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Podcast Nem Me Viu · Marcus Almeida

Buchecha admite o erro que custou a revanche contra Roger Gracie

No Nem Me Viu, o dono de 13 títulos mundiais conta como tratou a segunda luta com Roger, por que foi para o MMA na pandemia e como quase largou tudo em 2011.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 3 fev 2023 (2:31:04).

Marcus Buchecha tem 13 títulos mundiais de jiu-jitsu na faixa-preta, mas no Nem Me Viu ele falou com uma franqueza rara de uma das derrotas mais comentadas da carreira. Segundo ele, perdeu a revanche contra Roger Gracie porque fez com o Roger exatamente o que acusava o Roger de ter feito com ele na primeira luta: não levou o compromisso a sério.

Assisti à conversa com o Fabrício Werdum e esse trecho me pegou. O Buchecha contou também como a pandemia o empurrou para o MMA, como o primeiro ano no octógono foi frustrante e como quase largou o jiu-jitsu aos 20 anos, antes de um prêmio curioso num campeonato em Brasília.

As duas lutas com Roger Gracie

O Buchecha contou que, quando recebeu o convite para a primeira luta, ficou com a impressão de que o Roger achava que ia ganhar fácil. Era uma luta de 20 minutos, só por finalização. Ele diz que treinou como um louco: no fim de cada treino ainda fazia cinco minutos com cada parceiro até fechar os 20 minutos, às vezes em dois rounds. Enquanto isso, conta, via no Instagram o Roger fazendo camp com a família, treinando, mas não no mesmo ritmo.

A luta terminou empatada. Segundo o Buchecha, ele raspou, pegou as costas e chegou perto de finalizar numa chave de pé e num armlock.

“Eu fui melhor na luta. Não ganhei porque não finalizei, a regra.”

Marcus Almeida, no Podcast Nem Me Viu · 1:31:15

Na segunda vez, a situação se inverteu. O Buchecha tinha acabado de ganhar o décimo título mundial e a luta estava marcada para três semanas depois. Ele conta que o Roger passou o ano inteiro treinando pensando naquela luta, enquanto ele encarava como mais uma. Depois de um Mundial, diz, o corpo e a cabeça pedem um mês sem fazer nada. Ele ficou uma semana parado e voltou treinando rounds de 15 minutos, bem menos do que fazia.

“O que ele fez comigo eu fiz com ele na última.”

Marcus Almeida, no Podcast Nem Me Viu · 1:31:45

Segundo o Buchecha, nas duas primeiras tentativas de queda ele já sentiu que ia dar ruim. O Roger foi crescendo e finalizou. A ideia era fazer uma melhor de três, mas o Roger se aposentou ali mesmo. O Buchecha faz questão de dizer que nunca o desafiou depois e que considera o Roger, talvez, o melhor da história. Ele lembra que, quando começou a competir, o Roger já era o recordista, com 10 títulos, e que só pensou em alcançá-lo quando chegou ao sétimo ou oitavo.

O carro que era um carrinho de feira

Antes da fama, o Buchecha pensou em parar duas vezes. Uma na faixa-azul, depois de perder pela décima vez. A outra em 2011, quando perdeu o primeiro Mundial de faixa-preta. Ele conta que chorou muito, tinha 20 anos, estava sem carro e ia prestar vestibular.

Foi aí que apareceu um campeonato em Brasília com um carro zero de prêmio para o absoluto. Segundo ele, o Rodolfo Vieira tinha ganhado um Palio no ano anterior. O Buchecha treinou como louco, lutou um dos campeonatos mais duros da vida e venceu. Na premiação, o carro era uma espécie de perua com a caçamba aberta, um carrinho de feira. O joelho dele não cabia embaixo do volante. O próprio patrocinador ofereceu comprar o carro na hora, e ele vendeu ali mesmo.

O Buchecha também credita aos pais a chegada à faixa-preta. Ele conta que pedalava 10 quilômetros para ir e 10 para voltar da academia, e que a família às vezes cobrava onde estava o dinheiro dos títulos.

“É o que você faz no escuro que te coloca na luz.”

Marcus Almeida, no Podcast Nem Me Viu · 1:17:08

A pandemia e o caminho até o MMA

O Buchecha defende que um lutador de jiu-jitsu de verdade precisa se testar com e sem quimono, e que o MMA é o lugar onde o jiu-jitsu é testado numa situação real. Ele conta que já planejava uma pausa no jiu-jitsu quando veio a pandemia. Sem campeonatos, decidiu usar o tempo para o MMA.

Segundo ele, o primeiro passo foi o camp de Daniel Cormier para a última luta do americano contra o Miocic, na Califórnia. Foi lá que ele fez o primeiro sparring da vida, justamente com o Werdum. O Buchecha lembra que nunca tinha feito uma aula de muay thai, tomava chute na perna e rodava como um pião.

Depois veio a mudança para a Flórida. O Cara de Sapato ofereceu a casa dele e o levou para a American Top Team, onde, no primeiro dia, ele encontrou 10 a 15 pesos-pesados treinando juntos. Assinou com o ONE Championship e, segundo conta, fez quatro lutas em 11 meses, com três finalizações e um nocaute técnico. Uma das finalizações foi uma chave de calcanhar num adversário que tinha acabado de disputar o cinturão.

“O primeiro ano meu jiu-jitsu não funcionava lá.”

Marcus Almeida, no Podcast Nem Me Viu · 0:51:22

Ele explica que treinava com caras muito bons de wrestling e não conseguia cair nas costas, que era sua melhor posição. Diz que se espelhou no Werdum, que fazia muita guarda sem apanhar por baixo. Hoje, segundo ele, o jiu-jitsu melhorou muito em relação à época em que só lutava de quimono. O mestre continua sendo Léo Vieira, que recebe os vídeos de todos os sparrings. Na American Top Team, ele cita Conan Silveira acompanhando os treinos.

Rivais que viraram amigos

Na parte final, o Buchecha falou de gente que marcou a carreira dele. Chamou o Rodolfo Vieira de maior rival e disse que foi quem o fez evoluir, porque foi para ele a primeira derrota num absoluto de Mundial, em 2011, com finalização. Hoje os dois treinam juntos na Flórida. Ele lembrou das viagens de seminário com o Rodolfo e o Leandro Lo.

Sobre o Cara de Sapato, contou que se conheceram aos 17 anos num Brasileiro de Equipes, perdeu para ele na faixa-azul em 2008 e depois moraram juntos na Califórnia, em 2012, na casa do Lucas Leite. Segundo o Buchecha, foi lá que os drills diários, no calor, mudaram o jiu-jitsu dele.

Ele também contou que se machucou feio em 2015, numa luta com o Ricardo Evangelista: rompeu três ligamentos do joelho. O médico falou em 10 a 12 meses de recuperação. Ele voltou em sete, contra a indicação, e ganhou peso e absoluto no Mundial.

O que fica da conversa é um campeão que olha para trás sem pose. O Buchecha admite a preguiça dos últimos anos de jiu-jitsu, quando já sabia o que ia fazer em cada luta, e diz que no MMA voltou a ver evolução todo dia.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.