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Dos Nossos Podcast · Cara de Sapato

Cara de Sapato finaliza no PFL após dois anos parado e duas cirurgias

No Dos Nossos Podcast, o campeão do PFL de 2021 contou ao Werdum como rompeu o joelho, passou a noite sem dormir antes da volta e ganhou no primeiro round.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 4 min de leitura

Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 16 abr 2024 (1:22:11).

O Cara de Sapato passou quase dois anos sem lutar, fez duas cirurgias no mesmo joelho e, na noite anterior à volta, não conseguiu dormir. Mesmo assim finalizou o adversário no primeiro round e somou a pontuação máxima na temporada do PFL. Ele contou tudo isso ao Fabrício Werdum no Dos Nossos Podcast, gravado poucos dias depois da luta, ainda com jet lag.

Assisti à conversa e gostei da franqueza. O Sapato falou do joelho em detalhes, do medo de voltar, do perrengue no aeroporto e também de um assunto difícil fora do octógono, que se resolveu na mesma semana da luta.

O joelho que estourou no treino

Segundo ele, a história começa na temporada de 2022. Ele tinha sido campeão do PFL em 2021, vinha de um camp na Tailândia e estava confiante. Uma semana antes da primeira luta, teve uma lesão parcial do ligamento cruzado anterior do joelho direito. O esquerdo ele já tinha operado em 2020.

Os médicos se dividiam entre operar logo ou tentar a fisioterapia. Ele decidiu lutar, e lutou com joelheira nas duas pernas para o adversário não descobrir qual estava ruim. Ganhou em uns 27 segundos, contou. Depois fez mais fisioterapia do que treino, venceu outra luta apertada e, no meio da preparação para a seguinte, o joelho cedeu de vez.

“Daqui a pouco só aquele barulho, um barulho muito alto, a galera que tava do outro lado ouviu.”

Cara de Sapato, no Dos Nossos Podcast · 0:05:13

Segundo o Sapato, o ligamento, que já estava 80% rompido, foi de vez, junto com lesão na cartilagem e no menisco. A perna não esticava nem dobrava. Ele fez a reconstrução com enxerto e uma sutura no menisco, mas o menisco não cicatrizou, e numa segunda cirurgia tiraram 80% dele. Por isso ficou fora da temporada de 2023.

Uma noite sem dormir e uma finalização

Ele contou que foi a primeira vez na carreira que não dormiu entre a pesagem e a luta. Eram quase dois anos parado, e a ansiedade não deixou. Às 4 da manhã, horário de Las Vegas, ainda estava acordado. Mandou mensagem para o Cigano, que ligou e contou uma história parecida: antes de enfrentar o Cro Cop, que era ídolo dele, também não dormiu e não conseguia comer, e o Dórea empurrava comida. O Cigano nocauteou o croata.

O adversário era o Simon Biyong, que o Sapato descreveu como um cara de quase dois metros, com envergadura enorme e muito forte. Ele disse que gosta de lutar na distância longa ou grudado, e que um cara tão comprido complica. A finalização, a especialidade dele, saiu com 4 minutos e 34 segundos do primeiro round. Antes da luta, contou, alguém tinha dito a ele que a luta ia durar 26 segundos. Acabou faltando exatamente 26 segundos para o fim do round.

No PFL, explicou, a vitória vale três pontos e a vitória no primeiro round vale mais três. Com seis pontos, ele chega mais tranquilo à segunda luta da fase de classificação, que leva quatro de dez atletas aos playoffs.

Na luta, estavam com ele o King Mo, que segundo o Sapato foi o primeiro a recebê-lo nos Estados Unidos para ensinar wrestling, o professor de boxe Gabriel de Oliveira e o Conan, head coach da American Top Team.

A outra vitória da semana

“Uma mentira contada várias vezes se torna uma verdade, e você termina acreditando.”

Cara de Sapato, no Dos Nossos Podcast · 0:31:51

Segundo ele, no começo se sentia muito culpado e foi atrás de entender o que tinha acontecido: quis ver as imagens e conversar com pessoas do movimento feminista. O que tirou o peso, contou, foi falar com a Dania, a participante mexicana envolvida, e com a família dela, que só teve palavras boas para ele.

Do TUF ao Buchecha

Sobre a cabeça do lutador, o Sapato lembrou do TUF. Ele entrou como peso-pesado pesando uns 94 quilos e enfrentou caras de 116. Tinha cerca de um ano de MMA, embora já treinasse jiu-jitsu, e pouco tempo de boxe. Segundo ele, o trabalho mental do Dórea e os treinos com gente muito boa o fizeram acreditar que ganharia de todo mundo. O treinador dele no programa foi o Wanderlei Silva, que o escolheu primeiro para o time.

“Hoje eu tô infinitamente melhor do que eu era naquela época que eu ganhei o TUF, mas talvez tenha mais dúvidas.”

Cara de Sapato, no Dos Nossos Podcast · 0:44:52

A luta em que mais se machucou, contou, foi contra o Uriah Hall, que quebrou o nariz dele com um direto nos primeiros segundos. Ele perdeu por decisão dividida e acha até hoje que venceu. Segundo ele, depois do nariz quebrado ele dominou o primeiro round, mas o sangue impressionou, e dois juízes deram aquele round ao Hall. Tirando esse dia, disse, nunca foi de sair das lutas inchado ou machucado.

No meio da conversa, o Werdum ligou ao vivo para o Buchecha, treze vezes campeão mundial de jiu-jitsu, que treina todo dia com o Sapato na Flórida. O Buchecha disse que não tinha dúvida da vitória, porque o amigo, quando pega as costas, é difícil de tirar. Os dois lembraram também do Leandro Lo, oito vezes campeão mundial, morto em 2022, e o Sapato contou que o Buchecha chegou a dar um título ao Leandro quando o amigo estava machucado no ombro.

Para fechar, o Sapato disse que o sentido da vida é achar e cumprir o seu propósito. Depois de dois anos em que sentiu falta de alguma coisa, ele parece ter reencontrado o dele no cage.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.