Connect Cast · Vitor Shaolin Ribeiro
Vitor Shaolin: a mentalidade que o fez tricampeão mundial de jiu-jitsu
Da briga de moleque no Aterro do Flamengo aos três títulos mundiais seguidos, o faixa-preta conta o que aprendeu com Dedé e por que trocou o kimono pelo vale-tudo.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 21 ago 2023 (2:24:52).
Vitor Shaolin foi três vezes campeão mundial de jiu-jitsu na faixa-preta e jura que nunca precisou de uma academia cheia de estrelas para chegar lá. Assisti à conversa dele no Connect Cast e o que mais me chamou atenção foi a clareza com que ele explica de onde veio a cabeça de campeão: um professor em quem confiava de olhos fechados, uma turma de moleques que treinava junto e uma regra pessoal de nunca botar a culpa da derrota em ninguém.
Hoje com 44 anos, pai de três filhos e dono de academia em Nova Jersey, nos Estados Unidos, onde vive há 15 anos, Shaolin voltou à infância no Rio, aos títulos de 1999, 2000 e 2001, à troca do kimono pelo vale-tudo e ao que pensa da molecada que está chegando agora.
“Nunca em uma das minhas derrotas eu botei na conta de alguém. Minha derrota sempre foi: o cara foi melhor que eu.”
Vitor Shaolin Ribeiro, no Connect Cast · 0:20:53
Uma briga de moleque no Aterro
O jiu-jitsu entrou na vida dele por causa de uma surra. Shaolin contou que, com uns 14 anos, fazia muay thai e armava com os amigos umas lutas de luva, com round, na grama do Aterro do Flamengo. Na segunda dessas brincadeiras, um garoto da escola, um pouco mais velho e que treinava luta livre, o desafiou. Quando o rival grudou nele, foi soco na cara e cabeçada, e ele saiu com o nariz inchado.
A partir daí, um amigo chamado Buiú, que fazia capoeira, o levou até a academia do Dedé. A ideia, confessou Shaolin, era aprender um pouco de chão para enfrentar o mesmo garoto de novo. Com dois meses de treino, empurrado por Sabará, uma figura que até dormia na academia, ele competiu de faixa-amarela num evento que Dedé organizou com Marco Góes na Hebraica. Ganhou duas lutas e perdeu a final.
O que marcou foi a volta para casa. Andando pelo Flamengo, um faixa mais velho, Mauricinho, deu um tapinha no ombro dele e disse que ele estava bem. Para um garoto de 14 anos querendo ser aceito pela turma de 19, 20, aquilo foi o estopim para continuar.
A revanche aconteceu depois, num playground, e foi filmada. Shaolin disse que entrou com a imagem de Murilo Bustamante no Grajaú em 1991 na cabeça: o pisão e a mão aberta medindo a distância. Usou o pisão, chegou nas pernas, derrubou, passou e montou. O combinado era parar quando alguém pedisse, e o outro pediu rápido.
Dedé, o grupo e a fama de chato
Quando o apresentador perguntou o que é preciso para ser campeão mundial, a primeira resposta foi acertar a academia. Shaolin contou que Dedé é 12 anos mais velho que ele e que, na época, já era o cara da casa, que pagava as contas e corria atrás. Ele passou a ver o professor como um irmão mais velho. Faixa-preta ali, praticamente só Dedé e João Rock, um faixa muito técnico que Shaolin copiava nos treinos. Campeão mundial por perto, nenhum.
A base, segundo ele, era uma turma de moleques da mesma idade: Thiago Fernandes, Gilson, Flavinho, Rafael e outros. Shaolin puxava o treino da hora do almoço, levava a turma para treinar wrestling e testava aquecimentos e exercícios que via o pessoal do judô fazer. Ele mesmo se define como chato com treino: chato com horário, chato com quem queria ir embora antes do fim.
O primeiro assunto da conversa, aliás, foi a morte de Thiago Fernandes. Shaolin o descreveu como um garoto educado, engraçado, que ouvia muito, e lembrou que com 15 anos ele saía de Niterói de ônibus para treinar. Disse que até hoje pensa em como ele estaria competindo contra a geração atual.
Dedé, na visão de Shaolin, soube canalizar esse excesso de vontade numa reta só. Ele contou que nunca questionou uma posição antes de testar e que o professor sabia a hora de dar um grito e a hora de falar com carinho. Também lembrou de uma frase que ouviu numa discussão: um dia você vai ter sua academia e vai entender tudo que eu estou te falando. Hoje, com a própria academia, diz que entende.
“Ele me criou para o mundo. Não me criou para ser o príncipe da academia, o leão de academia.”
