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Pura Connection · Carlão Barreto

Carlão Barreto conta como substituiu Vitor Belfort às pressas no Japão

Ainda faixa-marrom, ele soube no aeroporto que faria a luta do Vitor, e Carlson Gracie já tinha desenhado como ia terminar.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 6 jun 2022 (1:25:16).

Carlão Barreto estava no aeroporto de Los Angeles, a caminho do Japão, quando Carlson Gracie deu a notícia: Vitor Belfort não ia conseguir viajar por causa do visto, os japoneses não abriam mão da luta e o substituto tinha de ser um aluno do Carlson. Ele olhou para o Carlão e disse que era com ele. O adversário era um russo com cerca de 30 lutas, tido como o bicho-papão da época.

O Carlão ainda era faixa-marrom e nunca tinha pensado em lutar vale-tudo. Assisti à conversa dele no Pura Connection e essa é a história que amarra todas as outras: como um garoto que começou tarde no jiu-jitsu foi parar num ringue no Japão, e o papel do Carlson nisso.

Um lutador por acaso

Segundo o Carlão, o plano era outro. Ele queria a faixa-preta de jiu-jitsu, a de judô, terminar a faculdade de Educação Física e abrir uma academia. Tinha começado no jiu-jitsu com 19 anos, tarde, e por isso treinava duas vezes por dia.

O vale-tudo apareceu porque um amigo, Sérgio Ferrari, o chamou para ajudar na preparação de Amaury Bitetti, Zé Mário Sperry e Murilo Bustamante, que precisavam de alguém grande para treinar. Sem kimono, ele foi se dando bem naturalmente. Um dia alguém perguntou quem queria lutar, e ele levantou o braço. O próprio Carlão conta que se assustou com o gesto, porque aquilo nunca tinha sido o objetivo.

Ele faz questão de explicar o que o vale-tudo significava naquela época. Ninguém lutava pelo dinheiro, que só veio depois. O lutador de jiu-jitsu entrava para defender a arte contra a luta livre, o boxe ou quem fosse, pensando em Carlos, Hélio e em toda a família Gracie que construiu aquilo.

“Quando você entrava para defender o jiu-jitsu, você não tava lutando por você.”

Carlão Barreto, no Pura Connection · 0:14:51

Um mês na casa do Carlson

Antes de deixar o aluno estrear, contou o Carlão, o Carlson exigiu que ele passasse um tempo com ele nos Estados Unidos, para conferir se aguentava. Foi cerca de um mês dormindo na casa do mestre e treinando com ele todos os dias. Foi ali, segundo o Carlão, que ele criou uma ligação real com o Carlson, de quem já tinha recebido a faixa-azul anos antes.

Para o Carlão, o Carlson foi o maior treinador que já existiu. Ele batia o olho e fazia um raio-x da pessoa: sabia quem tinha coração e quem não tinha. Uma vez, lembra, o Carlão reclamou que a equipe tinha poucos pesados para enfrentar os gringos de 140 quilos. O Carlson respondeu que, se dez grandes entrassem na academia, ele aproveitaria um. Se dez pequenos entrassem, aproveitaria nove, porque o pequeno que enfrenta o leão vai por coragem pura.

O Carlão também fez uma reflexão sincera: acha que a relação de amizade que o Carlson criava com os alunos às vezes atrapalhou, porque algumas pessoas passavam do limite com ele. Mesmo assim, diz que usa até hoje como professor muito do que aprendeu com o mestre.

A luta que Carlson desenhou

No aeroporto, o Carlão diz que estava tão confiante no jiu-jitsu e nos parceiros de treino que devolveu a pergunta ao Carlson: quem tinha de dizer se ele estava pronto era o mestre. A resposta veio na hora.

“Ninguém vai passar sua guarda, e te digo mais: você vai finalizar ele.”

Carlson Gracie, no Pura Connection · 0:35:17

O russo era especialista em chave de pé, algo que pouca gente treinava no jiu-jitsu da época. Segundo o Carlão, o Carlson descreveu a luta antes de ela acontecer. No primeiro round, era para ele puxar para a guarda. O russo tentou o pé duas ou três vezes, e o Carlão defendeu. No intervalo, o Carlson mandou mudar: nada de guarda, agora era defender a queda e finalizar. O russo entrou, não conseguiu derrubar, se frustrou, e o Carlão pegou as costas, montou e finalizou.

Hoje ele chama isso de visualização. O Carlson, diz o Carlão, blindou a mente dele antes da luta, sem nunca ter estudado nada disso.

Bolão, Murilo e a formação de um campeão

O Carlão credita a formação dele a dois professores. Depois de parar um tempo por estudo, trabalho e lesão, ele voltou e foi treinar na academia que Bolão tinha acabado de abrir. Segundo o Carlão, o Bolão é um professor de fundamentos, que ensina muito bem e trabalha a técnica com leveza. Quando o Bolão e o Murilo se juntaram num clube no Leblon, o Carlão ficou mais perto do Murilo, que trouxe a visão de competição e de luta.

Foi a soma dos dois, diz ele, que mudou a cabeça dele entre a faixa-roxa e a marrom. E foi nessa época que passou a treinar perto de gente que antes só via de longe, como Zé Mário, Amaury, Allan Góes, Libório e Wallid.

O pedido de desculpas a Dean Lister

O momento mais bonito da entrevista, para mim, foi uma confissão. O Carlão contou que, anos depois, reencontrou Dean Lister nos Estados Unidos, já famoso. O americano lembrou que, quando era faixa-azul, veio treinar no Brasil e foi colocado para rolar com o Carlão, que se preparava para o vale-tudo. Não conseguiu fazer nada, e ouviu do Carlão que não sabia nada.

“Me perdoa, cara. Eu era muito arrogante.”

Carlão Barreto, no Pura Connection · 1:11:48

Segundo o Carlão, o Dean disse que a frase o machucou, mas virou aprendizado. O Carlão diz que naquela época achava que o sucesso era ele, e que hoje pergunta aos alunos quem eles são quando tiram a medalha do peito.

Por isso ele está escrevendo um livro sobre as próprias derrotas, uma por uma, com o que aprendeu em cada uma, sem vitimismo. Ele também diz que estuda jiu-jitsu uma hora por dia, vendo campeonato e aula de todo mundo, e que se diverte com a didática de Rener e Ryron Gracie. Para quem acha que berimbolo estragou tudo, o recado dele é curto.

“Toda posição funciona. Depende da hora que você vai usar.”

Carlão Barreto, no Pura Connection · 1:00:49

Saí da conversa com a sensação de ter ouvido um cara que viveu o vale-tudo do jeito mais duro e que hoje está mais preocupado com o professor que xinga árbitro na beira do tatame do que com medalha. Vindo de quem estreou no Japão no lugar do Vitor Belfort, o recado pesa.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.