Pura Connection · Alex Atala
Alex Atala conta como uma briga com o filho o levou de volta ao jiu-jitsu
O chef faixa-preta fala de Marcelo Behring, Fábio Gurgel, Demian Maia e do kimono que leva pelo mundo.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 21 out 2021 (1:28:07).
O chef Alex Atala é conhecido no mundo inteiro pela cozinha brasileira e pelos ingredientes da Amazônia. O que pouca gente sabe é que ele é faixa-preta de jiu-jitsu, treina com os filhos e leva o kimono em quase toda viagem. Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi o jeito como ele voltou para o tatame: para resolver uma briga de pai e filho dentro de casa.
A entrevista fala muito de comida, de negócio e de pandemia. Mas o fio que costura tudo, segundo o próprio Atala, é a luta. Ele contou que foi um garoto problemático, brigão, que trabalhava à noite como DJ de boate e que tinha tudo para dar errado.
“Eu era aquele cara que tinha tudo para dar errado na vida.”
Alex Atala, no Pura Connection · 0:30:41
Ele explicou que tinha muita energia e que ela não tinha foco. Com os anos, a luta começou a mudar isso. Depois veio a cozinha, que na geração dele era quase militar, e a disciplina de uma coisa foi encontrando a disciplina da outra.
O começo em São Paulo e a pausa para a cozinha
Atala contou que conheceu Marcelo Behring ainda garoto, em São Paulo, numa situação que ele mesmo chamou de inusitada. Começou a treinar com ele, mas não conseguiu continuar. A vida era dura, ele morou fora do Brasil por muitos anos e precisava se firmar na profissão.
Ele disse que não lamenta a pausa. Foram os anos na cozinha que fizeram a vida dele virar. Mas o jiu-jitsu ficou na cabeça, porque os amigos em comum continuavam nesse meio. Segundo ele, quando começou a treinar o jiu-jitsu em São Paulo era uma cena muito pequena, e dez anos depois tinha tomado conta da cidade.
A briga em casa que levou pai e filhos para a academia
A volta tem uma história boa. Atala contou que em casa existia uma brincadeira de pai e filho: de tempos em tempos rolava um confronto e ele colocava ordem na casa. Um dia o filho mais velho, Pedro, então com 16 anos, resolveu encarar. Foi aí que o pai decidiu resolver a questão no lugar certo.
“A gente nunca lutou para isso, então vamos acabar com essa conversa hoje. Segunda-feira nós vamos para a academia.”
Alex Atala, no Pura Connection · 0:07:35
Ele procurou o amigo Fábio Gurgel, que conhecia desde quando Fábio chegou a São Paulo. Atala contou que aprendeu muito com ele e que fez o primeiro curso de gestão de academia que Fábio deu em São Paulo. Nas palavras do chef, Fábio tem uma vontade de dividir conhecimento acima da média.
Depois, por indicação de um amigo, foi treinar com Demian Maia. Segundo Atala, eles viraram amigos há pouco mais de dez anos, viajam juntos e os filhos dele também treinaram com Demian. Ele descreveu o lutador como um cara inteligente, com uma visão muito especial, e um grande lutador.
Hoje a família toda treina. Pedro mora na Califórnia, está mais no surf e no skate, mas segue treinando. O mais novo, com 19 anos, está no muay thai. E o pai continua trocando com eles de vez em quando. "É bem divertido trocar porrada com os filhos", resumiu.
A faixa-preta que abre portas pelo mundo
Atala viaja o mundo cozinhando e contou que leva o kimono para onde vai: Dinamarca, Suécia, Austrália, Nova Zelândia, Japão. Na época da gravação ele estava indo para a Rússia, ainda se recuperando de uma cirurgia, sem treinar forte, mas com o kimono na mala.
Ele disse que a orelha denuncia o lutador e que isso muda a conversa até com autoridade.
“Às vezes eu chego na alfândega com a orelha estourada e o próprio guardinha já começa uma conversa diferente.”
Alex Atala, no Pura Connection · 0:15:44
Segundo ele, o agente pergunta se ele é lutador, ele responde que é faixa-preta de jiu-jitsu e a história muda completamente. Contou também que foi parado numa blitz da polícia e que, quando o policial viu que ele era faixa-preta, a abordagem ficou tranquila.
Atala lembrou que em São Paulo, nos anos 90, o jiu-jitsu ficou marcado pela figura do pitboy, da briga de rua. Para ele, até aquele momento teve ponto positivo, porque popularizou a luta. E hoje a imagem é outra.
Faixa-branca de novo depois de famoso
A parte que mais me pegou como professor foi quando ele falou da volta ao tatame depois de já ter prestígio na cozinha, prêmios e nome no mundo. Segundo Atala, recomeçar do zero foi um choque.
“Aí começa um exercício de humildade.”
Alex Atala, no Pura Connection · 0:33:18
Ele disse que no fim do dia você é só mais um faixa-branca, e que isso é bom. Da luta ele tirou uma frase que repete em entrevista sobre liderança, pressão e negócio: saber controlar o medo e ficar ativo no aperto.
“Encontrar conforto no desconforto.”
Alex Atala, no Pura Connection · 0:34:24
Segundo ele, o jiu-jitsu levou para a vida mais confiança, menos medo e mais coragem. E contou que usou essas ferramentas na pandemia, quando os restaurantes pararam, as mudanças foram profundas e ele precisou segurar a equipe.
Apagar no treino e confiar no parceiro
Atala falou da verdade do jiu-jitsu com um exemplo recente. Contou que foi estrangulado e apagou num treino, num domingo, dias antes da gravação.
“Se não bater, vai dormir. Aconteceu comigo agora, domingo.”
Alex Atala, no Pura Connection · 0:25:54
Ele deixou claro que não recomenda isso a ninguém, mas disse que a experiência mostra como a luta é real: você apaga mesmo. E aí entra o outro lado, a confiança no parceiro que naquele momento cuida de você.
Ele citou ainda um estudo de um pensador que, segundo ele, observou que nas artes marciais o corpo registra o treino como combate, com dor e vitória. No jiu-jitsu, mesmo sendo tão contundente, o corpo e a mente registrariam aquilo como um jogo, com confiança. Para Atala, é por isso que no fim do treino tem resenha, criança e adulto juntos, todo mundo bem.
O que fica da conversa é um chef famoso falando do tatame com o mesmo respeito com que fala da cozinha. Ele chegou na luta pela energia de garoto brigão, voltou por causa dos filhos e ficou pela humildade. A história dele mostra que o tatame serve para qualquer pessoa.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.