando toda hora? Ele não tem um formato adequado para a nossa luta.”

Afonso Viking, no Pura Connection · 0:08:13

Assisti à conversa dele com o pai, seu Lacerda, no Pura Connection, e o que mais me chamou atenção foi como a marca nasceu de um problema de tatame. Nada de plano de negócio. O Viking sentiu o incômodo treinando, a família tinha uma confecção, e os dois juntaram as duas coisas.

De macacão de estaleiro a kimono de jiu-jitsu

Segundo o seu Lacerda, a família fazia uniforme pesado: macacão e calça para estaleiros, construção naval e metalúrgicas. Roupa feita para aguentar o tranco. Quando os colegas de academia descobriram que o Viking trabalhava com o pai, começaram a levar kimono rasgado para consertar. Depois vieram os pedidos estranhos: encurta a manga aqui, aperta ali, troca a saia do kimono.

O pai admite que resistiu. Tinha um negócio firme, nunca tinha feito kimono e nem sabia onde comprar o tecido. Mas a concorrência em uniforme profissional estava brutal, e a ideia do filho chegou, nas palavras dele, numa hora muito oportuna, logo depois do confisco da poupança pelo governo. O primeiro kimono saiu de um tecido cru de forrar sofá, comprado numa fábrica de tapeçaria, parecido com os kimonos amarelados da época.

O Viking enchia a mochila de noite, rodava as academias e voltava com ela vazia e cheia de cheques. Aos poucos, a fábrica inteira passou a produzir kimono.

O que mudou na roupa

O kimono de judô tinha saia e rasgava com muita facilidade. A primeira mudança, contou o pai, foi fazer o casaco inteiro trançado, sem a saia, e cortar o máximo de costura. Uma delas era a das costas, com quase um centímetro de espessura, que machucava a coluna de quem passa duas horas no chão com um cara pesado por cima. O Viking desenhou peito, manga mais estreita e casaco mais curto, e foi corrigindo peça por peça.

O Viking era o piloto de teste. Ele vestia o próprio kimono e entrava para lutar campeonato contra gente muito mais dura e conhecida, sem nem entender direito as regras.

“Tô usando minha armadura no equipamento. Se eu perder, perdi. Se ganhar, ganhei.”

Afonso Viking, no Pura Connection · 0:11:56

O resultado, segundo o seu Lacerda, apareceu rápido. Com quatro meses de produção a marca já estava registrada, um representante nos Estados Unidos levava de 100 a 200 kimonos por mês e, em menos de um ano, o modelo já estava sendo copiado.

“Estávamos no negócio há menos de um ano e esse nosso kimono já estava sendo falsificado no Paquistão.”

Lacerda (Krugans), no Pura Connection · 0:27:27

Um vilão do Highlander e um erro que deu certo

A parte mais divertida da conversa é a origem do nome. O Viking queria chamar a marca de Viking, mas o nome já estava registrado para roupa. Na época ele vivia de surf, treino pesado e fitas de vídeo, e tinha assistido ao filme Highlander mais de 20 vezes. O que marcou foi o vilão, o Kurgan, um sujeito enorme e brutal que chegava e derrubava tudo.

Ele quis homenagear o personagem, grafou o nome errado e registrou Krugans. Ficou assim. "Foi o errado que deu certo", resumiu. Para ele, a marca tinha de ser como o vilão: chega onde chega e toca o terror.

Dessa época ele conta que treinava com Fábio Gurgel tendo uns 40 quilos a menos e ficava meia hora sem pedir para parar. Era o espírito que ele queria no kimono.

Porta em porta, sem loja de esporte

Segundo o Viking, naquele tempo o aluno comprava kimono em loja de material esportivo, como quem compra uma bola. O fabricante nem falava com o professor. A Krugans fez o caminho inverso e foi direto às academias, batendo de porta em porta.

Uma das histórias é com o Pinduca. O Viking conta que nem o conhecia. Tocou o interfone, subiu, mostrou a marca e deu um kimono para ele. O mestre usou, gostou e começou a vender para os alunos.

“Eu não estou dando, eu tô investindo. Eu tô semeando.”

Afonso Viking, no Pura Connection · 1:03:03

O carro dele, uma caravan antiga, tinha adesivo de todas as academias. Numa época em que trocar de equipe rendia o apelido de creonte e as torcidas no Brasileiro brigavam feio, ele andava com kimono na mochila e já ia de calça de kimono para treinar onde deixassem. Foi assim, contou, que fez amigos em todas as equipes. E foi Carlinhos Gracie quem apresentou a ele o açaí, na Oficina do Guaraná, na rua Olegário Maciel. A tigela de açaí com guaraná virou quase uniforme da turma do surf e do jiu-jitsu no Rio.

O que fica da conversa

O seu Lacerda tem 84 anos, nasceu em Portugal e se naturalizou brasileiro ainda rapaz. Ele fala com carinho das costureiras, que chama de família, e com preocupação do presente: segundo ele, hoje só existem dois fabricantes no Brasil do tecido trançado usado no kimono, e um terceiro quebrou na pandemia. Também contou que a fábrica corta um a um os kimonos de tamanho fora do padrão, para lutadores de até 200 quilos.

Saí da entrevista pensando no tanto de coisa que a gente veste sem saber de onde veio. O kimono de jiu-jitsu com casaco trançado e sem costura nas costas parece óbvio hoje. Pelo relato desses dois, ele começou numa oficina de macacão de estaleiro, com um lutador curioso fazendo a pergunta certa ao professor.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.