Vitor Shaolin Ribeiro, no Connect Cast · 1:22:33
O wrestling e os três títulos seguidos
Shaolin foi um dos primeiros do jiu-jitsu a levar o wrestling a sério. Ele contou que conheceu Paulinho (Paulo Caruso) e gente do judô, fez uma ou duas competições de judô sem grande resultado e se encontrou mesmo na luta olímpica. Lutou seletivas no Brasil que o levaram a dois Pan-Americanos e a um torneio na Europa, treinou um período em Goiânia com Babalu e teve patrocínio do Vasco da Gama para viajar.
Nessa fase ele levou uma lição sobre peso. Deveria lutar até 69 kg e acabou competindo até 77, contra um adversário baixo e muito forte. Para ele, o wrestling combinou com o biotipo: tempo de entrada de perna, single leg, scramble e jogo por cima.
No Mundial, o caminho teve tropeço. Segundo Shaolin, em 1997 ele perdeu na final e em 1998 quebrou o dedo e não lutou. Em 1999 levou uma queda de Feitosa, raspou e foi campeão. Em 2000 os dois fizeram a final de novo, uma luta de puxa para cá, vira para lá, e ele ganhou outra vez. Em 2001 venceu Tererê, que abriu o placar primeiro. Quando Shaolin empatou, disse que viu na cara do adversário que a luta tinha virado.
“Em 99, para mim, foi o portão de abertura em relação à minha confiança.”
Vitor Shaolin Ribeiro, no Connect Cast · 1:01:47
O segredo, na versão dele, foi entrar sempre muito treinado e manter a mesma cara ganhando ou perdendo. Sem vídeo motivacional, sem frase bonita. Até hoje, com três filhos, diz que treina três meses para uma luta de master.
“Eu sempre entrei muito treinado para não dar nenhuma desculpa, para não ter nenhuma surpresinha.”
Vitor Shaolin Ribeiro, no Connect Cast · 1:06:28
A fase mercenária no vale-tudo
Depois do tricampeonato, o dinheiro não vinha. Shaolin lembrou que tinha 22 anos, que não existia Instagram nem seminário online e que o caminho natural era seguir os ídolos que iam para o vale-tudo. Começou a treinar com Luiz Alves e estreou em 2001 contra um adversário com 13 lutas e duas derrotas. Contou que não achou o jiu-jitsu, mas achou uma cotovelada no fim do primeiro round que abriu o corte e decidiu a luta.
“Foi basicamente financeiro. Eu até brinco falando que era uma fase mercenária.”
Vitor Shaolin Ribeiro, no Connect Cast · 1:10:09
Por um tempo ele dividiu o grappling com o MMA, até que em 2003 viu que precisava escolher e ficou com o vale-tudo. Na mesma época, segundo ele, uma confusão envolvendo Luizinho e Carlinhos acabou tirando a Nova União da CBJJ por anos. Shaolin disse que nem participou dessa briga, porque já estava em outra batida.
Ele acha o MMA mais difícil que o jiu-jitsu por falta de tempo na semana, e deu exemplos. Citou José Aldo, que teve até que diminuir o chão para virar o striker que virou, e Ricardo Arona, que treinava basicamente jiu-jitsu com Paulão em Itacoatiara, fazia três meses de camp quando marcava luta, lutava no peso natural e chegava detonando. Para Shaolin, Arona era um espécime que precisa ser estudado, e isso não é mais possível hoje.
Educação no tatame e a nova geração
Na academia dele, a regra é educação. Shaolin contou que, quando um aluno de fora chega desrespeitando, ele liga para o professor do rapaz. O filho de 17 anos faz wrestling no high school e gosta mais do sem kimono, para tristeza do pai, apaixonado pelo pano.
Sobre a molecada, ele está animado. Gosta de ver Mica e Tainan fazendo a coisa acontecer, acha que a geração de muita lapela e berimbolo está ficando de lado e prevê que os faixas-roxas brasileiros vão dar muito trabalho no sem kimono quando tiverem o time certo. Sobre Gordon Ryan, com quem disse ter lutado em 2018, falou que ele é habilidoso, faz o básico muito bem feito e mesmo assim pode ser vencido. No MMA, põe Charles Oliveira como o número um do UFC no chão.
O que fica da conversa é um campeão que fala do passado sem pose. Ele mesmo resumiu: começou a treinar por insegurança na rua, viajou o mundo, conheceu gente boa e hoje é um pai de família que gosta de treinar.
“Eu não sou mais campeão mundial. Eu fui campeão, e hoje em dia sou pai de família que se amarra em treinar.”
Vitor Shaolin Ribeiro, no Connect Cast · 1:59:31
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.