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Pura Connection · Celsinho Venícius

Celsinho Venícius conta como quase largou o jiu-jitsu antes de ser campeão

Do moleque que só apanhava dos adultos na academia do Gordo ao professor que enfrentou a depressão pedindo uma luta, o peso leve abre a vida no Pura Connection.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 25 abr 2022 (1:38:19).

Celsinho Venícius ganhou tudo na faixa-azul e mesmo assim quase largou o jiu-jitsu. Segundo ele, ninguém queria patrocinar, o esporte vivia a fase do pitboy e o moleque da Barra da Tijuca começou a sair, beber e fazer besteira. O pai cobrava faculdade. Quem virou a chave foi um dos irmãos, com uma conversa curta: ou para de vez, ou volta a treinar sério para ser o melhor.

Assisti ao papo do Celsinho no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi como ele fala da própria cabeça. Tem a confiança de quem entrava no tatame achando impossível perder, e tem também o homem que, anos depois, não conseguia sair da cama. As duas coisas estão na mesma conversa, e ele conta as duas sem rodeio.

A única criança no treino dos adultos

O Celsinho contou que começou a treinar na academia do Gordo como a única criança da turma, no meio dos adultos. Tinha uns 50 quilos e só apanhava. Segundo ele, o Gordo prendia o garoto na chave de perna e ele não conseguia sair, mas nunca desistia. De tanto tomar, um dia ficou confortável naquela posição e começou a raspar.

Ele conta que a família tinha uma vida boa na Barra até o pai quebrar, quando ele ainda era adolescente. Nunca faltou comida, mas o Celsinho aprendeu cedo a se virar: trabalhava nos campeonatos, era sparring nas aulas particulares do Gordo, carregou material de obra e vendeu espetinho de churrasco. Saiu de casa aos 20 anos para dar aula na Costa Rica e voltou porque queria a faixa-preta.

“Eu queria provar para os meus pais que eu ia vencer através do jiu-jitsu.”

Celsinho Venícius, no Pura Connection · 0:20:53

Depois da conversa com o irmão, segundo ele, veio a fase boa: ganhou muito entre 2004 e 2007. Aos 24 anos, contou, já era pai e se mudou para São Paulo para tocar a academia do Ryan.

Ninguém passa a minha guarda

O apresentador lembrou que o Celsinho sempre parecia confiante demais, e ele explicou de onde vinha isso. Segundo o Celsinho, antes do campeonato ele repetia sozinho que ninguém ia passar a guarda dele, porque treinava com os melhores e fazia coisas que os outros não faziam. E o Gordo, contou, acreditava nele às vezes mais do que ele mesmo.

“Nunca entrei com a cabeça pensando que teria alguma chance de eu perder.”

Celsinho Venícius, no Pura Connection · 0:06:36

O exemplo que ele deu foi o Mundial de 2004, na faixa-marrom, lutando com a costela machucada. Sem conseguir puxar para a guarda direito, ele pegou um judoca. No canto, o Gordo mandou lutar em pé, porque o cara não ia derrubar ele. O Celsinho contou que derrubou o judoca mais de uma vez, justamente na especialidade dele, e que isso frustrou tanto o adversário que os amigos do cara passaram o resto do campeonato zoando com ele.

O vale-tudo e a amizade com Rafael dos Anjos

O Celsinho contou que treinava vale-tudo com o Gordo desde os 17 ou 18 anos e que, aos 18, recebeu uma proposta para lutar no UFC por 500 dólares. Recusou: depois de pagar empresário e imposto, não sobrava nada, e ele preferiu seguir treinando. A carreira no jiu-jitsu foi andando e o vale-tudo ficou para depois.

A volta veio em 2011, contou, depois de ouvir de um amigo que estava ficando velho e não ia mais lutar. A frase não saiu da cabeça dele. Ele fez seis lutas de MMA. A última que ele contou em detalhe foi uma disputa de cinturão que perdeu na decisão, achando que tinha ganhado. Segundo o Celsinho, o que veio depois da luta tirou o tesão dele pelo vale-tudo.

Nessa parte, ele falou com carinho de Rafael dos Anjos. Segundo o Celsinho, o Rafael treinava com eles e nunca foi o mais talentoso, mas era muito determinado. Ele lembra do dia em que o Rafael chegou para a aula todo roxo depois de uma luta de vale-tudo no Castelo das Pedras. O Celsinho perguntou por que ele se sujeitava àquilo e ouviu que ele precisava do dinheiro e tinha certeza de que um dia seria campeão mundial no peso dele. A resposta do Celsinho foi: se você acredita, continua. O Rafael continuou e, contou ele, chegou lá.

Ele também lembrou a rivalidade com Durinho, com quem trocou lutas quentes na época, e uma cena num aeroporto a caminho do UFC. Vendo Charles do Bronx ainda moleque, disse ao amigo Viscardi Andrade que aquele garoto, com uma estrutura de equipe por trás, seria campeão do UFC.

A luta que ele pediu para sair da depressão

A parte mais pesada da conversa foi 2019. O Celsinho contou que a filha mais velha, então com 12 anos, ficou internada com poucas chances de vida. Foram 18 dias no hospital, dormindo no chão da UTI. Ela sobreviveu e está bem, mas ele caiu numa depressão. Dava as aulas porque não tinha opção, e a vontade era ficar o dia inteiro debaixo do cobertor. Chegou a pedir desculpas aos alunos na festa de graduação do fim do ano.

Ele contou que recusava remédio e que achou a saída do jeito que conhecia: ligou pedindo uma luta. Foi para o combate e, segundo ele, isso ajudou a sair daquele buraco. Depois vieram a pandemia, a academia fechada em São Paulo, a perda de muitos alunos e o pai quase morrendo de covid, com dias de intubação. Ele diz que manteve o salário de todos os funcionários e passou a chegar antes de todo mundo e sair por último.

“Você lembra quando tomava massa de todo mundo na academia e resistiu? Aqui é a mesma coisa.”

Celsinho Venícius, no Pura Connection · 0:29:47

Aos 38, treinando sem cobrança

Hoje, segundo ele, o trabalho é outro: aceitar que não é mais atleta profissional. O Celsinho contou que continua treinando duro, mas quer se divertir e não se cobrar para vencer todo treino. Ele contou que Roger Gracie já apareceu na academia, que Minotauro treinou lá um bom tempo e que a nova geração passa para rolar, como o Buchecha e o Erich Munis. O exemplo que ele quer seguir é o do Minotauro e do Gordo, que treinam com todo mundo sem se importar com ganhar ou perder.

“Eu quero ter prazer de entrar no treino.”

Celsinho Venícius, no Pura Connection · 1:15:35

Ele também falou do avanço dos americanos no jiu-jitsu sem kimono. Segundo o Celsinho, os brasileiros ficaram muito tempo achando feia a chave de pé e tratando o sem kimono como coisa menor, e agora estão tendo de correr atrás. No fim, disse que o foco dele ainda é lutar. O que fica da conversa é a imagem de um cara que aprendeu a aguentar pressão debaixo de adulto na academia do Gordo e usou isso quando a vida bateu mais forte do que qualquer adversário.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.