Connect Cast · Wander Braga
Wander Braga perdeu estreia no UFC por visto e treinou com Rickson Gracie
Faixa-preta de Jorge Pereira conta como estava no pôster do UFC, ficou dez anos fora dos Estados Unidos e se reergueu com o jiu-jitsu.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 25 jun 2024 (1:50:01).
Cinco dias antes do evento, Wander Braga foi puxado para o card do UFC em que Anderson Silva ganharia o cinturão pela primeira vez. O nome dele estava no pôster, o adversário era o wrestler Kurt Pellegrino e, segundo ele, o contrato previa uma disputa de título já na segunda luta se a estreia fosse convincente. A luta nunca aconteceu. Um problema de visto tirou o carioca dos Estados Unidos, custou duas academias e uma casa e rendeu uma punição de dez anos longe do país.
Assisti à conversa do Wander no Connect Cast, onde ele foi lançar um livro de 161 páginas sobre a própria vida, e saí com a sensação de ter ouvido três histórias em uma: a do faixa-preta formado por Jorge Pereira que brigava dentro e fora do tatame, a do aluno que tomou cinco finalizações de Rickson Gracie num único treino e a do lutador invicto que perdeu tudo às vésperas do sonho.
“Esse é o único negócio na minha vida que eu ainda tenho assim, porque era um sonho de todo lutador.”
Wander Braga, no Connect Cast · 0:06:53
A estreia que começou na praia
O Wander começou no jiu-jitsu aos 12 anos com o Jorge Pereira e pegou todas as faixas com ele, da branca à preta. Ele trata o mestre como um pai e diz que os dois se falam todo dia.
A estreia no vale-tudo é a história que, segundo ele, o UFC mais gostou quando ele assinou. Com 17 ou 18 anos, ainda faixa-roxa, ele estava surfando no Rio quando uns amigos passaram de carro a caminho de São Paulo para ver o Jorge lutar num circuito de freestyle. Largou a prancha embaixo de um quiosque, entrou no carro de chinelo e camiseta e foi. Na arquibancada, o Jorge olhou para ele e perguntou quanto estava pesando: faltava um lutador na categoria até 70 quilos.
O Wander conta que não conseguia perder os últimos 500 gramas e só descobriu o motivo no meio da luta, quando viu gente varrendo areia do ringue. Era a areia da praia que estava no bolso dele. Lutou sem coquilha, sem protetor bucal e ganhou três lutas naquela noite. Ele diz que o gosto veio dos treinos da equipe do Jorge, que sempre tiveram muita porrada.
“Eu gostava desse treino porque era da luta real.”
Wander Braga, no Connect Cast · 0:12:06
Cinco finalizações de Rickson Gracie
Em 2000, o Wander se mudou para Los Angeles, porque achava que dali seria mais fácil chegar ao UFC. Treinou com Lyoto, Wallid, Dan Henderson e Randy Couture, e levou o Jorge, que morava em Miami, para passar temporadas na casa dele. Como o Jorge é faixa-preta do Rickson, mandou o aluno procurar o mestre na Califórnia.
O apresentador lembrou a história de que o Randy Couture teria sido finalizado sete vezes num treino com o Rickson. O Wander acredita, porque passou pela mesma coisa. Ele tinha acabado de fazer a final de um Pan-Americano contra o Márcio Feitosa, empatada em 0 a 0 e decidida na bandeira, e mesmo assim saiu da academia se sentindo faixa-branca.
“O cara me pegou cinco vezes. Na primeira vez que eu saí de lá, achei que eu era faixa-branca.”
Wander Braga, no Connect Cast · 0:17:17
Para o Wander, o que separa o Rickson dos outros é o ajuste e, principalmente, a cabeça. Ele contou que num exercício de equilíbrio com peso, que o Rickson fazia com respiração e controle total, ele mal conseguia sair do lugar. Segundo ele, o amigo Shaolin nem acreditou quando ouviu o placar e brincou que as cinco finalizações eram sinal de respeito.
O Wander disse que a mesma questão da mente explica a única derrota dele no MMA. Era o evento principal de um show ligado a quem tinha contrato com ele, todo mundo perguntava sobre a invencibilidade, e ele entrou pensando que não podia perder. Foi a única luta de MMA para a qual não levou o Jorge, e ele acha que esse foi o erro.
