Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · William Carmona
William Carmona conta como treinos na pandemia deram origem ao BJJBet
O criador do evento fala da luta de Werdum que caiu, da montagem do GP e da regra sem vantagem.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 26 jul 2021 (1:01:28).
Com as academias fechadas na pandemia, um grupo de faixas-pretas passou a treinar na casa de um amigo em São Paulo, três vezes por semana. Tinha Leandro Lo, tinha Buchecha, e tinha muita reclamação: sem campeonato, sem evento, sem trabalho. Dali saiu o BJJBet. Quem contou foi o criador do evento, o advogado e faixa-preta William Carmona, no B-Cast do Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, dias antes da terceira edição.
Assisti à conversa e gostei de ver um organizador falando com franqueza de coisa que pouca gente conta: luta que cai, atleta que escolhe adversário, a luta com o Werdum que não aconteceu e por que o evento não tem vantagem.
Do UFC em fita cassete à faixa-preta
O William contou que sempre gostou de luta. Fez taekwondo, gostava de boxe, e aos 14 ou 15 anos um primo faixa-roxa chegou em casa com uma fita de vídeo do primeiro UFC, aquele em que Royce Gracie ganhou de todo mundo. Foi o suficiente.
Ele começou a treinar em 1994 ou 1995 na equipe liderada por Valdomiro Júnior, em Moema. Ali treinavam Roberto Godoy, que tinha acabado de pegar a faixa-marrom, e Jorge Patino, o Macaco, ainda faixa-azul. O William morava na zona leste e pegava dois ônibus para treinar. Trabalhava desde os 11 anos e estudava, então a constância só veio quando Godoy e Macaco abriram a própria academia e uma filial perto da casa dele.
Ele disse que o melhor momento como competidor foi na faixa-roxa, lutando no pesado e no absoluto numa geração dura. Recebeu a faixa-preta do Macaco em 2006, mas já tinha feito o último Mundial em 2004, quando a advocacia apertou.
“Resolvi focar mesmo no escritório e acabei deixando o jiu-jitsu como a nossa terapia, nosso hobby.”
William Carmona, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:29:28
O treino na casa do Fábio Romão
Em 2020, com tudo fechado, o amigo Fábio Romão, faixa-preta e ex-rival do William em finais na faixa-roxa, montou um tatame em casa. Segundo o William, o treino cresceu até virar rotina de segunda, quarta e sexta, com gente como Leandro Lo e Buchecha. Depois do treino ficava a resenha, e nela os atletas reclamavam de não ter onde lutar.
Ele contou que a ideia amadureceu com o sócio, um amigo que mora nos Estados Unidos e que já tinha sido professor dele numa filial da Godoy Macaco. Conversaram entre maio e julho e o primeiro evento saiu em setembro. Hoje, segundo ele, são quase dez pessoas trabalhando direto no BJJBet.
O William também falou do lado pessoal. O escritório dele tem uns 200 funcionários e estava todo em home office. Ele disse que andava numa fase ruim de cabeça e que a mulher dele agradeceu quando surgiu o projeto.
A luta com o Werdum que caiu
O apresentador Arthur lembrou que a luta principal da primeira edição seria Fabrício Werdum contra Buchecha. O William contou os bastidores: o Buchecha já queria ir para o MMA, mas não tinha luta marcada, e topou a ideia de lutar com alguém de fora do circuito. O Werdum é amigo do sócio do William e a luta fechou. Aí o Buchecha recebeu um convite nos Estados Unidos, ligado a um camp de Daniel Cormier, e depois machucou o joelho. A luta caiu.
O Werdum, segundo ele, assinou depois com o PFL, mas as portas continuam abertas. E a ideia de trazer gente do MMA segue: foi por isso que Toquinho entrou no GP sem kimono da terceira edição.
Como se monta um card
O William foi sincero sobre a parte mais difícil. Muitos atletas escolhem adversário, e depois de fechar a luta é torcer para ninguém se machucar. Ele montou o GP como um confronto de gerações: Leandro Lo, que segundo ele não lutava sem kimono desde o ADCC de 2017, Lucas Hulk, Toquinho, o americano William Tackett, Rafael Paganini, que ele apresentou como campeão brasileiro absoluto sem kimono de 2019, Sérvio Túlio, que ganhou a vaga num evento regional parceiro, Mica Galvão e Maurício Oliveira.
O Arthur lembrou que o BJJBet libera a chave de calcanhar desde a primeira edição, o que deixava o Toquinho, nas palavras dele, perigoso de qualquer posição. A notícia da noite também saiu ali: a Sayuri machucou o joelho e a Jéssica Caroline, de Niterói, aceitou lutar contra a Duda Tozoni com poucos dias de aviso.
A luta que mais animava o William era Gabi Pessanha contra Tayane Porfírio. Ele contou a história da Gabi, criada no projeto do Marcinho na Cidade de Deus, que vendia cookies para pagar a primeira viagem internacional ainda faixa-azul e voltou campeã mundial. Sobre a Tayane, disse que ela estava três anos sem competir, tinha perdido mais de 40 quilos e treinava às cinco da manhã na praia. Ele a trouxe para o Brasil em fevereiro para um evento em março que precisou ser cancelado.
Sem vantagem e sem aposta de verdade
Sobre as regras, o William foi direto. Não tem vantagem: empatou, vai para a prorrogação. E ele avisa cada atleta que contrata.
“Se você vier ganhar amarrando, eu não te chamo mais.”
William Carmona, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:58:49
Ele lembrou que, na primeira edição, as duas lutas que terminaram 2 a 0 tiveram 15 minutos de movimento, uma delas Xande Ribeiro contra Wagner Rocha. E explicou o BJJ Pics: como aposta ainda não é legalizada no Brasil, o evento criou um jogo de palpites no estilo Cartola, liberado para quem compra o pay-per-view, com prêmios de até 5 mil reais.
O que fica da entrevista é a imagem de um evento que nasceu de uma roda de amigos parados pela pandemia e virou empresa. O William continua advogado, continua treinando todo dia e diz que o jiu-jitsu salvou a cabeça dele naquele ano.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.