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Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Xande Ribeiro

Xande Ribeiro marca aposentadoria e explica a saída da Ribeiro Jiu-Jitsu

Numa conversa rápida em São Paulo, o multicampeão falou do último Mundial, da preparação que nunca trocou pelo treino e da criação da Six Blades.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 22 nov 2020 (0:29:35).

Xande Ribeiro já tem data para parar. Numa live gravada no lançamento de uma plataforma de vídeos em São Paulo, ele contou que o Mundial de kimono do ano seguinte seria o último da carreira e que a ideia era se despedir das competições de elite em 2022, com 41 anos, depois de lutar também o ADCC. Na mesma conversa, explicou por que saiu da Ribeiro Jiu-Jitsu, a equipe que construiu ao lado do irmão, para tocar a Six Blades.

A entrevista é curta, menos de meia hora, e o apresentador passa boa parte dela dizendo que é fã do Xande. Mesmo assim, vale a pena. Assisti e o que mais me chamou atenção foi a forma como ele fala de preparação: sem receita mágica, com muito jiu-jitsu e cuidado com o corpo desde cedo.

“Eu peguei minha faixa-preta em 2002 e vim embora.”

Xande Ribeiro, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:05:46

Vinte anos nos Estados Unidos

O Xande começou respondendo a uma crítica que, segundo ele, ouve muito: a de que fala mais inglês do que português. Ele lembra que mora nos Estados Unidos há 20 anos e que saiu do Brasil logo depois de receber a faixa-preta, em 2002. Na conta dele, nem chegou a ter uma vida de faixa-preta no Brasil.

Ele contou que começou no tempo do tatame de pano com cheiro de palha e que, fora do jiu-jitsu, fez faculdade de Direito. Hoje, diz, o assunto do jiu-jitsu virou também negócio, e ele gosta de ver o esporte apresentado com qualidade de produção, coisa que quase não existia quando ele competia.

Nessa parte ele fez uma observação que achei certeira para quem gosta de história. Segundo o Xande, o jiu-jitsu tem memória curta. Quem não está na internet o tempo todo acaba perdendo relevância, e por isso ele acha importante registrar e catalogar a história do esporte para que possa ser consultada depois.

“O jiu-jitsu tem a memória curta.”

Xande Ribeiro, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:07:23

Ele revelou que guarda horas de fitas antigas, gravadas por ele mesmo antes da faixa-preta, com muita brincadeira na frente da câmera. Também disse que seria um sonho ver remasterizado o material do Paquetá, que na opinião dele tem muita história para contar. Brincando, lembrou que na geração dele havia o Roger Gracie para bater de frente com ele, e lamentou que aquela época não tenha sido registrada como poderia.

O último Mundial e a despedida em 2022

O apresentador lembrou uma brincadeira antiga do Xande, a de que só pararia de competir quando passassem a guarda dele de novo. Ele riu e disse que foi isso mesmo, uma brincadeira, que até ajuda a vender os produtos. O plano de verdade é outro.

Segundo o Xande, o Mundial de kimono seguinte marcaria 20 anos dele no Mundial de faixa-preta. Ele contou que precisava fazer uma cirurgia no punho e que o ADCC tinha sido adiado. A aposentadoria, explicou, é das competições de elite: ele estava a dois meses de fazer 40 anos e acha que ainda tem saúde para fazer uma luta casada com qualquer um do peso dele. O plano era parar em 2022, com 41 anos.

Ele deixou claro que continua à disposição de quem quiser convidá-lo para eventos. Só não pretende mais encarar a rotina de quem briga por título mundial.

Yoga, paleo e nada de trocar o treino pela academia

Perguntado sobre como chega aos 40 competindo em alto nível, o Xande citou primeiro o irmão, Saulo Ribeiro, que ele chama de mentor e de cara inteligentíssimo em preparação. Segundo ele, sempre treinou de forma inteligente, sabendo qual era o objetivo de cada treino. Treinar até cansar nunca funcionou para ele.

O primeiro contato com a yoga, contou, foi aos 18 anos, com Álvaro Romano. Desde então ele valoriza a qualidade de movimento e a mobilidade mais do que o volume ou a intensidade. O Xande também falou do estresse como inimigo do atleta e da importância de descansar. Ele revelou que se machucou sério muito cedo, com 18 ou 19 anos, antes de passar para a faixa-marrom, e que desde então cuida muito do corpo.

“É melhor dar um passo para trás para poder pular mais longe.”

Xande Ribeiro, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:16:49

Na alimentação, ele segue a linha paleo, com comida que vai da natureza para a mesa e pouco industrializado. Mas não abre mão do sorvete e da pizza. Segundo o Xande, ficar feliz sempre fez parte da carreira dele. Ele contou ainda que nunca perdeu muito peso para lutar e que competiu no meio-pesado sem sofrer na balança.

A parte mais forte da conversa veio quando ele falou de preparação física. O Xande reconhece que o jiu-jitsu hoje é muito mais profissional, com educadores físicos focados no esporte. Ainda assim, na opinião dele, a preparação física serve para deixar o corpo pronto para aguentar o volume de treino e se recuperar rápido. A força para lutar vem de lutar.

“A melhor preparação para o jiu-jitsu é o jiu-jitsu.”

Xande Ribeiro, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:19:29

“Eu nunca troquei um treino de jiu-jitsu eficiente por uma marombada.”

Xande Ribeiro, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:21:06

Por que ele criou a Six Blades

No fim, o apresentador pediu que ele falasse da Six Blades. O Xande explicou que fez negócio com o irmão por muito tempo e que chegou a hora de seguir o próprio caminho. Eles têm a mesma base e são da mesma família, disse, mas havia muita discordância sobre para onde levar a empresa.

“Chegou a hora de seguir meu próprio caminho.”

Xande Ribeiro, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:22:07

Ele fez questão de dizer que não houve briga. Segundo o Xande, durante muito tempo foi ele quem trouxe muita gente para a Ribeiro, e continua dando suporte ao pessoal de lá, que são todos amigos. Na opinião dele, ele e o Saulo formam a dupla de irmãos mais vitoriosa do jiu-jitsu, e o jiu-jitsu Ribeiro é dos mais eficientes que existem.

A Six Blades, contou, já nasceu grande, e montar uma equipe no meio da pandemia exigiu investimento para apoiar academias fechadas. O modelo que ele quer é o de um negócio do qual consiga se aposentar um dia, com as pessoas certas nas posições certas. Se há algo que ele não sabe fazer, terceiriza. Ele citou até uma sócia na academia com quem discute cada detalhe, inclusive a cor das paredes.

O que fica da conversa

Para mim, o que fica é a coerência do Xande. O cara que passou 20 anos no topo diz que o segredo foi treinar jiu-jitsu com inteligência, descansar e ser feliz no caminho. E, agora que pensa em parar, está preocupado com duas coisas que interessam a todos nós: montar algo que dure e deixar a história do esporte registrada para quem vem depois.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.