O boxeador que chamou o jiu-jitsu de roupinha
Nos Estados Unidos, o Wander dava aula dentro de um clube de boxe em Los Angeles, a LA Boxing Club. Segundo ele, em 2000 pouca gente ali sabia o que era jiu-jitsu, e os boxeadores riam do quimono. Um deles, que ele chama só de King, passava todo dia zoando.
Em 2001, o Wander chamou o boxeador para o tatame. O dono da academia bancou a aposta de mil dólares, porque o Wander não tinha o dinheiro. O King voltou de short e luvas. Na primeira tentativa, o Wander entrou nas pernas, pegou as costas e aplicou um mata-leão. Soltou quando sentiu o adversário amolecer, e o King pediu revanche porque não tinha batido. Na segunda, o carioca encaixou uma chave de tornozelo e o boxeador desistiu.
O Wander conta que usou os mil dólares para pagar o aluguel e que o King sumiu da academia por três meses. Quando voltou, apertou a mão dele. Dali em diante, segundo o Wander, os boxeadores passaram a respeitá-lo, embora ele tenha quebrado o nariz umas três vezes treinando boxe com profissionais.
Ele também lembrou um treino na academia de Tito Ortiz, em Huntington Beach. O combinado era jiu-jitsu, mas depois que o Wander levou vantagem, o americano começou a chutar. O Wander respondeu com um chute no rosto e, segundo ele, logo depois o Chicão Bueno entrou para vingá-lo e levou a melhor sobre o Tito.
O contrato com o UFC, o visto e a depressão
O Wander diz que lutava quase todo fim de semana, entre campeonatos de jiu-jitsu, lutas casadas e MMA, e que o dinheiro saía das aulas e das lutas. Ele tinha passagens por eventos como o King of the Cage e reclama que nunca ganhou uma chance de título, porque os organizadores preferiam os americanos. Contou até que um árbitro pediu desculpas depois de uma luta por mandar recomeçar em pé tantas vezes.
O contrato com o UFC veio, mas a organização pediu que ele trocasse o visto que tinha por um processo de green card. Na viagem ao Brasil para resolver a papelada, uma funcionária do consulado não aceitou a documentação. Segundo o Wander, ele teve de admitir que estava errado e recebeu uma punição de dez anos sem poder entrar nos Estados Unidos. Os dois filhos, Luana e Caian, nasceram lá.
“Cheguei a ficar cego do olho direito durante três meses.”
Wander Braga, no Connect Cast · 1:03:52
Ele contou que entrou numa depressão forte, passou dias no sofá e evitava assistir ao UFC. O médico mandou voltar a fazer algo de que gostasse. Ele voltou ao jiu-jitsu e, dois meses depois, a visão tinha voltado. Na mesma época, sem dinheiro para matricular os filhos na escola, ele rezou pedindo 5 mil reais. Dias depois, o amigo Cláudio Ruda deixou um envelope com exatamente esse valor na mesa de um restaurante. O Wander conta a história como prova da própria fé.
“Jiu-jitsu salva. Me salvou mesmo.”
Wander Braga, no Connect Cast · 1:05:25
Os amigos de tatame também ajudaram de um jeito mais duro. Segundo ele, o aluno Márcio Viano e outros colegas da época do Jorge chamaram sua atenção por viver reclamando e comparando a própria vida com a dos outros. O que tirou ele do buraco, conta o Wander, foi um seminário na Itália, quando pensava até em largar a luta para trabalhar na imobiliária da mãe.
Gratidão ao mestre e aos Gracie
Hoje o Wander mora na Carolina do Norte e diz ter entre 20 e 30 filiais com o próprio nome, com unidades no Líbano, na Itália e nos Estados Unidos. Ele contou que recusou vários convites para trocar de equipe porque o Jorge esteve do lado dele quando ele estava por baixo.
Ele também fala dos Gracie com gratidão. Disse que agradeceu pessoalmente a Ralph Gracie por viver do jiu-jitsu graças à família, e que nos Estados Unidos quase todo aluno novo chega lembrando do Royce no primeiro UFC. Sobre a discussão se Carlos Gracie aprendeu mesmo com Mitsuyo Maeda, a resposta dele é curta: pouco importa quem deu a aula, porque Carlos e Hélio revolucionaram a luta.
O que fica da entrevista é um lutador que chegou a pisar no UFC com os alunos, mas nunca lutou lá, e que hoje fala disso sem amargura. O livro, segundo ele, foi escrito para que os filhos saibam a história do pai.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.