Podcast Nem Me Viu
Werdum revela o burnout e o erro que custou o cinturão do UFC
Numa conversa com um psiquiatra e um nutrólogo, o ex-campeão peso-pesado explica a pausa depois de 25 anos de luta, o telefonema de Dana White no México e a noite antes de perder o título.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 12 jul 2023 (1:53:55).
Na véspera da luta em que perdeu o cinturão dos pesados do UFC, Fabrício Werdum tinha 30 pessoas no quarto do hotel até as quatro da manhã. Ele contou isso no Nem Me Viu, numa conversa com o psiquiatra Guido Boabaid e o nutrólogo Rafael Galassini, e usou a lembrança para explicar o que a cabeça faz com um campeão.
“Eu estava preocupado com tudo, menos com o mais importante: a luta.”
Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:09:12
O episódio é sobre saúde mental e corpo, mas assisti pensando no tatame, e é aí que ele rende. O Werdum falou de burnout, da pausa que fez depois de duas décadas e meia de competição, do dia em que o Dana White ligou para mudar tudo e do medo que, segundo ele, nunca foi o medo do soco.
25 anos sem parar e a palavra que ele não aceitava
O Werdum contou que começou no jiu-jitsu com 20 anos e passou 25 anos lutando sem parar: jiu-jitsu, grappling, MMA, tudo o que aparecia. Depois da última luta no UFC e de outra no PFL, estava cansado da rotina, de ficar longe da família, e precisou parar por quase dois anos. O psiquiatra identificou ali os sinais do burnout, a síndrome do esgotamento profissional: cansaço físico, falta de motivação, sensação de que nunca é suficiente.
“Eu fiquei 25 anos lutando na minha vida.”
Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:04:22
Ele disse que já vinha lutando por obrigação no fim daquele ciclo, e que a vontade diminuiu depois de virar campeão, porque o objetivo maior tinha sido alcançado. A palavra que mais o incomodava na pausa era "aposentado". Com 45 anos, contou, voltou a ter vontade de lutar, e isso ele atribui ao descanso. A volta seria uma revanche 15 anos depois da primeira luta, com camp em Los Angeles.
Para a volta, ele fez um desafio de 60 dias proposto por um fisiculturista amigo, com acompanhamento do Galassini. Segundo o Werdum, saiu de 122 quilos, chegou a 110 e baixou a gordura corporal de 22% para 12%.
O telefonema do Dana White no México
Quando o psiquiatra escolheu a resiliência como a habilidade mental de ouro do lutador, com a adaptação como parte dela, o Werdum puxou o exemplo mais forte da carreira. Ele contou que passou dois meses e meio no México treinando na altitude para enfrentar Cain Velasquez no primeiro UFC da história no país. A duas semanas da luta, o telefone tocou no viva-voz. Estavam na sala o mestre Rafael Cordeiro, o irmão dele e Babalu.
Era o Dana White, que segundo o Werdum nunca ligava para ele. O Cain estava fora. O adversário passaria a ser Mark Hunt, um estilo completamente diferente, pelo cinturão interino. O Werdum desligou, esperou um minuto, olhou para o Rafael Cordeiro e ouviu que ele podia lutar com qualquer um, a qualquer hora.
“Eu liguei de volta na hora e fechou.”
Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:58:46
Ele explicou que, se não lutasse, o evento perderia milhões, e que a confiança no mestre pesou na decisão. Depois, contou, enfrentou o Cain e venceu. Pelas contas dele, fez a luta principal dos dois eventos do UFC no México e venceu as duas. Ele lembrou ainda de outra troca no UFC, feita quando já saía do quarto com a mochila para a arena, no mesmo hotel. Segundo ele, é bom de improviso, e o improviso é uma forma de adaptação.
No automático, com 30 pessoas no quarto
Quando a conversa foi para o piloto automático, o Werdum foi honesto. Disse que já lutou algumas vezes sabendo que estava ali, mas com a cabeça em outro lugar, e que perdeu. Na luta em que perdeu o título, estava motivado, mas já era o campeão. A mãe estava na arena, ele se preocupava com ingresso de amigo, e na véspera o quarto ficou cheio de gente dando risada.
“Um dia antes da luta, 30 pessoas no meu quarto até as quatro da manhã.”
Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:09:42
Ele também contou que chegou a querer que uma luta acabasse logo, sem ser pela vontade de finalizar ou nocautear, e sim pela vontade de sair dali. Para ele, isso é sinal de que algo está errado. Disse que aprende mais quando perde e que ser campeão depende de alinhar corpo e mente. E contou que a esposa nunca assistiu a uma luta dele ao vivo.
O medo que importa e o leão de academia
O psiquiatra explicou que, sob ameaça, o cérebro dispara adrenalina e cortisol e a parte que raciocina perde espaço, e perguntou do que o Werdum tinha medo. A resposta foi direta.
“Eu não tenho medo de tomar soco na cara. Eu tenho medo de perder.”
Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:18:05
Ele contou que o frio na barriga aparece, que às vezes vem a imagem do adversário ganhando e que é preciso trocar pela imagem de si mesmo vencendo. Sobre treino, lembrou do formato em que ficava no meio, fazendo cinco minutos com um parceiro diferente atrás do outro, e que adorava isso. E alertou que o treino engana: citou o amigo Kelvin Gastelum, que treinou com eles por muito tempo, treinava normal, não machucava ninguém e, na luta, virava outro nível de agressividade. Disse também já ter visto o contrário: o cara que é leão na academia e chega na luta de boca branca, dominado pelo medo.
O Werdum ainda mostrou uma foto de quando tinha 21 anos, faixa-azul, ao lado do professor Sylvio Behring e de Márcio Corleta, que segundo ele foi campeão mundial na faixa-preta em 2001, ano da primeira viagem dele aos Estados Unidos. O que fica da conversa é um campeão que perdeu o título para a própria cabeça e que voltou a querer lutar só depois de aprender a parar.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.